5 coisas que a Marvel pode ensinar para sua empresa

5 coisas que a Marvel pode ensinar para sua empresa

Não é novidade nenhuma o fato de que vivemos num mundo cada vez mais dividido. Para o bem ou para o mal, as pessoas estão entrincheiradas atrás das suas certezas, das suas simpatias e antipatias. Tudo é motivo para a criação de pequenos campos de batalha.

Para quem é nerd, a rivalidade Marvel X DC não é nada nova.

Sempre existiram os Marvetes e os Decenautas. Pessoas que se identificam mais com uma ou com outra editora. Muitas vezes essa escolha partia da forma que a empresa tratava suas propriedades. Outras, porque a companhia possuía aquele personagem que o cara mais curtia. Muitas vezes era guiada pelo time criativo que comandava certos títulos.

Sempre foi uma treta controlada. Era baseada na venda de gibis em banca, e a balança pendia para um lado em determinadas épocas, para o outro em outras épocas.

Quando se tratava de cinema ou TV, pelo menos nessa época não havia briga.

A DC era a campeã absoluta.

Muito do seu sucesso se devia ao fato que a empresa do Superman era de propriedade da Warner Brothers. Isso facilitava e muito o lançamento das versões cinematográficas dos seus personagens.

Por causa disso tínhamos os filmes do Superman com Chris Reeves, os Batmans de Tim Burton e Schumacher (que queira ou não, eram grandes produções).

O mesmo não podia ser dito da Marvel. Com a grana contada, as vendas de quadrinhos capengando, a editora vendia direitos de adaptação de seus herois pra qualquer um que pagasse uma mariola pro tio Stan. E isso gerou alguns dos piores filmes de heroi de todos os tempos. Nem para rir serviam.

Isso começou definitivamente a mudar com a estreia de Homem de Ferro. Sim, tivemos outros filmes baseados em quadrinhos antes, mas esta foi primeira produção assinada com o selo Marvel (que ainda não era da Disney), e a primeira que apontou para a criação de um universo compartilhado no cinema, onde os filmes estavam todos de alguma forma conectados, e os personagens apareciam de forma transversal em vários filmes.

A Warner/DC num primeiro momento não se sentiu intimidada. Para dizer a verdade, a DC ignorou a estratégia o quanto pôde. Até que o tamanho da Marvel e a cobrança dos fãs deixou impossível de fingir que não eram vistos.

Desde o lançamento de Homem de Aço a empresa vem tentando repetir o sucesso da competidora. E vem perdendo todas as brigas que entrou até o momento.

Mas o que isso tem a ver com o sua empresa?

Bom, o que está por trás dessa mega batalha campal é muito mais do que simplesmente “ser melhor” ou ter melhores personagens. São as estratégias de marca. Algumas muito certeiras, outras muito erradas.

Nesse artigo vamos tentar mostrar algumas, e como elas podem fazer sentido para áreas que não tem nada a ver com quadrinhos ou cinema.

1) A Marvel fez primeiro

Ser o primeiro em seu segmento faz toda a diferença. É muito mais difícil derrubar alguém do posto que ocupa do que chegar lá antes de todo mundo. A Marvel não era a maior produtora de filmes de super heroi quando decidiu lançar Homem de Ferro. A DC tinha sucessos consideráveis na manga, como os filmes do Batman de Christopher Nolan.

Já que não eram os maiores nesse quesito, a Marvel resolveu criar um só pra si. E da noite pro dia se transformaram no maior universo compartilhado da história do cinema. Até porque eram o único.

De lá pra cá, não foi somente a DC que quis surfar nessa ideia. A franquia Transformers está querendo algo do gênero, a Universal lançou seu Dark Universe, Fantastic Beasts é a realização do universo Harry Potter.

Nenhuma dessas iniciativas alcançou o sucesso da primeira.

Para o seu negócio: encontre qual é a categoria em que a sua empresa é a melhor. A primeira. A maior. Se não encontrar essa categoria, crie uma.

2) A Marvel faz com consistência

Desde que abraçou essa causa, a Marvel não desviou a rota. Cada filme coloca uma nova peça em seu quebra cabeças. Cada filme avança em direção em uma nova fase. Filmes enormes culminam em fins de fases. Filmes menores servem como tubos de ensaio para novos personagens.

Olhados em grupo, é impressionante como os filmes, mesmo sendo muito diferentes entre si,  mantém pontos-chave de conexão, que faz com que seus expectadores sintam-se familiarizados em qualquer um deles. É uma máquina funcionando a pleno vapor.

Na comparação, a DC parece não ter encontrado o ponto até hoje. Man of Steel tinha muito da visão de Christopher Nolan. Batman vs Superman era Zack Snyder até o osso. Esquadrão Suicida foi uma zona. Mulher Maravilha acertou em quase tudo, mas aí vem Liga da Justiça, e tá tudo meio misturado. Ora se vê a mão de Joss Whedon, ora a Zack Snyder.

Para o seu negócio: Decida qual é a sua linha de comunicação e mantenha-se dentro dela. Seus clientes precisam saber quais são os valores de sua empresa. Seu tom de voz e a forma de se apresentar devem causar conforto para quem compra sua marca.Correções de rumo devem ser pensadas e sutis.

3) A Marvel sabe encontrar e reter talentos

É difícil enganar muita gente ao mesmo tempo. Quando se olha o panteão de astros que a Marvel reuniu ou criou, é difícil não achar que eles estão se divertindo tanto ou mais do que nós ao vermos os filmes. Nas suas aparições públicas os atores parecem realmente amigos, e parecem estar satisfeitíssimos por estarem ali.

Robert Downey Jr., hoje o ator mais bem pago do mundo, já ameaçou pendurar a armadura algumas vezes, mas antes de suas declarações se transformarem em notícia, a Marvel vêm a público e tranquiliza todo mundo, assinando mais um contrato com o cara. Além disso, Downey parece saber que deve à Marvel a posição que se encontra hoje. Ele parece grato à empresa que apostou nele quando ninguém estava fazendo isso.

A Marvel acertou grande em várias contratações. Ninguém sabia quem era Chris Hemsworth antes de Thor. Paul Rudd era um ator de comédias românticas simples antes de Homem Formiga. Ninguém apostaria no gordinho Chris Pratt como ator de ação antes de Guardiões da Galáxia.

Isso para não falar dos diretores. John Favreau vinha de comédias independentes. Os irmãos Russo eram diretores de segunda unidade. John Watts, do novo Homem Aranha, tinha poucos filmes indie no currículo. Vão se tornando estrelas de primeira grandeza, e têm à Marvel para agradecer.

Do lado da concorrência, ninguém parece conseguir fazer Ben Affleck parecer genuinamente feliz por ser o Batman. As filmagens de todos juntos são dolorosamente encenadas.

Existem acertos, como Gal Gadot, Ezra Miller e Jason Momoa. Mas Ray Fisher, o ciborgue, não parece ter carisma no nível necessário para levar um filme solo.

Para o seu negócio: Invista em seus funcionários. Contrate gente que partilhe os ideais da sua empresa, e faça o possível para mantê-los felizes. Eles podem fazer o difícil trabalho de carregar a empresa nos ombros junto com você.

4) A Marvel sabe fazer Relações Públicas

Não é que a Marvel seja à prova de falhas. Mas mesmo quando crises de verdade acontecem, como a saída de Edgar Wright da direção de Ant-Man, elas são gerenciadas com a maior discrição possível, e a máquina é colocada para andar novamente em dois tempos.

Ninguém jamais fica sabendo notícias negativas de dentro das filmagens.

Os anúncios dos filmes são feitos de forma assertiva, e dificilmente existe mudança de calendário e cancelamento de filmes.

Por outro lado, qualquer oportunidade de mostrar os atores, produtores e personagens sob uma luz positiva é aproveitada. Kevin Feige nunca agrediu a concorrência, e pelo contrário, vive dizendo que está excitado pelo próximo filme da DC.

Do lado da editora de Batman, sempre ficamos sabendo das diferenças criativas entre diretores e produtores. Filmes são anunciados, cancelados ou postergados. Existe uma preocupação em guardar segredos que fazem subir o nível de antecipação e ansiedade, e quase sempre quando um anúncio oficial é feito, ele gera mais desilusão do que festa.

Para o seu negócio: Controle as informações do seu empreendimento. Olho nas fofocas, e em todo tipo de burburinho mal planejado. A imagem da sua empresa vai muito além do logotipo bonito. É o que as pessoas vêem nela que realmente importa.

5) A Marvel está constantemente ali

Desde que lançou a semente para Vingadores, a Marvel consegue a proeza de estar nos corações e mentes dos fãs com uma frequência incrível. A empresa sabe dosar muito bem o fluxo de notícias, lançamentos e aparições dos astros.

Às vezes é apenas como a divulgação de uma arte conceitual. Ou a contratação de um ator. Participação numa feira de quadrinhos. Mas sempre está ali, a marca sempre na altura dos olhos.

A DC sempre apostou no segredo como tempêro para sua publicidade. Poucas e parcas fotos dos bastidores vazam das produções. Poucas informações são reveladas. Mas estranhamente, há um mês do lançamento de qualquer filme, eles liberam 200 trailers e clips que geralmente contam a história inteira. Em Liga da Justiça melhoraram um pouco, mas temos um filme do Aquaman para estrear no ano que vem, e pouquíssima coisa foi divulgada.

Para o seu negócio: mantenha o relacionamento com seu público. Use suas redes sociais. Mantenha-o atualizado sobre suas conquistas e novidades. Fale diretamente com seus clientes. Responda suas dúvidas. Esteja próximo.

 

Parabéns, você está virando commodity

Parabéns, você está virando commodity

No começo do ano, impulsionado pela crise, vendo o volume de negócios dar uma caída brava, resolvi habilitar minha empresa para participar de licitações governamentais. O processo é chato, requer dezenas de documentos, certidões e idas e vindas ao contador, tudo para certificar que sua empresa é apta e idônea para fornecer o que promete ao governo. A princípio, achei isso bom, pois com certeza afastaria os caloteiros de carteirinha do processo.

Em tempos onde a gente se acostumou a operar páginas criadas com especialistas em UX e UI, o sistema de cadastramento parece ter sido feito por algum egípcio nascido em 2.000 AC, que até semana passada se comunicava via hieroglifos. É um site feio e mal feito. Mas que, em termos de mecânica e segurança, parece fazer sentido.

Foi duro, mas consegui. Logo nos primeiros meses, apareceram algumas licitações na área, e lá fui eu, todo orgulhoso, me inscrever.

A primeira licitação era para desenvolver o projeto gráfico e diagramação de uma série de revistas para um Conselho Regional de Medicina. A carta de chamada indicava o tipo de empresa que poderia participar, e dava um preço máximo para o conjunto das peças: algo em torno de R$ 2.500 para cada revista. Como eram 4 revistas, o valor total girava em torno de R$ 10.000,00. Não é que fosse o creme do creme, mas estava, digamos, adequado para aqueles fins.

A modalidade de licitação era pregão eletrônico. Isso significa que o menor preço vence. É, grosso modo, um leilão reverso. Logo ao se candidatar para o trabalho, você já dá seu primeiro lance, e você nunca sabe a identidade dos outros concorrentes, apenas o valor de seus lances. Foi quando levei o primeiro choque.

Veja, num leilão de um quadro (apenas como um exemplo) o leiloeiro apresenta a obra a ser vendida, com um preço mínimo. A partir daí, os presentes se revezam apresentando lances com preços gradativamente maiores, até que o maior de todos, vença. Mas não existe caso no mundo onde um leiloeiro divulgou o preço base de, sei lá, dez mil reais, e um cara já gritou do fundo “dou 50 mil!”. Os lances são graduais, até porque todos ali querem gastar o menor valor possível.

Pois naquela minha primeira incursão no mundo dos pregões, tendo um valor máximo de 10 mil reais, um cara já tinha dado o seu PRIMEIRO LANCE em R$ 8 mil. Achei estranho, mas como era um novato, coloquei R$ 7.800 apenas para baixar um pouco. E aguardei o dia do pregão real.

Por mais que eu tivesse me preparado para o pior, não dava pra ter noção do que viria a acontecer. O preço da disputa caía mais rápido do que eu conseguia atualizar. Em nacos grandes, absurdos. Quando o valor chegou a menos de mil reais por revista eu parei de tentar, mas fiquei olhando, horrorizado, o valor que aquelas empresas davam para seus próprios trabalhos.

O valor final ficou em menos de 300 reais por revista. Revistas com projeto gráfico, tratamento de fotos, editoração, design. 300 REAIS.

Semanas depois um novo projeto apareceu. E, já vacinado, fui conferir se eu tinha dado azar, ou se o padrão de comportamento era aquele mesmo.

Não me lembro os detalhes deste. O projeto era similar, diagramação e projeto gráfico de revista. Mas posso dizer que conseguiu ser pior do que o primeiro.

Como não me conformo com essas coisas, dei uma de detetive. Uma vez que o processo foi terminado, você passa a ter acesso aos nomes dos vencedores. E eu fui atrás de quem são, para tentar entender. Ambos os casos eram de empresas que tinham em seus contratos sociais absolutamente TUDO. Elas diagramavam, ilustravam, tratavam e tiravam fotos, faziam logotipos, ilustrações, manuais, capas de livro, faziam cópias, imprimiam, grampeavam, manuseavam, plastificavam, digitavam e se fosse preciso, fariam massagem nos pés dos contratantes. Eu vi alguns trabalhos deles. Eu não contrataria para varrer o chão do meu escritório. Não contrataria para fazer panfleto de balada tecno sertaneja no boteco da esquina da minha casa. E ainda assim, essas empresas estão por aí, fornecendo design para o governo. Uma delas tinha reclamações de ter usado trabalho alheio de um ilustrador num material governamental, sem permissão. É esse o nível.

Aliás, explica muito sobre a qualidade dos materiais oficiais do governo que vemos por aí.

Corta.

Numa das andanças internéticas, veio parar em minha mão, por intermédio de um amigo, uma chamada para cursos do Pronatec. Entre eles, exigindo apenas ensino fundamental, estava o curso Editor de Projeto Visual Gráfico. Eis a descrição dele:

Cria, desenvolve e edita projetos visuais gráficos. Utiliza programas de computação. Otimiza aspectos estéticos. Adequa conceitos de expressão e comunicação sintonizados com o projeto.

Podemos argumentar que seja uma descrição superficial demais para tudo que envolve. Mas, ao final de 180h de curso (que você pode fazer em 45 dias estudando 4h por dia), teremos mais um ser humano capaz de concorrer em pé de igualdade nas licitacões governamentais, habilitado conforme a importância que o próprio governo dá a nossa profissão.

Nesses momentos é que eu até acho que a regulamentação poderia ajudar. Mas talvez essas coisas ajudem a entender porque essa regulamentação não passou e não vai passar tão cedo. O fato é que os atores decisórios envolvidos nesse processo acham confortável poder contar com o design e suas adjacências como oferta de ocupações de nível médio. Como pedreiros, encanadores e ajudantes de pintura (nada contra essas profissões, por favor, mas nelas, realmente não vejo necessidade de uma faculdade), essas atividades ajudam a criar uma ilusão de campo de trabalho. “Você só precisa de um micro ligado a internet, e ‘programas de computação’ para desempenhar uma atividade glamourosa e rentável”.

Profissões são tão valorizadas quanto a importância que dão pra ela, e a dificuldade percebida de exercê-la . É cultural. Se tivéssemos conseguido, há muito tempo, explicar para nossa sociedade que fazer design é bem mais do que operar um computador, e que para ser bem sucedido nessa área, o profissional precisa dominar um cabedal de informações tão vasto, que só tendo mesmo uma aptidão nata para dar conta.

Outro fato a ser levado em conta é a falta total de critério da população para separar BOM design do design MEDÍOCRE. Quando a barra educacional/ cultural/ social está tão baixa quanto agora, qualquer um que sabia trocar uma fonte no word é considerado um profissional.

A regulamentação poderia, na melhor das hipóteses, garantir que somente empresas inscritas em nossa entidade de classe pudessem participar das licitações. Que os cursos de formação em design gráfico somente fossem permitidos com segundo grau completo. Que tivessem um número mínimo de horas para garantir um diploma profissional. Mas pouco poderia fazer pelo morto de fome que cobra 380 reais para diagramar uma revista de 40 páginas.

O problema não é que esse profissional exista. Vivemos num país em crise constante. O que é troco para uns é o almoço de outros. O problema não é que esse cara não encontre valor nem no próprio trabalho. O problema é quando a média de todos os profissionais pense assim.

E é assim que o governo, o mercado e seus vizinhos te vêem. Da forma e na direção que estamos caminhando, design em breve será ofertado como commodity. Como cimento. O mais barato vence.

Entrevista com Chris Do, da Blind e do The Futur

Entrevista com Chris Do, da Blind e do The Futur

Chris Do é o fundador e CEO da agência Blind, especializada em estratégia de marca, e consultoria em design. Fundada em 1995, Blind é pioneira em motion design. Hoje, Blind continua em sua tradição de excelência in the tradition of excellence, trazendo um time de classe mundial de estrategistas, designers, cineastas, escritores e animadores para criar conteúdos memoráveis.

Chris também é fundador do Canal The Futur, onde produz vídeos que ensinam e provocam designers a pensar de maneira mais profissional e conseguir melhores resultados e respeito no mercado. Numa entrevista muito elucidativa, Chris fala sobre carreira, mercado, crise e design.

 

Em seus vídeos, você sempre aponta que design é um negócio, e deve ser conduzido de acordo com isso. Você acha que ainda há muita confusão nesse assunto? Mais da parte dos clientes ou dos designers?

Eu penso que todos os criativos, seja um freelancer ou um dono de negócio, precisam decidir se eles querem perseguir arte/design como um hobby ou uma prática profissional. O que eu quero dizer com isso é: seja pago em uma quantidade que seja sustentável para manter seu estilo de vida a longo prazo.

Se esse é o caso, eles precisam aprender algumas habilidades chave: vendas, marketing, relações com clientes, negociação, licitação, estimativas, fechamento, comunicação, serviço de atendimento ao cliente etc…

Baseado nas perguntas que chegam a mim, eu acho que só uma pequena porcentagem de pessoas realmente entende o que está envolvido em tocar um negócio. É por isso que nós continuamos a produzir conteúdo para ajudar a educar em alguns desses princípios chave.

Por volta de 2008/2010, o mundo passou por uma grave crise. O Brasil está passando por uma crise brutal nesse momento. Como você e sua companhia conseguiram se manter no topo?

O derretimento da economia global nos atingiu bem forte também. Nós perdemos dinheiro em 2009 pela primeira vez na história da empresa. Foi o momento de nós aprendermos de verdade sobre nosso negócio. Então eu tive que me aprofundar em nossas finanças e aumentar meu QI de negócios. Antes disso, o dinheiro estava entrando, e nos permitia algumas práticas empresariais bem desleixadas. No ano seguinte, nós estávamos trabalhando no azul de novo. Por sorte, eu já estava trabalhando com um coach de negócios há anos, e estava preparado para algo assim.

Eu defino esse período como meu “estágio de crescimento”, e de maturidade como proprietário e operador. Então, por volta de 2012, nós notamos uma tendência externa da nossa produção comercial. Nós notamos uma mudança nas oportunidades vindas de agências de publicidade. Então, o que antes era pleno e bem orçado, começou a desacelerar.

Nós percebemos isso, e começamos a buscar por outros mercados que não fossem o dos comerciais de TV. Depois de algumas tentativas falhas de produzir vídeos corporativos, vídeos explicativos e web design, nós aprendemos como fazer UX da forma certa. Isso nos levou ao caminho da estratégia de marca e nós começamos a trabalhar com os clientes diretamente. Isso marcou uma mudança radical do tipo de trabalho que nós estávamos acostumados a fazer, então foi necessário ter modelos de pensamento e de trabalho inteiramente novos, incluindo uma nova equipe que era mais capaz de enfrentar os desafios dos trabalhos de design.

Estar no topo, como você colocou, requer ter constantemente na mente o que é seu negócio e sua reinvenção. Ou você rompe consigo próprio, ou será rompido.

Que conselho você dá para designers e clientes à respeito da importância do design em um momento de crise?

Agora, mais do que nunca, design se tornou a característica matadora ou vantagem competitiva. Não importa o quão vertical você está, design separa o bom do ruim. Se empresas de design querem ser relevantes no mercado século 21, elas precisam aprender as novas regras/ aplicações do design. Eles precisam de pensar além dos spots de TV de 30 segundos, ou design de identidade. Eles precisam de usar design para resolver problemas de negócios, marketing e metas de conversão. Eles precisam de desenhar uma melhor experiência de usuário através de toda jornada do usuário.

Em meu país, nós lutamos contra um monte de gente que não tem nenhum conhecimento específico trabalhando como designers, cobrando valores muito baixos e bagunçando o mercado todo. Vocês têm esse tipo de problema no mercado americano? Como lidar com eles?

O mercado é global. Não é local. É fácil para uma companhia buscar talento e criatividade em qualquer mercado. O problema com criativos que cobram muito pouco não é específico do Brasil. E impacta a todos. Mas, ao invés de nadar contra a corrente, designers (aqueles que são educados) devem estreitar seus negógios com perspicácia, aprender como solucionar problemas maiores e aí, empregar esses trabalhadores que cobram pouco.

Eu frequentemente falo sobre “preencher lacunas”. O cliente tem uma necessidade. Ele precisa de criativos para solucionar seus problemas. Designers (por todo o planeta) tem uma necessidade. A necessidade deles é pagar suas contas e colocar comida na mesa. O problema é que (em muitos casos), o cliente e o designer não sabem como contatar um ao outro ou mesmo como trabalhar um com o outro. Existe oportunidade aqui para uma agência de design em escala industrial.

Conecte a necessidade do cliente com a necessidade do designer. Solucione esse problema, e gerencie o processo. Existe uma tremenda oportunidade aqui.

No Brasil, nós vemos muitos estudantes abrindo seus estúdios logo após terminar a faculdade. Você acha que isso é um movimento inteligente, ou ganhar experiência no mercado antes faz mais sentido?

Eu não quero ser hipócrita (porque eu comecei minha empresa logo após a faculdade), mas eu não acho que seja uma boa ideia fazer isso. Eu sofri por muitos anos pela minha própria ignorância. Eu perdi oportunidades e afastei clientes porque eu não sabia fazer melhor.

Eu sugiro trabalhar para alguém para crescer criativamente e para aprender o negócio do design antes de se aventurar em sua própria. Parece que é um caminho vagaroso, mas na verdade é um atalho.

Como é sua rotina na Blind? Você ainda consegue ficar na criação, ou o trabalho como CEO toma muito do seu tempo?

Eu toco e gerencio duas companhias. Blind é uma companhia de serviços. Ela praticamente funciona sozinha, com os times criativos, incluindo dois diretores criativos e um diretor digital. Eu fico mais focado nas sessões de estratégia e no processo de inclusão dos clientes.

A outra companhia é a The Futur, que é uma startup de conteúdo/mídia. É nesta aonde eu passo a maior parte do tempo. Eu estou escrevendo, produzindo, editando, conversando com convidados e usuários.

Mas, para responder sua pergunta, eu raramente coloco as minhas mãos no trabalho de design mesmo.

Você tem algum trabalho de sonho, que ainda não realizou? O que seria?

Não. Eu estou fazendo aquilo que eu deveria fazer. Este é o último trabalho que eu terei na vida. Ensinar, compartilhar e ajudar outros a crescer enquanto construo igualdade no The Futur, vai ser o ápice da minha vida de trabalho. Não existe nada que eu prefira estar fazendo.

Você conhece algum designer ou ilustrador brasileiro? Quais são suas impressões?

Sim. Nós trabalhamos com vários brasileiros como estagiários, designers e diretores de fotografia. Brasileiros vêm de uma cultura muito diversa e criativa. O trabalho que eles produzem tende a ser muito lírico, brilhante e vibrante. Alguns dos melhores estúdios de motion design estão no Brasil.

Seu estúdio, Blind, faz alguns dos mais incríveis trabalhos em motion design que eu já vi. Como você está vendo a chegada da realidade virtual? O que você pensa sobre esse mercado?

Eu estou esperando na lateral quando se trata de VR. Existe muita atenção sobre isso nesse momento, já que é a nova coisa a se perseguir. Eu pessoalmente não experimentei VR como um grande veículo de storytelling. Meus interesses em VR estão no espaço da educação. Eu acho que isso pode ser o killer app que a indústria está esperando.

Você provavelmente lida com grandes empresas no seu trabalho. Como você se sente trabalhando com clientes pequenos? Te dá mais liberdade? E você acha que o design pode causar um impacto maior em grandes ou pequenas organizações?

Eu realmente não presto muita atenção ao tamanho do cliente. Eu estou mais focado no que eu posso ajudar nossos clientes a alcançar suas metas e auxiliá-los a se posicionar acima de seus competidores. O tamanho do cliente não é um bom indicador sobre a forma que eles são para se trabalhar. É mais sobre sua tenacidade, liderança e seu nível de gosto. Eles gostam do melhor trabalho? Eles gostam de ficar na segurança? Eles são uma marca desafiadora ou líder de mercado? O quanto eles são agressivos em sua ambição? Essas são as coisas que importam.

Sim, você precisa cuidar da sua marca. Não, você não sabe fazer isso sozinho.

Sim, você precisa cuidar da sua marca. Não, você não sabe fazer isso sozinho.

Nike. Apple. McDonalds.

Três empresas que são vistas como vencedoras. Três histórias completamente diferentes com algumas coisas em comum:

São empresas que começaram pequenas, cresceram rápido, e entenderam melhor que seus concorrentes o poder de suas marcas. Cada uma em sua área de atuação, elas se destacaram de tal forma pela maneira que gerenciam seus patrimônios visuais, que muitas vezes são alvo de críticas que dizem que seus produtos não estão à altura do valor de suas marcas.

É comum ouvir nos seus respectivos mercados que os tênis da Nike não são melhores que os dos seus concorrentes, que são produzidos com mão de obra escrava, que são caros demais pelo que entregam. Ainda assim, a Nike sempre esteve no topo do reconhecimento mundial quando se trata de esporte. Seus tênis sempre estiveram entre os principais sonhos de consumo de atletas profissionais, amadores e aqueles que simplesmente querem calçar algo descolado.

Mesma coisa acontece com o McDonalds. É público e notório que qualquer pessoa deve conseguir um sanduíche mais gostoso e maior em qualquer padaria da sua cidade, gastando menos dinheiro. Mas quando estamos soltos no ambiente hostil que é uma praça de alimentação, a maioria de nós tem que resistir bravamente ao impulso de nosso cérebro, comandando para irmos de encontro à loja vermelha e amarela. Se você estiver na companhia de um adolescente ou criança então, é quase uma batalha perdida.

Entre fãs de tecnologia é normal participar de conversas que dizem que, com o dinheiro que se investe pra adquirir um computador ou telefone da Apple, dá pra comprar dois da concorrência, e muitas vezes melhores que os dela. Verdade seja dita, a marca realmente cobra um abuso no preço dos seus produtos, especialmente por aqui. Mas basta lançar um produto novo, e instantaneamente formam-se filas de consumidores ávidos. Pode ser um i-descascador de banana, se tiver a maçãzinha (perdão pelo trocadilho) impressa, vai ter quem compre. Na minha opinião, a Apple está num momento decisivo em sua história, mas apesar disso, ainda é a marca mais valiosa do mundo, e antes que comece a soltar fumaça nas turbinas, ainda tem muito combustível a queimar.

Como isso ocorre?

E o que isso tem a ver com sua marca, sua empresa, seus produtos?

Talvez mais do que você pensa.

A força das 3 marcas, é que, antes mesmo de terem seus produtos percebidos pelo mercado, seus dirigentes perceberam que precisavam se diferenciar de seus concorrentes. Ter um bom produto ou serviço, de boa qualidade e com um preço justo é ótimo. Mas a verdadeira batalha pela percepção do público começa muito antes deles terem sequer conhecimento do seu produto. Começa quando eles passam na frente da sua vitrine, ou quando tem um cartão de visitas em mãos, ou quando olham seu logotipo numa rede social num post de um amigo, e nem estavam procurando nada na sua área de atuação.

Tudo isso vai construindo uma pré-percepção e uma predisposição do público em relação à sua empresa. Você pode vender alta tecnologia, mas se seu site for feio e velho, seu cliente não vai ver isso. Pode vender alta costura, mas numa vitrine zoneada, nem o maior estilista do mundo vai chamar a atenção. É como um dentista cheio de dente podre. Como um decorador que vive numa casa feia. Nosso cérebro não consegue parar de fazer conexões, de completar lacunas. Queira ou não, ele vai sempre estar formando uma imagem à seu respeito. E se essa imagem vai ajudar ou atrapalhar nas suas vendas, é contigo.

Quando tudo acontece da forma correta, a imagem que ele tem da sua marca não está construída, mas a porta para isso está aberta na sua mente. No momento em que esse consumidor, direta ou indiretamente, subir um degrau no envolvimento com sua marca, não vai sentir o choque que um sujeito que só viu cavalos na vida tem ao estar frente a frente com um avião. É uma relação passo a passo.

Ele pode entrar em seu site. Pode clicar num anúncio que você deixou no Facebook. Pode ler um artigo que você postou em seu blog. Pode descobrir um produto seu no Instagram. Pode ouvir da boca de um amigo uma experiência que ele teve com seu produto ou pode ver esse amigo usando. Neste momento, tão decisivo, mas ainda longe da hora em que ele tem seu produto no carrinho de compras, como sua marca se apresenta?

• A Nike pretende fornecer produtos esportivos de qualidade para todos os praticantes – profissionais ou amadores – de atividades físicas. Para isso, seu design é vibrante, moderno, usa materiais inovadores. A Nike sempre investe em uma infinidade de sites e hotsites com imagens produzidas pelos melhores fotógrafos do mundo. O site aliás, está em constante mudança. Muito difícil entrar nele com alguns meses de diferença e não encontrá-lo remodelado. Ela patrocina milhares de eventos esportivos profissionais e amadores por todo o mundo, e atletas de alta performance. O foco da Nike são os atletas amadores, que se espelham em seus ídolos na prática esportiva.

• O McDonalds praticamente inventou o conceito de fast-food. Os irmãos criadores do modelo instituiram uma verdadeira linha de montagem de comida em seus restaurantes. E depois, seu CEO teve a visão de perceber que, apesar de jovens adoram sanduíches, são as famílias que gastam dinheiro comendo os lanches. Toda a comunicação do McDonalds é voltada muito mais para a experiência em torno da qualidade e simplicidade do momento que as famílias tem dentro dos seus restaurantes do que propriamente em sabor. A padronização do gosto do lanche é parte da estratégia de marca. O sabor é tão parecido quanto suas lojas. Esteja onde estiver no mundo, a pessoa sempre sabe o que esperar da experiência com o McDonalds. Para isso investiram pesado em arquitetura, na famosa combinação do amarelo sobre o vermelho, nos personagens infantis. Mas engana-se quem pensa que estão parados. Existem lojas “tubo de ensaio”, aos poucos introduzindo verdes, pretos, tons mais sofisticados. Uma corporação desse tamanho não pode ser pega de surpresa por nenhuma nova onda.

• A Apple, que nasceu dentro da garagem de Steve Jobs, sabe lidar com sua imagem desde o dia do parto. Jobs, que era muito mais um hippie do que qualquer outra coisa, tratou de arrumar um terno e cortar o cabelo para apresentar seu primeiro computador ao povo, numa feira. De lá pra cá, e ainda que não fosse um designer, Jobs cuidou do design como prioridade em tudo que lançou. Até nas embalagens, que são um espetáculo a parte. A Apple quer atrair o povo cool, ligado em tecnologia, mas que não quer perder tempo sendo um geek que abre parafusos e mexe em configurações. Para conseguir isso, investe em uma comunicação minimalista, foca quase totalmente nos produtos e quase na sacralização deles. A comunicação da Apple, hoje, quase não mostra pessoas.

Quando o potencial cliente finalmente entra em contato direto com sua marca, novos momentos da verdade (os mais graves) vão se desenhando. Como ele é atendido? O quanto as pessoas que vendem o produto o defendem? Quantas usam de verdade o produto, e são capazes de sanar qualquer dúvida? O produto é tão bom quanto se vende? A percepção é de um produto caro ou barato? Vale o quanto pesa? Seu cliente se sente tentado à usá-lo? Terá orgulho de exibí-lo?

E depois da compra, seu trabalho terminou? De forma alguma.

Qual a relação do usuário com seu produto/ serviço? Ele se sente parte de um grupo por usá-lo? Tem um bom pós-venda? Tem boa assistência técnica? Seu produto capta a atenção das pessoas que tem contato com seu cliente?

Para o pequeno empresário, boa parte dessas questões parecem distantes do mundo do pequeno empresário. E para alcançar o nível de excelência e controle de algumas delas realmente custa muito caro. Mas não fazer nada custa muito mais. Existe toda uma gama de atitudes e ações que podem ser implementadas e que com certeza melhorarão os resultados e a imagem de sua empresa.

E como saber o que fazer, e em que medida? Contratando um profissional. Na verdade, não tem outro jeito. Ainda que você, empresário, seja um cara antenado, de olho em tudo que acontece no mercado, e ainda que você tenha muito potencial, contratar um profissional é o caminho certo. Os erros mais graves geralmente não são cometidos nas questões em que a gente simplesmente não tem conhecimento, mas sim aquelas que acha que sabe.

Trocando em miúdos:

• Você não é habilitado para enxergar os problemas de sua própria empresa. É como um médico operar o próprio filho. Não dá certo. Um designer, um gestor de marca sabe que perguntas fazer, como te ajudar no posicionamento, na busca de soluções.

• Trabalho real de marca é para médio/ longo prazo e contínuo. Não adianta contratar um designer, fazer logo e identidade visual e achar que está com o jogo ganho. Ou pensar que agora dá pra assumir o trabalho você mesmo, e economizar a grana. É preciso continuidade, constância, novidade, inovação. Você precisa se espelhar em empresas como estas que eu citei acima, e manter o investimento ativo sempre. Note que eu digo: sempre. Para sempre.

• Contrate o profissional certo. Não, seu sobrinho que mexe em Corel não é o mais indicado. Não é só saber mexer em computador, é muito mais sério que isso. Se você acredita nisso, passe a levar seu carro num mecânico qualquer, seus filhos num médico qualquer. Cobrar barato, em certos caso, geralmente significa gente pouco qualificada, que não se dá o valor. Profissionais são pessoas especializadas, que vivem e respiram seu mercado 100% dos dias. Não dá pra ser pão duro com o destino da sua empresa.

• Cuidar de uma marca é muito mais do que fazer um logotipo bonito. Vai muito além, e tem muito trabalho antes e depois disso. Se você quer grandes resultados, tem que investir para isso. Hoje, mais do que nunca, sucesso não cai do céu.

Para concluir. Se você quer trabalhar design e branding como gente grande, tenha em mente: conheça seu produto, conheça seu público, saiba onde quer chegar, e contrate gente séria.

 

Advogado, Designer e puta. Sempre dá pra achar um mais barato.

Advogado, Designer e puta. Sempre dá pra achar um mais barato.

Minha esposa é advogada.

Apesar da abissal diferença que existe entre nossas profissões, via de regra nos pegamos encontrando similaridades no que tange à forma com que os clientes tratam os profissionais. Estranhamente, as duas carreiras não tem nada a ver nos prós. Mas nos contras, a gente se entende que é uma beleza.

Design, é claro, fica ainda mais fragilizada. Não temos nem uma entidade forte de classe. Mas se engana quem pensa que ter um órgão gigante e influente como a OAB dando backup para o profissional resolve todos os problemas. E se engana duplamente quem pensa que, triando os profissionais que podem exercer a profissão de maneira impiedosa, através de uma prova cada vez mais difícil, garante que só gente preparada e incutida de senso de conjunto exerça o ofício.

Trocando em miúdos: está cheio de advogado sobrinho por aí.

Os motivos dificilmente são os mesmos. Minha análise é que temos uma horda de despreparados em Design porque nossa profissão é tida como algo fácil, que qualquer um com um computador, um Corel e “bom gosto” consegue fazer coisas “maravilhosas” e “descolar altos ganhos” para si. Já no caso do Direito, o problema está nas quantidades. Convencionou-se dizer que no Brasil, as profissões mais respeitadas são as de médico e advogado (não por acaso, são aquelas que o cara é chamado de “doutor” antes mesmo de pisar num doutorado).

Ocorre que medicina é bem mais complicado. Não estruturalmente falando, é complicado porque morre gente na sua mesa. É complicado porque uma faculdade de medicina precisa necessariamente de uma parafernália imensa, que custa caro e exige espaço, instalações e investimento em tecnologia.

Já para montar uma faculdade de direito você precisa (além dos professores, claro), de uma sala que caiba 150 alunos e um data show, se tanto. O resultado: trocentas faculdades de direito em cada esquina do país. Lotadas até a tampa por alunos que ainda crêem que serão altamente respeitados nas ruas a cada flash de sua carteirinha da ordem (que mais de 80% deles não vai conseguir tirar).

As faculdades de medicina, por outro lado, são tão difíceis de entrar quanto ganhar na mega sena da virada quando são públicas. E tão caras quanto os ganhos dos 10 primeiros anos da vida de um designer bem-sucedido quando são particulares. Não deixa de ser um super eficiente método de manter a profissão sempre em alta, sempre em evidência, sempre com demanda, nem que seja pela escassez de pessoas que consigam se adequar à uma das duas condições.

Sintomaticamente, o país bem que precisaria de 10 vezes mais médicos por ano, 10 vezes menos advogados, e não está nem aí pra Design. Mas deveria. Os números ilustram bem porque praticamente não vemos médicos “sobrinhos”, mas nas outras duas carreiras, tropeçamos com eles cada vez que saímos de casa.

É um caso clássico de oferta/procura. Muitos procuram poucos médicos = profissão valorizada. Muitos procuram muitos (muitos, muitos!!) advogados = concorrência desleal. Muitos designers procuram clientes, mas eles de verdade nem sabem direito que porra é essa = confusão, profissão sem valor, falta de entendimento.

Nas conversas com minha esposa sobre nossas profissões, eu chego a conclusão que vários tipos de confusão que nos causam dor e prejuízo são parecidas:

Cliente que pensa que sabe

Vivemos numa sociedade extremamente judicializada. Não é raro receber via Facebook matérias que chamam para supostos direitos que todos deveriam ter, e que podem render uma grana. Ou pessoas que, antes de uma separação, fazem toda a pesquisa prévia na internet em 45 minutos enquanto ouvem o último disco da Shakira, e acham que são verdadeiros juristas, e que só não fazem sozinhos porque não têm carteirinha.

Em design, o cliente é inundado de referências o tempo todo, se encanta com um monte de coisas que não necessariamente se encaixam, e acha que sabe tudo que precisa, mas infelizmente não aprendeu a “mexer” no computador, porque “tinha que trabalhar”. Em ambos os casos, a sensação de estar à altura do profissional que está contratando só causa sofrimento. Ninguém discute uma decisão de um cirurgião durante uma operação. Mas qualquer um acha que tem o pantone certo pra sua marca recortado de um pedaço de revista na carteira.

Cliente acha que é fácil

Sintoma parecido com o anterior, mas ligeiramente diferente. Em direito isso é mais localizado. Ninguém acha que um processo tributário é algo simples, mas experimente dialogar com alguém que acha que o divórcio ou um processo trabalhista é coisa corriqueira. Afinal, o resultado é sempre algo digitado em folhas de papel. Não se entrega um robozinho, não tem que abrir a cabeça, não tem risco de esguichar sangue no teto. Deve ser fácil, portanto.

Em design não preciso nem falar. Não sei quantas vezes eu ouvi o cliente dizer “é super facinho, você faz em cinco minutos”. Uma coisa eu digo pra todos: NÃO EXISTE 5 MINUTOS. Existe o tempo que eu gastei da minha carreira pra resolver essa parada em 5 minutos. Para piorar, tem outro estigma. Designers trabalham com prazer. Ou com a fantasia que os outros têm à respeito da profissão. Pô, trabalhar o dia inteiro no computador, fazendo desenhinhos, aplicando corzinha…. Ainda tem que pagar por isso?

Meusamigo e minhasamiga

Designers e advogados tem outro ponto de conexão. São sempre procurados pelos amigos em momentos muito peculiares da vida. Deles.

Advogados são sempre procurados em momentos de aflição. Ou tem alguém separando, ou sendo lesado, ou no risco de perder tudo, ter que desembolsar uma bufunfa que não contava. Ou tudo isso junto. E então é uma sacanagem do advogado querer ganhar sua grana justamente nesse momento tão frágil. E acreditem: advogados ganham amigos “do peito” que nunca o chamaram para dividir um chan de dentro num churrasco regado a Belco. Também é absolutamente normal ver aquela pessoa que até mês passado estava ostentando as fotos da última viagem ao Caribe estar passando por “um temporada tenebrosa” justamente quando precisa do Doutor amigão.

Nós, por outro lado, lidamos com a pessoa quando ela está em momentos bem diversos desses. Ou ela está gastando muito pra abrir um novo negócio e então está “desprevenida”, ou está precisando alavancar o negócio, mas está “totalmente sem bicho”, e precisa da nossa ajuda. Note que geralmente eles não pensam no design como parte integrante do processo, mas sim como um adendo. O Design virou um puxadinho nos negócios do Brasil.

Médicos já resolveram esse problema, e muito bem. Qualquer dor que você reclame para eles numa festa, e a não ser que exista algum órgão vital caindo no bolo do aniversariante, eles dizem “passa no meu consultório”. Aliás, geralmente, ele têm um consultório. E antes de você sentar na cadeira e dar um abraço amigão no seu amigão, vai passar pela recepcionista, e pagar. Ou passar o cartão do convênio. De uma forma ou de outra, a diferença que existe entre médicos, advogados e designers é bem clara: o pagamento vem ANTES do diagnóstico.

O sobrinho, sempre ele

Em design, eu não creio que precise ir mais fundo nessa discussão. Já estamos carecas de saber disso. Há quem diga que o sobrinho tem uma função social no panorama do mercado. Que ele pega serviços que um designer de respeito jamais se sujeitaria. E que o certo é não disputar mercado com eles, para não rebaixar a sua própria marca à altura deles.

De fato, eu tento não entrar na seara dos micreiros. Afinal, eu raramente tenho grande demanda por criação de ímã de geladeira, calendário com foto de gato e flyer de balada sertaneja. É raro (o que não quer dizer que não aconteça) perder trampo para um desses caras.

Mas até para podemos traçar uma comparação fiel para os dois lados, eu quero deixar de lado a figura do cara que faz arte no Print Master. O cara que tem os estudos baseado em tutorial do Corel 12. Esse cara, seria, na relação com o direito, comparável à tia do cafezinho que assiste muito Celso Russomano, e se acha entendida. Eles incomodam um pouco, mas na hora de encarar um trabalho de respeito, vão pipocar e dar pra trás.

Nas duas profissões, o que realmente causa estrago são os caras formados e estabelecidos, que resolvem fazer leilão do próprio trabalho. Os caras que dão um preço, e quando o cliente levanta meia pestana, dão imediatamente um desconto de 50% mais um copo de suco. São os caras que ganham trabalhos falando mal dos concorrentes. Que, vejam só, eventualmente são sobrinhos do dono do negócio mesmo. E sabem que determinado trabalho não está a altura deles, mas não conseguem ter a humildade de dizer não. De aprender. Não conseguem alcançar o fato de que seu trabalho está no mínimo sendo insuficiente para o que o cliente precisa, mas que, pior ainda, pode estar sendo um fator de temeridade na vida do cliente. Seja esse cliente um representado ou uma marca.

Nesse ponto, os sobrinhos advogados e os sobrinhos designers tem bastante em comum.

Na minha àrea, topei com vários deles. Muitas vezes eles são bem nascidos, e já saem da facu com um escritório todo bem montado, decoração feita por profissionais, equipamentos de primeira linha sobre as mesas. Nunca trabalharam num estúdio ou agência. Nunca foram estagiários, nunca fizeram arte final, nunca levaram bronca de diretor de arte bipolar ou dono de empresa no dia da primeira parcela do décimo terceiro. Apesar disso, eles se acham prontos para assumir um rebranding completo da Coca-Cola, uma semana depois da formatura. Isso eles não fazem, felizmente, porque a Coca não é maluca. Mas assumem a gestão da marca da indústria do amigo do papai sem pestanejar. E se for o caso, fazem de graça, “pra por no portifa”.

A chave da mudança desse paradigma não está em catequisar os sobrinhos. Nem rezar para que a luz da providência divina se abata sobre suas consciências subitamente, levando-os a rituais de sepukku coletivo. Mas reside, sim, na paciência em explicar para seus clientes porquê e em quê você é diferente. Nos riscos que se corre ao deixar seu caso, ou sua marca, nas mãos de quem não tem competência nem para valorizar a si próprio.

Afinal, preço tem de todos os tipos e tamanhos. Seja para advogados, para designers e para a mais antiga das profissões (as meninas de vida difícil me perdoem o linguajar chulo usado no título, mas é que se aplica melhor ao caso), sempre se pode achar alguém que faça mais baratinho. Depende mesmo do que você quer levar pra sua cama. Talvez por isso essa conduta receba comumente o nome de “prostituição da carreira”.

 

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