Minha esposa é advogada.

Apesar da abissal diferença que existe entre nossas profissões, via de regra nos pegamos encontrando similaridades no que tange à forma com que os clientes tratam os profissionais. Estranhamente, as duas carreiras não tem nada a ver nos prós. Mas nos contras, a gente se entende que é uma beleza.

Design, é claro, fica ainda mais fragilizada. Não temos nem uma entidade forte de classe. Mas se engana quem pensa que ter um órgão gigante e influente como a OAB dando backup para o profissional resolve todos os problemas. E se engana duplamente quem pensa que, triando os profissionais que podem exercer a profissão de maneira impiedosa, através de uma prova cada vez mais difícil, garante que só gente preparada e incutida de senso de conjunto exerça o ofício.

Trocando em miúdos: está cheio de advogado sobrinho por aí.

Os motivos dificilmente são os mesmos. Minha análise é que temos uma horda de despreparados em Design porque nossa profissão é tida como algo fácil, que qualquer um com um computador, um Corel e “bom gosto” consegue fazer coisas “maravilhosas” e “descolar altos ganhos” para si. Já no caso do Direito, o problema está nas quantidades. Convencionou-se dizer que no Brasil, as profissões mais respeitadas são as de médico e advogado (não por acaso, são aquelas que o cara é chamado de “doutor” antes mesmo de pisar num doutorado).

Ocorre que medicina é bem mais complicado. Não estruturalmente falando, é complicado porque morre gente na sua mesa. É complicado porque uma faculdade de medicina precisa necessariamente de uma parafernália imensa, que custa caro e exige espaço, instalações e investimento em tecnologia.

Já para montar uma faculdade de direito você precisa (além dos professores, claro), de uma sala que caiba 150 alunos e um data show, se tanto. O resultado: trocentas faculdades de direito em cada esquina do país. Lotadas até a tampa por alunos que ainda crêem que serão altamente respeitados nas ruas a cada flash de sua carteirinha da ordem (que mais de 80% deles não vai conseguir tirar).

As faculdades de medicina, por outro lado, são tão difíceis de entrar quanto ganhar na mega sena da virada quando são públicas. E tão caras quanto os ganhos dos 10 primeiros anos da vida de um designer bem-sucedido quando são particulares. Não deixa de ser um super eficiente método de manter a profissão sempre em alta, sempre em evidência, sempre com demanda, nem que seja pela escassez de pessoas que consigam se adequar à uma das duas condições.

Sintomaticamente, o país bem que precisaria de 10 vezes mais médicos por ano, 10 vezes menos advogados, e não está nem aí pra Design. Mas deveria. Os números ilustram bem porque praticamente não vemos médicos “sobrinhos”, mas nas outras duas carreiras, tropeçamos com eles cada vez que saímos de casa.

É um caso clássico de oferta/procura. Muitos procuram poucos médicos = profissão valorizada. Muitos procuram muitos (muitos, muitos!!) advogados = concorrência desleal. Muitos designers procuram clientes, mas eles de verdade nem sabem direito que porra é essa = confusão, profissão sem valor, falta de entendimento.

Nas conversas com minha esposa sobre nossas profissões, eu chego a conclusão que vários tipos de confusão que nos causam dor e prejuízo são parecidas:

Cliente que pensa que sabe

Vivemos numa sociedade extremamente judicializada. Não é raro receber via Facebook matérias que chamam para supostos direitos que todos deveriam ter, e que podem render uma grana. Ou pessoas que, antes de uma separação, fazem toda a pesquisa prévia na internet em 45 minutos enquanto ouvem o último disco da Shakira, e acham que são verdadeiros juristas, e que só não fazem sozinhos porque não têm carteirinha.

Em design, o cliente é inundado de referências o tempo todo, se encanta com um monte de coisas que não necessariamente se encaixam, e acha que sabe tudo que precisa, mas infelizmente não aprendeu a “mexer” no computador, porque “tinha que trabalhar”. Em ambos os casos, a sensação de estar à altura do profissional que está contratando só causa sofrimento. Ninguém discute uma decisão de um cirurgião durante uma operação. Mas qualquer um acha que tem o pantone certo pra sua marca recortado de um pedaço de revista na carteira.

Cliente acha que é fácil

Sintoma parecido com o anterior, mas ligeiramente diferente. Em direito isso é mais localizado. Ninguém acha que um processo tributário é algo simples, mas experimente dialogar com alguém que acha que o divórcio ou um processo trabalhista é coisa corriqueira. Afinal, o resultado é sempre algo digitado em folhas de papel. Não se entrega um robozinho, não tem que abrir a cabeça, não tem risco de esguichar sangue no teto. Deve ser fácil, portanto.

Em design não preciso nem falar. Não sei quantas vezes eu ouvi o cliente dizer “é super facinho, você faz em cinco minutos”. Uma coisa eu digo pra todos: NÃO EXISTE 5 MINUTOS. Existe o tempo que eu gastei da minha carreira pra resolver essa parada em 5 minutos. Para piorar, tem outro estigma. Designers trabalham com prazer. Ou com a fantasia que os outros têm à respeito da profissão. Pô, trabalhar o dia inteiro no computador, fazendo desenhinhos, aplicando corzinha…. Ainda tem que pagar por isso?

Meusamigo e minhasamiga

Designers e advogados tem outro ponto de conexão. São sempre procurados pelos amigos em momentos muito peculiares da vida. Deles.

Advogados são sempre procurados em momentos de aflição. Ou tem alguém separando, ou sendo lesado, ou no risco de perder tudo, ter que desembolsar uma bufunfa que não contava. Ou tudo isso junto. E então é uma sacanagem do advogado querer ganhar sua grana justamente nesse momento tão frágil. E acreditem: advogados ganham amigos “do peito” que nunca o chamaram para dividir um chan de dentro num churrasco regado a Belco. Também é absolutamente normal ver aquela pessoa que até mês passado estava ostentando as fotos da última viagem ao Caribe estar passando por “um temporada tenebrosa” justamente quando precisa do Doutor amigão.

Nós, por outro lado, lidamos com a pessoa quando ela está em momentos bem diversos desses. Ou ela está gastando muito pra abrir um novo negócio e então está “desprevenida”, ou está precisando alavancar o negócio, mas está “totalmente sem bicho”, e precisa da nossa ajuda. Note que geralmente eles não pensam no design como parte integrante do processo, mas sim como um adendo. O Design virou um puxadinho nos negócios do Brasil.

Médicos já resolveram esse problema, e muito bem. Qualquer dor que você reclame para eles numa festa, e a não ser que exista algum órgão vital caindo no bolo do aniversariante, eles dizem “passa no meu consultório”. Aliás, geralmente, ele têm um consultório. E antes de você sentar na cadeira e dar um abraço amigão no seu amigão, vai passar pela recepcionista, e pagar. Ou passar o cartão do convênio. De uma forma ou de outra, a diferença que existe entre médicos, advogados e designers é bem clara: o pagamento vem ANTES do diagnóstico.

O sobrinho, sempre ele

Em design, eu não creio que precise ir mais fundo nessa discussão. Já estamos carecas de saber disso. Há quem diga que o sobrinho tem uma função social no panorama do mercado. Que ele pega serviços que um designer de respeito jamais se sujeitaria. E que o certo é não disputar mercado com eles, para não rebaixar a sua própria marca à altura deles.

De fato, eu tento não entrar na seara dos micreiros. Afinal, eu raramente tenho grande demanda por criação de ímã de geladeira, calendário com foto de gato e flyer de balada sertaneja. É raro (o que não quer dizer que não aconteça) perder trampo para um desses caras.

Mas até para podemos traçar uma comparação fiel para os dois lados, eu quero deixar de lado a figura do cara que faz arte no Print Master. O cara que tem os estudos baseado em tutorial do Corel 12. Esse cara, seria, na relação com o direito, comparável à tia do cafezinho que assiste muito Celso Russomano, e se acha entendida. Eles incomodam um pouco, mas na hora de encarar um trabalho de respeito, vão pipocar e dar pra trás.

Nas duas profissões, o que realmente causa estrago são os caras formados e estabelecidos, que resolvem fazer leilão do próprio trabalho. Os caras que dão um preço, e quando o cliente levanta meia pestana, dão imediatamente um desconto de 50% mais um copo de suco. São os caras que ganham trabalhos falando mal dos concorrentes. Que, vejam só, eventualmente são sobrinhos do dono do negócio mesmo. E sabem que determinado trabalho não está a altura deles, mas não conseguem ter a humildade de dizer não. De aprender. Não conseguem alcançar o fato de que seu trabalho está no mínimo sendo insuficiente para o que o cliente precisa, mas que, pior ainda, pode estar sendo um fator de temeridade na vida do cliente. Seja esse cliente um representado ou uma marca.

Nesse ponto, os sobrinhos advogados e os sobrinhos designers tem bastante em comum.

Na minha àrea, topei com vários deles. Muitas vezes eles são bem nascidos, e já saem da facu com um escritório todo bem montado, decoração feita por profissionais, equipamentos de primeira linha sobre as mesas. Nunca trabalharam num estúdio ou agência. Nunca foram estagiários, nunca fizeram arte final, nunca levaram bronca de diretor de arte bipolar ou dono de empresa no dia da primeira parcela do décimo terceiro. Apesar disso, eles se acham prontos para assumir um rebranding completo da Coca-Cola, uma semana depois da formatura. Isso eles não fazem, felizmente, porque a Coca não é maluca. Mas assumem a gestão da marca da indústria do amigo do papai sem pestanejar. E se for o caso, fazem de graça, “pra por no portifa”.

A chave da mudança desse paradigma não está em catequisar os sobrinhos. Nem rezar para que a luz da providência divina se abata sobre suas consciências subitamente, levando-os a rituais de sepukku coletivo. Mas reside, sim, na paciência em explicar para seus clientes porquê e em quê você é diferente. Nos riscos que se corre ao deixar seu caso, ou sua marca, nas mãos de quem não tem competência nem para valorizar a si próprio.

Afinal, preço tem de todos os tipos e tamanhos. Seja para advogados, para designers e para a mais antiga das profissões (as meninas de vida difícil me perdoem o linguajar chulo usado no título, mas é que se aplica melhor ao caso), sempre se pode achar alguém que faça mais baratinho. Depende mesmo do que você quer levar pra sua cama. Talvez por isso essa conduta receba comumente o nome de “prostituição da carreira”.

 

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