Shape – Um filme sobre Design

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As vezes esbarro com verdadeiras pérolas nas pesquisas diárias, e quando isso acontece, não dá para ficar apático.

Foi o que aconteceu hoje, quando encontrei este realmente adorável curta metragem de animação, chamado SHAPE.

O projeto, idealizado pela Pivot Dublin, além de ser um deleite para os olhos, é uma das formas mais didáticas, divertidas e universais que eu já vi de explicar para crianças (ou mesmo adultos e clientes), o que é design, porque ele existe, no que ele muda (e vem mudando cada vez mais) nossa vida.

O site do projeto por si só já é um achado, de onde se pode pinçar frases como:

“Design é uma coisa simples, que todos podemos usar. Pensamento criativo para propósitos práticos. Poder imaginar uma pedra como uma lança, uma caverna como casa ou uma rocha como parte de um muro. É uma ponte entre o que algo é, e o que pode ser. Entre as coisas que nós fazemos  e como as usamos. Não é toda a história do mundo que fazemos ao nosso redor, mas é uma importante parte. E sempre esteve por aí, nos ajudando, e fazendo as coisas funcionarem melhor”

Eu diria para todo designer, que luta diariamente para mostrar para as pessoas a relevância da nossa profissão: mostre esse filminho. Mostra para seus parentes, seus filhos, seus clientes. É uma forma bem humorada, não agressiva e bem didática de ensinar.

Não deixe de visitar o site do projeto, que é igualmente bacana: http://www.makeshapechange.com/.

 

O novo paradigma da sustentabilidade

Depois de ler a entrevista do Eric Karjaluoto, é impossível não ficar com uma pulga atrás da orelha. Sem ficar pensando até que ponto você é parte do problema, ou da solução.

Afinal de contas, designers são comunicadores. Damos corpo e voz às mensagens que nossos clientes gostariam de ver chegando corretamente  aos seus clientes e colaboradores. Um designer pode até não concordar com a mensagem, mas vai entregá-la  da melhor maneira possível, assim mesmo. Isso nos exime das intenções da empresa?

Na minha opinião, sim e não.

Não nos eximimos porque sempre podemos recusar um trabalho. Isso é mais fácil de dizer do que fazer. Além disso, poucos de nós efetivamente prestam serviços para vilões no quesito sustentabilidade. Poucos trabalham para mineradoras irresponsáveis ou poluidores compulsivos. A maioria dos designers enxerga valor em seus clientes, e sente que pode ajudá-los. É bem mais fácil dizer não a um fabricante de cigarro do que a uma empresa revendedora de peças de computador que te encomenda o serviço, apesar de você não ter ciência da maneira que nenhuma das duas trata o assunto em profundidade.

A necessidade acaba nos eximindo. Pelo menos durante um período de nossa vida, não estamos na posição de dizer alguns “nãos”. O que podemos, sim, é  tentar aplicar técnicas, materiais e filosofias que impactem esse cliente na direção correta.

É aceitável dizer então que a grande transformação que poderá levar o mundo a uma guinada no sentido de práticas mais cuidadosas com o meio ambiente está pousada nas mãos das empresas, especialmente das grandes, que têm massa crítica e dinheira fazer alguma diferença no quadro.

As empresas, normalmente colocarão a culpa da inação na falta de estímulo dos governos, que poderiam liberar impostos, linhas de crédito e leis que tornassem mais fácil e lucrativo a implantação dessas políticas.

Mas falta uma variável nessa equação, e de fato, será ela que definirá o resultado. É o cliente do cliente. E esse tem um poder maior do que as outras partes.

Parece ingênuo falar disso numa época em que se compra formadores de opinião para ditar estilos de vida baseados principalmente em consumo. Mas o fato é que o poder silencioso dos consumidores já operou pequenos milagres no mercado.

O consumidor é a meta, que vai guiar todas as ações das empresas. As empresas farão virtualmente tudo o que for preciso para não perder os compradores de suas marcas.

Duvida?

O McDonalds verde, que circulou tanto pela internet tempos atrás, e que está se espalhando, especialmente pela Europa não é apenas uma jogada de marketing. É uma reação inteligente a uma campanha negativa que começou após o documentário “Supersize Me”, de 2004. O filme pintava a rede de lanchonete como um dos agentes malignos que estavam transformando a sociedade americana numa nação de obesos mórbidos e diabético, pelo uso indiscriminado de comida gordurosa, mal feita e barata.

A resposta veio na contratação de um chef famoso, tirado do Four Seasons. Dan Coudreaut vem reformulando o cardápio do McDonalds, dando cores mais saudáveis ao menu. Isso acabou impactando até no conceito visual das lojas, ao invés do vermelho e amarelo estourados, as lojas tem um apelo muito mais refinado hoje em dia, inclusive aqui no Brasil. Eu mesmo comi num Mac de shopping center em São Paulo, cuja fachada substituiu o vermelho de fundo por um sofisticado preto.

A rede de hipermercados Walmart, depois de sofrer algumas acusações de dizimar os pequenos produtores e vender alimentos baratos, porém sem qualidade, começou a valorizar produtores locais, comprar vegetais orgânicos e mesmo a adquirir marcas de produtos com conceitos sustentáveis.

Recentemente, a rede fechou uma parceria pra lá de ambiciosa (pra não dizer compra, mesmo) com a produtora de orgânicos Yogurtes Stony Field. Gary Hirshberg, um ex-hippie se manteve no comando da marca, como diretor, presidente e C.E.O. (que eles, com ótimo senso de humor, denominam CE-Yo). Segundo Hirshberg, o Walmart agora exige critérios muito rígidos de seus fornecedores. E que o Walmart sempre foi conhecido pela capacidade de se reinventar.

Yogurtes orgânicos Stonyfiel, largamente vendidos pelo Walmart

Gôndola exclusiva de alimentos orgânicos, antes impensável

Certa vez, durante um evento que a empresa em que eu trabalhava promovou, tive a oportunidade de almoçar com o brilhante Bruce Mau (quem não conhece está desde já cometendo um pecado). Ele me contou que uma empresa de carpetes Canadense vinha fazendo muito sucesso ao introduzir uma linha de produtos sustentável, baseada num modelo de negócios diferente. A empresa, hoje muito conhecida dos ambientalistas, era a Interface. Mau foi consultado pela concorrente dessa empresa, a Shaw.

Bruce Mau é muito conhecido por seu incrivel trabalho na área de sustentabilidade. Na verdade, a Shaw sempre foi muito maior que a Interface. Mas todo o discurso do concorrente vinha fazendo mal a sua imagem. Decidiram que queriam uma linha ecológica, mesmo que não desse lucro, apenas para se posicionar bem no mercado. Bruce Mau aceitou o desafio, com uma condição. Que trabalhassem para que desse, sim, lucro.

Criou uma linha de carpetes feitos com materiais menos agressivos, que ao invés de virem em rolos, vinham em placas quadradas. Atrás de cada placa, um número de telefone e um código. Quando alguma placa era danificada, era só discar o número do telefone, passar o código, e a empresa se encarregava de repor a peça, levar a danificada, e cuidar do seu descarte de maneira correta.

Em pouco tempo se tornou a linha mais rentável da Shaw.

Detalhe da linha de carpetes sustentáveis da Shaw

Como se vê, uma vez que os clientes realmente demandem, as empresas correrão atrás de satisfazê-los. Em 100% dos casos. Isso será verdade inclusive  em casos cabeludos, como na susbsitituição de combustíveis fósseis e na destinação de lixo. Se o mercado pedir, as empresas atenderão.

O caso é que para isso acontecer, precisa entrar na nossa conta o ativo mais valioso, porém o mais escasso, não somente aqui, mas em vários lugares do mundo. Educação.

Alguém que pensa, raciocina, faz analogias inteligentes não consome qualquer coisa. Não dá qualquer coisa para seus filhos comerem. Não aceita qualquer mensagem que lhe direcionarem.

Mas aí, o buraco é muito mais embaixo. Enquanto puderem evitar esse choque de educação, mais lucro fácil terão as empresas, os governos e as igrejas.

E isso é caso para um outro post.

Entrevista com Eric Karjaluoto, criador do projeto Design Can Change

Conheci Eric Karjaluoto na How Design Conference de 2008. Ele foi um dos palestrantes, estava divulgando sua iniciativa, Design Can Change. Me chamou a atenção a paixão que ele tratava do tema, a lucidez e a alta dose de realismo, a falta de soluções mágicas.

Visitei seu site desde então, e tomei a decisão de tentar entrevistá-lo. Eric foi super atencioso, e entregou uma excelente entrevista, que apesar de ser extensa, vale muito a pena ser lida. Pensei em publicá-la em duas partes, mas no fim, vale a pena ler de uma tacada só.

Eric é dono do SmashLab, um estúdio especializado em Web em Vancouver, no Canadá. Confira a seguir essa grande entrevista.

Eric Karjaluoto e seu sócio, Eric Shelkie

Foto de Kirby Yau

Propósitto – Como você se tornou um designer? Qual é seu background em educação nesse sentido?

Eric Karjaluoto – Eu acho que sempre fui um designer – só levou algum tempo para descobrir isso. Quando criança, eu desenhava logos e criava revistas amadoras e quadrinhos com lápis e papel. Quando eu terminei a escola pública, eu escolhi estudar pintura na Universidade Emily Carr, em Vancouver.

Enquanto completava meus estudos lá (com apenas uma classe de design) eu gastei vários anos trabalhando como pintor. Isso envolvia pintar o dia inteiro, e trabalhar na produção de um jornal de noite. Esta foi uma época muito interessante, na qual eu tive a oportunidade de trabalhar em minhas pinturas, e também aprender as entradas e saídas dos softwares de design, pré-impressão e procedimentos de gráfica.

Depois de cinco anos disto, no entanto, eu decidi que queria fazer uma coisa bem feita, ao invés de correr atrás de duas buscas distintas. Foi quando comecei a falar com meu amigo (e hoje meu parceiro de negócios) Eric Shelkie sobre o quão excitante era a Web, e a possibilidade de começar um estúdio concentrado nela. Pouco tempo depois nós estávamos em nosso caminho, e foi quando nossa educação de verdade começou.

Propósitto – Quando você começou a trabalhar em assuntos relacionados com sustentabilidade? Em que ponto esse assunto se tornou uma preocupação real para você?

EK – Sustentabilidade é algo que eu sempre fui conhecedor, mas por um longo tempo, me faltaram os recursos para fazer algo a respeito. Eu acho que meus humores, e meu pensamento podem ser bem paradoxais; se por um lado eu sou um otimista a respeito de muitas coisas, por outro também me torno cínico e um pouco medroso às vezes. Este tem sido certamente o caso quanto se trata de consumo. Mesmo quando eu era mais jovem, eu olhava para o quanto nós consumimos (e gastamos) e me perguntava por quanto tempo nós conseguiríamos nos manter com este tipo de comportamento.

Em 2006, minha esposa e eu esperávamos o nascimento de nosso primeiro filho. (Nós sabíamos que, quando ele chegasse, teríamos menos oportunidades de assistir filmes em cinemas, então estávamos vendo assistindo quanto mais pudéssemos). Um deles foi “Uma Verdade Inconveniente”, do Al Gore, e teve um enorme impacto em mim. Na minha mente, Gore fez algo com esse filme que nunca tinha sido feito antes.

Não foi como se ele tivesse falado algo que nunca tinha sido dito antes. O brilho do filme era largamente em como ele havia feito. Primeiro de tudo, não havia sido feito para os “verdes”, mas ao invés disso, para a população geral. Enquanto isso, a escolha do formato foi crucial. Ao começar com um filme, e então ganhar mais profundidade em um livro, ele conseguiu que o assunto fosse palatável para qualquer um que quisesse se engajar. Mais que isso, penso, ele colocou luz sobre coisas que todos temos que estar atentos, ao mesmo tempo que sugeria o que podemos fazer para mudar as coisas para melhor. Uma coisa é falar sobre o quanto nós estamos fodidos, e bem diferente é encontrar esperança e colocar as pessoas na posição de agir.

Meu único problema com o filme é que ele mal fala alguma coisa sobre design. Provavelmente por conta da natureza generalista do público, mas parecia que ele tinha perdido alguma coisa grande, que talvez não devesse.

Propósitto – Explique o conceito por trás do projeto “Design can Change”

EK – Por volta da época em que eu vi esse filme, nós estávamos procurando por recursos em desin gráfico sustentável. Fora o Re-nourish, de Eric Benson, e a iniciativa Design by Nature, anunciada na Austrália, existia dolorosamente pouca informação disponível. Se não me falha a memória, não se conseguia encontrar um livro nas prateleiras que lidasse com esse tópico específico. (Eu devo dizer que já não é mais o caso.) Então, nossa primeira prioridade se tornou criar um site que pudesse servir como um ponto de partida para designers interessados em empregar mais práticas de sustentabilidade em seus trabalhos.

A ideia tem alguma facetas em si. Uma, como notado, foi simplesmente começar uma discussão. Outra foi facilitar conexões entre compradores de serviços de design e designers que estavam comprometidos com práticas mais sustentáveis. A outra foi servir como vitrine de projetos de design sustentáveis. Infelizmente, tivemos que em boa quantidade, “deixar a  bola cair” nesse último ponto.

Propósitto – Hoje em dia parece que todo mundo quer se proclamar “verde”. Mas quando cavamos um pouquinho, normalmente descobrimos que a maioria dessas mudanças são pouco mais do que marketing. Como podemos convencer nossos clientes a fazer mudanças reais? E como separar uma coisa da outra?

EK – Esse é um assunto enorme e muito complicado. Parte dele se relaciona com a intenção. Algumas organizações são simplesmente ignorantes sobre a questão, e sobre o que eles podem fazer a respeito. Outras estão preocupadas, mas inadvertidamente brandas, a despeito das boas intenções, porque elas não entendem as implicações do que estão dizendo ou fazendo. E então, existem aquelas organizações que simplesmente não ligam. Eles entendem perfeitamente que o que fazem causa danos ao meio-ambiente, mas fazem simplesmente uma “roupagem verde” para proteger suas marcas.

Todos esses grupos – fora o último – podem ser trabalhados. O desafio deles é em larga escala sua própria ignorância. Eu quero ser claro aqui: Eu não estou dizendo que seja estupidez, eu digo que eles simplesmente não tem a informação necessária para agir de modo mais efetivo e de forma frutífera. Então, para responder sua questão, é nosso trabalho como comunicadores, aprender o máximo que pudermos nesse tópico, e então dividir esta informação com nossos clientes, tanto diretamente (em discussões pessoais) quanto indiretamente (através de liderança). Fazendo isso, nós damos a eles os meios para mudar de verdade.

A para aqueles que se dizem “verdes” com intenções mais nefastas, precisamos de outra tática. Em última análise, eles são o inimigo, e devemos atacá-los. Nós podemos fazer isso tanto através de informação quanto por ação. Ao pedir à população que pense criticamente a respeito das mensagens com as quais eles são confrontados, nós podemos separar melhor essas mensagens que são dúbias por natureza. Eu sinceramente acredito que a maioria das pessoas se importa com essa questão, e fará boas escolhas uma vez que a trilha esteja clara. Saber quais organizações estão doentes pode habilitar os consumidores a boicotar aquelas marcas e demandar opções sustentáveis.

Propósitto – Depois que você fez desse assunto algo tão público, você notou um aumento, ou diminuição na quantidade de trabalho em seu estúdio?

EK – Fora alguma publicidade associada com esse esforço, Design Can Change teve muito pouco impacto em nosso core-business – para melhor ou pior.  Eu penso que esse esforço tem sido um ótimo “bônus” para alguns grupos que colocaram seus serviços na lista, mas acho que na maior parte, os dois negócios são vistos como atividades independentes (e largamente não-relacionadas).

Isto se deve, em parte, a uma decisão deliberada. Durante um tempo, pensamos que pudesse parecer um auto-serviço se colocásemos o SmashLAB e o Design Can Change muito próximos. Nossa preocupação era que, se não fossemos cuidadosos, os visitantes poderiam enxergar nosso esforço como uma trama para trazer trabalho para nosso estúdio. Apesar de não precisarmos nos preocupar dessa forma, também não queríamos correr o risco de comprometer a mensagem de modo algum.

De todo modo, eu preciso dizer que estamos nos soltando um pouco mais ultimamente. No futuro, eu gostaria de falar mais abertamente sobre nossos pensamentos sobre esse tópico, e amarrá-los com o expertise que podemos canalizar em nossa agência para fazer a diferença. Seria bom fazer parcerias com organizações que fazem da sustentabilidade uma preocupação central em suas operações.

Propósitto Agora que você vê essas mudanças acontecendo de dentro, você é um otimista ou um pessimista a respeito de mudanças climáticas?

EK – Minhas emoções nesse ponto vacilam bastante. A dificuldade para mim é que, apesar de sentir uma responsabilidade de agir nesse tópico, me falta muito do conhecimento pertinente para falar de um ponto de vista devidademente acadêmico. Eu não sou um cientista, nem um expert em clima, de modo que tudo que sei é através do que leio.

Ultimamente eu tenho lido alguns livros que pintam um quadro bem negro para o próximo século. Apesar de apontarem algumas potenciais soluções de larga escala, meu medo é que o coletivo ainda não exista. Esta é uma observação que parece uma piada; é que quando eu ouço as discussões que a maioria está tendo, e a limitada mudança que estamos realmente prontos a fazer, eu temo que nós não estejamos levando esse assunto a sério o suficiente.

Nós somos uma espécie incrivelmente inovadora e que parece se adaptar muito rapidamente quando os desafios se apresentam. Tecnologias estão sendo desenvolvidaas, gente muito esperta está falando, e mudanças estão acontecendo… mas parece que lentamente demais. De novo, o que precisamos é que exista vontade de acelerar esses esforços.

Acho que vai precisar de ficar muito ruim antes que a maioria das pessoas decida agir mesmo, e aí talvez seja (se já não for) tarde demais. Minha sensação é que, quanto agirmos,  encontraremos maneiras de seguir adiante. Tragicamente, no processo, algumas das populações mais vulneráveis devem sofrer consequencias devastadoras.

Propósitto – Que  conselho você daria a designers que querem ser mais efetivos em assuntos de sustentabilidade? Por onde devem começar?

EK – Minha primeira sugestão é que comecem a ler. Agarrem um ou dois livros sobre mudança climática e comecem a cavar a respeito do que aquilo significa. O fato é que muitos designers pensam que o tópico é limitado a escolher papéis recicláveis e usar tintas a base de vegetais, quanto na verdade é um desafio enorme, sistêmico. Em minha experiência, quanto mais eu aprendo, mais eu quero aprender….e mais sofisticado fica meu pensamento. É um tópico fascinante, e talvez o desafio mais interessante que nós jamais enfrentaremos como espécie.

Minha segunda sugestão é para designers que perguntam de que lado da batalha eles querem estar. Será que eles querem um papel na sobrevivência da raça humana? Ou será que eles estão nessa por si próprios, e ninguém mais? Por um longo periodo de tempo, nossa indústria esteve presa no último papel. Nós fizemos lindos desenhos para ajudar a vender mais coisas que alguns de nós jamais precisaremos. Claro, isto é um pouco simplificado, mas não totalmente inverdade, acho que vocês devem concordar.

Bilhões de dólares são gastos em propaganda todo ano, para estimular o consumo de combustível. A maioria disso serve ao único propósito de ajudar alguns poucos a acumular uma riqueza absurda. A despeito do que alguns foram levados a acreditar, isso tem um custo muito real. E frequentemente, esse custo é pago por todo o resto do mundo – mais ainda pelos mais pobres – sem mencionar todas as outras formas de vida desse planeta.

Nós precisamos ser a geração que se levanta para o desafio, e para designers, que oportunidade é melhor para criar um legado para gerações futuras? Talvez, por um momento, nós possamos colocar de lado nosso trabalho de vender refrigerantes, tênis, e “os últimos e melhores” gadgets, e trabalhar no mais importante campanha de publicidade de todos os tempos: a educação e mobilização dos habitantes da Terra em extender seu tempo nesse (formidável) planeta.

Propósitto – Você conhece algo sobre o Brasil, ou algum designer daqui? Qual sua perspectiva em o que está acontecendo por aqui?

EK – Nunca tive o privilégio de visitar o Brasil, e me fico embaraçado em dizer que sei muito pouco a respeito do que os designers daí estão fazendo. Então, vou virar a mesa. Em seu novo blog, talvez você possa escrever alguns posts sobre o que está acontecendo por aí, de maneira que pessoas como eu possam ficar mais educados sobre o estado do design sustentável no Brasil. O que você acha?

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Eric, no que depender de nós, da Propósitto, o desafio está aceito!

Ficando para trás

A GE acaba de anunciar o lançamento da  GE Wattstation. A impressionante mini-torre deve ficar ao lado dos carros elétricos e deve abastecer um automóvel em 4 a 8 horas. Parece muito, mas a GE conseguiu reduzir para a metade dos anteriores postos de abastecimento, que levavam 12 a 16 horas para carregar um veículo.

O design do produto é muito intuitivo, não deixa margem para erro de utilização. A GE estima que a torre deve estar disponível já a partir de 2011, em versões para rua e uma ainda menor, para residências.

Lá fora.

No Brasil, nossa falta de educação (tanto ecológica quanto a formal mesmo) nos deixa para trás em mais esse quesito. Só consigo pensar em entraves para a utilização de uma tecnologia assim. A começar que nunca vi um carro elétrico ou híbrido em lugar algum por aqui. Os smart cars, que poderiam ser uma solução desejável para cidades como São Paulo, custam o preço de um carro super-luxo, e são vendidos para quem quer parecer diferente, e “cool”, não para quem quer uma alternativa inteligente à uma moto.

Fora que, deixar um aparato desses exposto em nossas ruas seria condená-lo a morte pelo vandalismo, ou no mínimo, a alguém descobrir uma maneira de fazer um “gato”, e usar a eletricidade para acender as lâmpadas de casa.

A falta de preparo e vontade nos coloca cada vez mais no fim da fila das grandes soluções.

Design de Mobilidade

No livro Massive Change, de 2004, do Bruce Mau, há uma entrevista do Jaime Lerner, falando de transporte público. Ele dizia que uma das grandes soluções que deveria ser buscada para esse assunto seria um bicicleta que dobrasse, nas palavras dele “como um guarda-chuva”.

“Nós temos que redesenhar as bicicletas, de maneira que elas se abram como um guarda-chuvas. Se as bicicletas fossem mais portáteis, nós poderíamos integrá-las ao sistema de transporte público”. Na mesma entrevista, ele contava que estava trabalhando nesse conceito com designers de Curitiba. Ainda não vi nada de seu time (aliás, se alguém tiver notícias desse projeto, sou todo ouvidos), mas aparentemente, o conceito foi ouvido.

Vários estúdios de design estão desenvolvendo bikes dobráveis. Até o momento, nenhuma parece se abrir como Jaime Lerner gostaria, mas são lindas, e inegavelmente, podem ser levadas numa mochila.

A Volkswagen mostrou esse conceito de bike motorizada em uma feira de autos na China, e causou mais impacto do que com os seus próprios carros. Ela se dobra para caber exatamente sobre o espaço do estepe. A empresa ainda não divulgou a estratégia de vendas, nem preço.

Hoje encontrei essa outra bike, de um estúdio americano chamado Areaware.

Como se vê, o preço  (por volta de US$ 2.500,00) ainda é bem salgado.

Mas é bom perceber que as soluções para os problemas que enfrentamos nem sempre são as mais óbvias. Que muitas vezes é preciso enxergar o problema de ângulos completamente novos. Até porque as soluções instantâneas (como mais estradas, viadutos e ônibus, nesse caso), podem não resolver, ou ainda agravar, ou pior ainda, criar novos obstáculos.

Aqui no Brasil, especialmente nas metrópoles que mais seriam beneficiadas com iniciativas como essas, ainda temos que contornar outro problema antes. O da segurança pública. Quem se habilita a andar com uma bike tão cara dentro de uma mochila, em São Paulo?

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