Entrevista com Chris Do, da Blind e do The Futur

Entrevista com Chris Do, da Blind e do The Futur

Chris Do é o fundador e CEO da agência Blind, especializada em estratégia de marca, e consultoria em design. Fundada em 1995, Blind é pioneira em motion design. Hoje, Blind continua em sua tradição de excelência in the tradition of excellence, trazendo um time de classe mundial de estrategistas, designers, cineastas, escritores e animadores para criar conteúdos memoráveis.

Chris também é fundador do Canal The Futur, onde produz vídeos que ensinam e provocam designers a pensar de maneira mais profissional e conseguir melhores resultados e respeito no mercado. Numa entrevista muito elucidativa, Chris fala sobre carreira, mercado, crise e design.

 

Em seus vídeos, você sempre aponta que design é um negócio, e deve ser conduzido de acordo com isso. Você acha que ainda há muita confusão nesse assunto? Mais da parte dos clientes ou dos designers?

Eu penso que todos os criativos, seja um freelancer ou um dono de negócio, precisam decidir se eles querem perseguir arte/design como um hobby ou uma prática profissional. O que eu quero dizer com isso é: seja pago em uma quantidade que seja sustentável para manter seu estilo de vida a longo prazo.

Se esse é o caso, eles precisam aprender algumas habilidades chave: vendas, marketing, relações com clientes, negociação, licitação, estimativas, fechamento, comunicação, serviço de atendimento ao cliente etc…

Baseado nas perguntas que chegam a mim, eu acho que só uma pequena porcentagem de pessoas realmente entende o que está envolvido em tocar um negócio. É por isso que nós continuamos a produzir conteúdo para ajudar a educar em alguns desses princípios chave.

Por volta de 2008/2010, o mundo passou por uma grave crise. O Brasil está passando por uma crise brutal nesse momento. Como você e sua companhia conseguiram se manter no topo?

O derretimento da economia global nos atingiu bem forte também. Nós perdemos dinheiro em 2009 pela primeira vez na história da empresa. Foi o momento de nós aprendermos de verdade sobre nosso negócio. Então eu tive que me aprofundar em nossas finanças e aumentar meu QI de negócios. Antes disso, o dinheiro estava entrando, e nos permitia algumas práticas empresariais bem desleixadas. No ano seguinte, nós estávamos trabalhando no azul de novo. Por sorte, eu já estava trabalhando com um coach de negócios há anos, e estava preparado para algo assim.

Eu defino esse período como meu “estágio de crescimento”, e de maturidade como proprietário e operador. Então, por volta de 2012, nós notamos uma tendência externa da nossa produção comercial. Nós notamos uma mudança nas oportunidades vindas de agências de publicidade. Então, o que antes era pleno e bem orçado, começou a desacelerar.

Nós percebemos isso, e começamos a buscar por outros mercados que não fossem o dos comerciais de TV. Depois de algumas tentativas falhas de produzir vídeos corporativos, vídeos explicativos e web design, nós aprendemos como fazer UX da forma certa. Isso nos levou ao caminho da estratégia de marca e nós começamos a trabalhar com os clientes diretamente. Isso marcou uma mudança radical do tipo de trabalho que nós estávamos acostumados a fazer, então foi necessário ter modelos de pensamento e de trabalho inteiramente novos, incluindo uma nova equipe que era mais capaz de enfrentar os desafios dos trabalhos de design.

Estar no topo, como você colocou, requer ter constantemente na mente o que é seu negócio e sua reinvenção. Ou você rompe consigo próprio, ou será rompido.

Que conselho você dá para designers e clientes à respeito da importância do design em um momento de crise?

Agora, mais do que nunca, design se tornou a característica matadora ou vantagem competitiva. Não importa o quão vertical você está, design separa o bom do ruim. Se empresas de design querem ser relevantes no mercado século 21, elas precisam aprender as novas regras/ aplicações do design. Eles precisam de pensar além dos spots de TV de 30 segundos, ou design de identidade. Eles precisam de usar design para resolver problemas de negócios, marketing e metas de conversão. Eles precisam de desenhar uma melhor experiência de usuário através de toda jornada do usuário.

Em meu país, nós lutamos contra um monte de gente que não tem nenhum conhecimento específico trabalhando como designers, cobrando valores muito baixos e bagunçando o mercado todo. Vocês têm esse tipo de problema no mercado americano? Como lidar com eles?

O mercado é global. Não é local. É fácil para uma companhia buscar talento e criatividade em qualquer mercado. O problema com criativos que cobram muito pouco não é específico do Brasil. E impacta a todos. Mas, ao invés de nadar contra a corrente, designers (aqueles que são educados) devem estreitar seus negógios com perspicácia, aprender como solucionar problemas maiores e aí, empregar esses trabalhadores que cobram pouco.

Eu frequentemente falo sobre “preencher lacunas”. O cliente tem uma necessidade. Ele precisa de criativos para solucionar seus problemas. Designers (por todo o planeta) tem uma necessidade. A necessidade deles é pagar suas contas e colocar comida na mesa. O problema é que (em muitos casos), o cliente e o designer não sabem como contatar um ao outro ou mesmo como trabalhar um com o outro. Existe oportunidade aqui para uma agência de design em escala industrial.

Conecte a necessidade do cliente com a necessidade do designer. Solucione esse problema, e gerencie o processo. Existe uma tremenda oportunidade aqui.

No Brasil, nós vemos muitos estudantes abrindo seus estúdios logo após terminar a faculdade. Você acha que isso é um movimento inteligente, ou ganhar experiência no mercado antes faz mais sentido?

Eu não quero ser hipócrita (porque eu comecei minha empresa logo após a faculdade), mas eu não acho que seja uma boa ideia fazer isso. Eu sofri por muitos anos pela minha própria ignorância. Eu perdi oportunidades e afastei clientes porque eu não sabia fazer melhor.

Eu sugiro trabalhar para alguém para crescer criativamente e para aprender o negócio do design antes de se aventurar em sua própria. Parece que é um caminho vagaroso, mas na verdade é um atalho.

Como é sua rotina na Blind? Você ainda consegue ficar na criação, ou o trabalho como CEO toma muito do seu tempo?

Eu toco e gerencio duas companhias. Blind é uma companhia de serviços. Ela praticamente funciona sozinha, com os times criativos, incluindo dois diretores criativos e um diretor digital. Eu fico mais focado nas sessões de estratégia e no processo de inclusão dos clientes.

A outra companhia é a The Futur, que é uma startup de conteúdo/mídia. É nesta aonde eu passo a maior parte do tempo. Eu estou escrevendo, produzindo, editando, conversando com convidados e usuários.

Mas, para responder sua pergunta, eu raramente coloco as minhas mãos no trabalho de design mesmo.

Você tem algum trabalho de sonho, que ainda não realizou? O que seria?

Não. Eu estou fazendo aquilo que eu deveria fazer. Este é o último trabalho que eu terei na vida. Ensinar, compartilhar e ajudar outros a crescer enquanto construo igualdade no The Futur, vai ser o ápice da minha vida de trabalho. Não existe nada que eu prefira estar fazendo.

Você conhece algum designer ou ilustrador brasileiro? Quais são suas impressões?

Sim. Nós trabalhamos com vários brasileiros como estagiários, designers e diretores de fotografia. Brasileiros vêm de uma cultura muito diversa e criativa. O trabalho que eles produzem tende a ser muito lírico, brilhante e vibrante. Alguns dos melhores estúdios de motion design estão no Brasil.

Seu estúdio, Blind, faz alguns dos mais incríveis trabalhos em motion design que eu já vi. Como você está vendo a chegada da realidade virtual? O que você pensa sobre esse mercado?

Eu estou esperando na lateral quando se trata de VR. Existe muita atenção sobre isso nesse momento, já que é a nova coisa a se perseguir. Eu pessoalmente não experimentei VR como um grande veículo de storytelling. Meus interesses em VR estão no espaço da educação. Eu acho que isso pode ser o killer app que a indústria está esperando.

Você provavelmente lida com grandes empresas no seu trabalho. Como você se sente trabalhando com clientes pequenos? Te dá mais liberdade? E você acha que o design pode causar um impacto maior em grandes ou pequenas organizações?

Eu realmente não presto muita atenção ao tamanho do cliente. Eu estou mais focado no que eu posso ajudar nossos clientes a alcançar suas metas e auxiliá-los a se posicionar acima de seus competidores. O tamanho do cliente não é um bom indicador sobre a forma que eles são para se trabalhar. É mais sobre sua tenacidade, liderança e seu nível de gosto. Eles gostam do melhor trabalho? Eles gostam de ficar na segurança? Eles são uma marca desafiadora ou líder de mercado? O quanto eles são agressivos em sua ambição? Essas são as coisas que importam.

Propósitto entrevista Kevin Shaw, da Stranger and Stranger

É comum conhecermos agências e estúdios especializados em varejo, ou com grande experiência em pontos de venda. Essas empresas passam a ter grande know-how de determinado tipo de ação, e por isso são procuradas por várias companhias do mercado.

Mais dificil é um estúdio de design completamente dedicado a uma indústria específica. É o caso da Stranger & Stranger, que atende exclusivamente à indústria de bebidas. Na verdade, atende é um termo brando para o trabalho deles. As embalagens que a Stranger cria se parecem mais com peças de arte. Mesmo quem não é um grande bebedor ficará tentado a ter na prateleira algumas de suas garrafas, nem que seja para ficar só olhando.

Conversamos com Kevin Shaw, fundador do estúdio, que falou sobre a indústria, crise e sobre manter a simplicidade do processo.

Conte um pouco sobre como (e porque) você se tornou um designer gráfico.

Eu estava entediado como um Químico, fui para escola de arte e me apaixonei por comunicação visual.

 Quando você teve contato pela primeira vez com a indústria da bebida?

Há aproximadamente 15 anos, eu estava bebendo vinho e comprando num leilão e pensei que os rótulos era um pouco chatos, então entrei em contato com a vinícola mais próxima, e me ofereci para fazer rótulos em troca de vinho. Começou como um hobby, e agora saiu um pouco do controle.

É difícil ver um estúdio completamente dedicado a uma indústria específica. Como você decidiu trabalhar dessa forma?

Algumas razões. Embalagem é tudo nesse setor, as pessoas na indústria da bebida são muito bacanas, e é divertido. Além disso, existem 500 mil marcas de bebida no mundo, então nunca ficaremos sem serviço. E é uma indústria a prova de recessão, porque as pessoas sempre bebem.

 Quais são as particularidades de se trabalhar nessa indústria?

Existem 6 mil pinot noirs só na California. Nenhuma outra indústria tem tanta competição, então embalagem é uma peça chave.

Fale um pouco sobre seu processo de trabalho

Um cliente chega com uma marca ou um produto, nós identificamos uma estratégia e criamos um design que o diferencie de seus competidores, e todo mundo vive feliz para sempre. Nós mantemos o processo muito, muito simples. Nós não usamos papel, tudo é feito no Illustrator, e nós só produzimos um layout. Na verdade nós estamos criando mais e mais de nossos próprios produtos, então o processo é ainda mais simples que isso.

Uma vez que você conhece tanto sobre esse mercado, você sente a necessidade de evitar os “atalhos criativos” no processo?

Ser tão especialista significa que não perdemos tempo, e cortamos mentalmente um monte de erros antes mesmo de começar. Nós sabemos quais produtos existem aí fora, e como a indústria funciona e sabemos o que vai vender.

 Qual é sua bebida favorita? E qual a sua embalagem preferida de todos os tempos?

Eu sempre gosto de um bom burgundy. Minha embalagem preferida? Essa é uma dificil. Garrafas vintage da seltzer.

 A crise internacional está afetando esse mercado? Companhias estão investindo menos em embalagem do que antes?

Não no mercado de bebidas. O mercado Inglês é bem aborrecido porque é controlado por alguns supermercados, guiados por corte de preços, e as margens caíram tanto que o mercado está comendo a si próprio. Nos Estados Unidos é ótimo porque eles valorizam a inovação e sabem como valorizar a venda. E o mercado da Asia ainda é maluco, já que todo mundo quer colocar os pés no mercado de luxo. Nós tentamos manter nossas mãos em muitos mercados e setores quanto podemos, assim um deles está sempre em alta.

Você conhece o Brasil, ou designers brasileiros?

Não, nenhum.

Conhece alguma bebida brasileira?

Obviamente, conhecemos a cachaça, mas nunca desenhamos uma marca brasileira

Propósitto entrevista Al Ries

Quando fazemos um trabalho de Branding hoje em dia, é quase um passo natural do processo trabalhar o posicionamento da marca. Bem, não foi sempre assim. E nem faz tanto tempo que esse conceito foi criado. Os dois “pais” da ideia de posicionamento são Jack Trout e Al Ries, que nos anos 70 escreveram uma série de artigos que se transformaram no livro Posicionamento: A Batalha por sua Mente, considerado como o primeiro e mais importante livro de Marketing.
O Sr. Al Ries hoje é dono de uma concorrida consultoria de marketing, junto com sua filha Laura Ries, a Ries & Ries, no estado da Georgia.
Quando pedi a entrevista, achei que não conseguiria. Mas foi bem ao contrário. O Sr. Ries foi muito solícito e respondeu as perguntas muito amavelmente.
Na entrevista abaixo, ele fala sobre os novos rumos do marketing, a importância do design num processo de marketing e mostra que conhece o Brasil mais do que alguns brasileiros.

Você, junto com Jack Trout, são os pais do conceito de Posicionamento. Muitas ideias do seu livro são usadas por companhias desde então. Em que o advento da internet e medias sociais mudaram esse conceito?

Existe uma grande mudança no conceito de Posicionamento, mas antes ,deixe-me explicar porque a internet e as medias sociais não afetaram a ideia de Posicionamento.Marketing tem 2 aspectos: (1) Estratégia e (2) Táticas. Posicionamento é puramente um conceito de estratégia. Ele não envolve as táticas de um programa de marketing. Por outro lado, midias sociais são táticas, junto com outros meios, incluindo rádio, televisão, impressos e outdoors.É verdade que as táticas de marketing mudaram radicalmente com a introdução da internet, mas as estratégias não.

Portanto, Posicionamento ainda é um conceito válido.Porém, houve um desenvolvimento importante que afetou meu entendimento em Posicionamento. Inicialmente, Posicionamento era um conceito completamente verbal. Mas hoje, ficou claro que não olhamos direito a importância dos aspectos visuais do marketing.

Minha filha e parceira acaba de escrever um livro sobre esse assunti chamado “Visual Hammer” (Martelo Visual). O tema é: para colocar uma ideia de Posicionamento, uma ideia verba, na mente de um consumidor, você precisa de um martelo visual. O contorno da garrafa da Coca-Cola. O cowboy da Marlboro. Os arcos dourados do McDonalds.


Hoje em dia, nós vemos pessoas e companhias levantarem-se do nada e vivarem companhias de bilhões de dólares, do dia para noite (como o instagram, por exemplo). Você acha que as novas mídias fazem ser mais fácil para pequenas empresas confrontarem gigantes? Como você vê esse processo?

A nova mídia tem definitivamente feito possível para companhias aparecem do nada e se tornarem importantes e financeiramente poderosas do dia para a noite. Mas Google, Facebook, Instagram e dúzias de outras companhias não se transformaram em sucessos por conta de publicidade tradicional ou programas de marketing. Elas se tornaram bem sucedidas pelo uso de Relações Públicas.

Isso é consistente com nossa filosofia, que é RP primeiro, propaganda depois, como recomendado em nosso livro “The Fall of Advertising and the Rise of PR” (A queda da Publicidade e a Ascenção do RP”

A publicidade em suas formas mais clássicas, como revistas e comerciais de TV está perdendo sua importância? Qual o futuro dessas mídias?

Publicidade está perdendo importancia no lançamento de uma marca. Mas ainda é extremamento importante para a manutenção de uma marca, uma vez que ela se tornou bem sucedida. De novo, RP primeiro, Publicidade depois. Porque isso? Por que publicidade não tem a credibilidade entre consumires, especialmente publicidade que tentar estabelecer uma nova marca. Relações Públicas tem credibilidade. Publicidade não.

Depois que a marca está estabelecida, porém, a situação muda. Uma marca bem-conhecida como a Coca-Cola tem montes de credibilidade entre consumidores.

O que você pensa sobre os novos mercados emergentes, como o Brasil? Quais são os desafios para comunicar produtos para esses mercados?

O Brasil tem muito potencial. É um país grande, com uma grande população e muitos recursos naturais. Brasil deveria ser mais bem-sucedido do que é.

Considere os fatos. América é o maior país da América do Norte. Alemanha é o maior país da Europa. China é o maior país da Asia. E o Brasil é o maior país da América do Sul.

O Brasil deveria ser tão bem sucedido quanto a América Alemanha e China, mas não é. Por que será?

O que você acha que uma companhia brasileira deveria fazer para construir uma marca de classe mundial?

O problema básico é que a maioria das companhias brasileiras não pensam globalmente. Elas concentram seus recursos no mercado local e então assumem que se uma marca é bem-sucedida no Brasil, também vai ser bem-sucedida no mercado global. Não é verdade. Para construir uma marca global, você tem que pensar “globalmente”.

Linguagem é um dos problemas. Inglês se tornou a segunda lingua do mundo. Uma marca brasileira precisa de um nome que funcione bem em inglês, não apenas em Português.

Segundo, uma marca brasileira precisa ser “a primeira em uma nova categoria”, não somente ter um produto melhor.

Qual a importância do design gráfico em um processo de Branding?

É extremamente importante criar um símbolo visual para uma marca. O que é um símbolo visual? Um símbolo que diga alguma coisa a respeito da marca. Pode ser uma marca registrada, mas mais frequentemente, não é.

A garrafa com os contornos da Coca-Cola é a original, a autêntica cola.

O cowboy diz que Marlboro é um cigarro “masculino”.

Em um artigo recente, você disse que o termo correto para “marketing” deveria ser “branding”. Você acha que as companhias estão cientes da importância de construir suas marcas?

O que eu quis dizer no artigo era que o gerenciamento tomou muitas das funções tradicionais de marketing, como vendas e pesquisa de produtos, e desenvolvimento, deixando o pessoal de marketing sem nada a não ser a função de “branding”. Eu não acho que seja necessariamente uma boa ideia; eu estava apenas pontuando o que eu acreditava ser um fato. (eu não conheço nenhum Chefe de Marketing que esteja também tomando conta das vendas, por exemplo).

Você já esteve no Brasil? O Sr. conhece pessoas e/ou companhias daqui?

Eu estive no Brasil mais de 20 vezes, começando em 1972, logo após de nossos artigos sobre Posicionamentos terem sido publicados em Advertisign Age.

Eu fiz uma apresentação sobre Posicionamento num seminário que durou três dias (começando as 5 da tarde e terminando as 9 da noite).

O que foi interessante, os primeiros dois dias foram tomados por palestrantes brasileiros que argumentavam que Posicionamento estava errado. Eu achei isso estranho. Porque não fazer o contrário, primeiro ouvir o conceito e depois desmontá-lo.

Nós também fizemos um trabalho de estratégia para companhias brasileiras, incluindo uma marca de tratores que chamamos “Maxion”, um exemplo de nome que faz sentido em inglês.

Propósitto entrevista Mateusz Kolek, ilustrador, da Polônia

Como outros grandes que entrevistei, encontrei o trabalho de Mateusz Kolek via internet. E fiquei de boca aberta com seu estilo de multiinfluências, onde você encontra traço de quadrinho, se street art, de gravura, numa conjunção original e perfeita. Mateusz me deu uma entrevista bem humorada e direta, falando de suas influências, da vida de um ilustrador na Polônia e sua admiração pelo Brasil. Espero que o pessoal da New Yorker leia o artigo, tem uma bela chance de algo bacana acontecer!

Como, e quando, você começou a desenhar?

Pode soar um pouco estranho, mas realmente não me lembro, porque eu era uma criança. Eu sei que todo mundo costuma a desenhar quando é criança, mas eu acho que gostava mais do que meus amigos do jardim da infância.

Uma vez eu arranquei um tapete da sala de estar dos meus pais e desenhei um monte de peixes e vida marinha no chão. Eu eu me lembro que costumava a desenhar um vampiro careca segurando um diamante no topo de uma grande montanha. Quando eu penso a respeito hoje em dia, me parecem ambos grandes tópicos!

 Como foi a decisão de se tornar um ilustrador em periodo integral?

Bom, desenhar era a única coisa que eu era bom, então a decisão foi bem fácil. Em teoria, pelo menos, porque nessa época eu estava estudando, e ilustração não era uma coisa muito popular na Polônia. Era dificil acreditar que um dia eu poderia fazer apenas isso. Antes de me tornar ilustrador em período integral eu costumava desenhar muitos storyboards para comerciais. Era legal ser financeiramente independente durante meus estudos mas,  por outro lado, storyboards eram terrivelmente chatos. Três anos desenhando rostos felizes, frutas apetitosas e produtos brilhantes. Você pode imaginar… eu mudei para Valencia, Espanha por um ano, e ali eu decidi fazer meu portfólio apenas com projetos pessoais. Trabalho comissionado não era representativo o suficiente, como vocie pode imaginar. Eu consegui publicar o portfolio num site bastante popular sobre design, arte, fotografia e ilustração e assim foi.

Eu fiquei tão surpreso e excitado recebendo emails dos EUA, Inglaterra, Canadá, Brasil, Africa do Sul.  Desde então, ilustrações são 99% do meu trabalho. A internet é uma coisa maravilhosa! As vezes eu temo que de algum modo a internet entre em colapso, e seria tão dificil quanto perder minha mão direita!

 Como é a vida de um ilustrador na Polônia? Você acha que ilustradores e designers são reconhecidos pelas profissões que abraçaram?

Preciso dizer, chega a me acostumar mal. Eu sou um homem muito feliz porque meu trabalho me dá satisfação e tempo livre. Já que eu trabalho via internet, não tenho que me preocupar se a Polônia é um bom lugar para ilustradores ou não. Eu posso trabalhar para clientes do mundo todo. Mas a Polônia, em si, dá mais e mais oportunidades para mostrar o trabalho de ilustradores.

Se ilustradores e designers são reconhecidos na Polônia? Eu acho que se seus trabalhos são publicados em portais populares, em revistas e são aclamados internacionalmente, eles podem ser reconhecidos. Claro, pelas pessoas que são interessadas nesse campo da arte.

 Conte um pouco sobre seu processo de trabalho. É sempre o mesmo? Você tem uma rotina?

Depende se eu estou trabalhando em um projeto pessoal ou comissionado, mas geralmente a coisa mais importante é a ideia. Quando estou pesquisando a melhor maneira de entregar, o melhor modo é fazer um monte de esboços. Uma vez que eu encontre uma composição e perspectivas que sejam apropriadas, eu começo a desenhar com tinta. O processo em si não é tão interessante então eu apenas vou dizer que no começo eu trabalho em papel, então eu escaneio e uso alguns programas.

 A crise do euro está afetando o mercado editorial e de publicidade? Como os profisisonais estão lidando com isso?

Polônia é parte da União Européia, mas ainda não usa o euro. Isso nos faz menos suscetíveis à crise, mas ainda há uma grande influência na economia polonesa, claro. O campo editorial está encolhendo, mas eu acho que é mais por conta da “crise da impressa em papel”, que é mais geral do que as razões econômicas. As maiores revistas estão se movendo do papel para aplicações e isso reduz as ilustrações, mas creio que isso muda com o tempo.

Publicidade está tão bem quanto estava antes da crise, do meu ponto de vista, mas posso estar errado.

Quem (e o que) são suas maiores influências?

Eu adoraria dizer que minha inspiração está fora do campo da ilustração, mas a verdade é que eu adoro olhar o trabalho de outros. James Jean, Jamie Hewlett, Mike Mignola, Sam Weber, Jillian Tamaki, Mathew Woodson, Adrian Tomine, eles são todos incríveis! Eu acho que você pode facilmente encontrar influências de todos eles no meu trabalho. Isso pelo lado técnico.

O outro lado é um tópico. Eu creio que a coisa que mais me move para ilustrar é a necessidade de capturar um humor que eu não consigo de expressar de nenhum outro modo. E essa sensação pode vir com uma conversa, canção, filme, sentimento, paisagem. Quando se impregna em mim, o único modo de me livrar dela é desenhando.

 Você tem hobbies? O que faz quando não está desenhando?

Eu amo cozinhar, comer, ler livros, ouvir música, ver filmes, tocar violão, matar um monte de tempo conversando com meus amigos. Coisas comuns, você sabe.

 Olhando para seus desenhos, é dificil de dizer que técnicas você usa. Você pode nos contar? Você usa computador em seu trabalho?

Sim, eu uso computador, mas fico feliz que seja dificil de dizer, hahaha! Eu gostaria de um dia poder fazer meu trabalho sem ele, porque a técnica tradicional é tão mais elegante. Por outro lado, sou preguiçoso demais. Não tem Ctrl+Z em técnicas analógicas, sabia?

 Se você pudesse escolher um projeto de sonho para fazer, qual seria? Você está próximo de realizar esse sonho?

Ainda estou procurando por ele. Quero dizer, não sei exatamente o que seria, mas estou bem convencido que teria a ver com desenhar. Quem sabe um mural gigante no Brasil? Ou uma história em quadrinhos, talvez um filme de animação, não sei.

Mas posso dizer a respeito do meu sonho profissional. Eu adoraria fazer a ilustração de capa para a revista New Yorker. Não sei se estou perto de realizar isso. Mas eu te aviso se receber um email deles 🙂

 Você conhece o Brasil, ou artistas daqui?

Claro que eu conheço o Brasil, um dos meus sonhos é visitá-lo! Vocês tem tantos lugares maravilhosos aí! E tantos artistas incríveis! Kako, Will Murai, Lambuja, eu amo todos eles!

 

Revista da Propósitto – Todas as entrevistas!

Quem acompanha o blog da Propósitto sabe que eu gosto muito de fazer entrevistas com designers, ilustradores e criativos que admiro. É a seção que mais gosto de realizar. Me dá a oportunidade de entrar em contato com os processos e modelos mentais de pessoas muito talentosas, o que me ajuda e me inspira. Acho que a troca de experiências com pessoas que atuam em mercados onde o design é uma atividade mais estabelecida, com regras e condutas mais claras tem muito a nos ensinar. Por isso, desde o princípio, o intuito foi disponibilizar para todos.

A seu modo, cada entrevista foi memorável. Falamos de sustentabilidade, de criatividade, de mercado, de ilustração, tipografia, música. No fim desse ano, quis presentear os leitores do blog de alguma maneira. E me veio a ideia de uma revista virtual. Algo que pudesse ser guardado, e que permitisse àqueles que leram alguma, mas não todas as entrevistas que as tivessem juntas. A meu ver, existe uma sabedoria intrínseca nelas. Algo que separadamente é mais dificil de ser percebido e alcançado.

Considero isso como um presente para todos que acompanharam o blog nesse ano e meio de existência. E os anúncios da revista são uma pequena retribuição a alguns clientes e amigos que fizeram muita direferença na história que a Propósitto está escrevendo.

Espero que gostem. Basta fazer o download, é só clicar na imagem com o botão direito do mouse e escolher a opção <Salvar link>.

 

 

Propósitto entrevista: Carlos Segura

Há muitos anos, quando eu estava na faculdade, fui a uma palestra com alguns nomes de peso no mercado. Um deles era Carlos Segura. Me lembro até hoje do impacto que teve em minha mente. Sempre muito prolixo, Segura era engraçado, vibrante, apaixonado, e muito próximo do profissional que eu gostaria de ser.

Segura é um Cubano que migrou para os Estados Unidos aos nove anos, e fez uma carreira das mais sólidas na conconrrida indústria da publicidade Americana. Trabalhou na BBDO, Marsteller, Foote Cone & Belding, Young & Rubicam, Ketchum, e DDB Needham, até abrir seu próprio estúdio em Chicago, o Segura-Inc. Também é dono da T-26, uma type foundry das mais criativas do mercado.

Com a aproximação do aniversário de um ano da Propósitto, eu queria fazer uma entrevista especial para celebrar o evento. O caso é que (eu achava) que Segura não responderia (isso já aconteceu com outros nomes de peso antes). Ledo engano. Não só ele me respondeu quase imediatamente, como foi um dos mais acessíveis profissionais que eu entrevistei.

Carlos Segura fala de design de forma apaixonada, quente, mesmo após todos esses anos de janela. E me fez relembrar aquela noite, ainda na faculdade, o quanto eu saí entusiasmado. E hoje, torna a me impactar, quase me falando “agora que você é dono do seu estúdio, é que a diversão de verdade começa”. Confira a entrevista a seguir:

Como você decidiu se tornar um designer gráfico? Quando você percebeu sua paixão por tipografia?

Quando eu estava crescendo em Miami, bem jovem, eu me tornei membro de um grupo musical chamado Clockwork, como roadie do baterista, e eventualmente acabei o substituindo. Esta banda era um negócio de verdade, e nós a tratávamos desta forma, tínhamos dois serviços de gerenciamento, um formato bastante estrito, procedimentos e calendários. Nós eramos bem grandes no cenário musical de Miami nos anos setenta, éramos agendados com dois anos de antecedência.

Isto nos deu muitas responsabilidades, mas também um monte de deveres, e os meus eram três… eu era o baterista, dirigia o caminhão dos equipamentos e promovia nossos shows.

Nessa época eu não tinha a menor ideia de que estava fazendo “design gráfico” (já que eu nem sabia o que isso era). Eu estava simplesmente fazendo que as pessoas soubessem onde nós estaríamos tocando (um pouco parecido com os flyers de raves de hoje em dia).

Mas de alguma forma, meus flyers estavam indo para o topo das mais reconhecidas promoções de bandas da época, e eu fiquei conhecido por esses impressos em preto e branco.

Mais ou menos doze anos depois, quando eu deixei a banda, eu tinha um portfolio cheio dessas criações, e meu padrinho sugeriu que eu fizesse uma entrevista numa firma de design. Eu fiz, e consegui meu primeiro trabalho real numa empresa de engenharia em Nova Orleans como seu designer chefe.

Enquanto eu trabalhava lá, eu respondi a um anúncio de jornal de Baton Rouge que procurava por um diretor de arte para uma pequena agência, e consegui o trabalho. Durante meus nove meses lá, nós fizemos inúmeros projetos, entramos na competição do Clube da Propaganda, e ganhamos mais prêmios do que várias outras agências naquele mercado, então a questão apareceu: “quem é este cara que nós nunca ouvimos falar?”. Uma revista da área fez uma pequena estória sobre a controvérsia, e uma agência de propaganda em Chicago leu a respeito, me contatou, me fez uma oferta, e lá fui eu para Chicago em 1980.

Você trabalhou em várias das maiores agências dos Estados Unidos. Como foi o processo de decisão de partir para carreira solo? Como foram os primeiros dias como um dono de estúdio?

Eu entrei no ramo da publicidade puramente por acaso, e simplesmente pelo fato de que nunca tive nenhum treinamento formal ou educação no assunto, eu realmente não sabia a diferença entre publicidade e design. Eu apenas queria um meio para expressar minha criatividade e precisava de um emprego, então eu apenas procurei um lugar para trabalhar.

Enquanto estava lá, eu tive bastante treinamento sobre “o trabalho”, e comecei a ver  as diferenças, na maior parte em como (ou o processo criativo) me fazia me sentir. Design começou a parecer mais como uma expressão pessoal e uma experiência orgânica versus o metódico, o empacotado  – e frequentemente focado nas necessidades das massas – mercado da criação publicitária. Não quero desrespeitar nenhuma carreira, mas é simplesmente diferente.

Então, por anos eu pensei em largar tudo e começar minha própria loja, mas esses eram os bons velhos tempos do negócio de publicidade, e as coisas estavam bem. Muito bem. Eu fiquei confortável demais e aguentei mais do que deveria, mas minha infelicidade tirava o melhor de mim, e em 1990 eu me demiti, e comecei a Segura Inc.

Eu fiquei ocupado desde o primeiro dia. Eu tinha sorte. Durante meu tempo no mundo da publicidade, eu escolhi me especializar em impressos. Isso, numa época em que a televisão era a rainha (com spots de TV de 60 segundos como norma) e o “multimídia” começando a ver a luz do dia. Cada diretor queria sair para gravar um comercial. Eu queria produzir um anúncio (e nessa época, era tudo feito a mão).

Até hoje, existe uma alegria particular que vem de dirigir arte, desenhar, elaborar e dirigir a criação de tipos – é um meio de comunicação que é muito especial e que eu não encontro em outras formas de expressão. Uma vez que um layout vem a vida, você sente que é parte de você. Eu gosto dessa sensação. E tenho essa reputação.

Quando a notícia de que eu tinha saído, e que era, em essência, um “agente livre”, eu recebi chamados das agências pedindo para que eu fizesse seus impressos, e fiquei grandemente envolvido em seus nichos de negócios. O fluxo de trabalho continuava crescendo cada ano, e apesar de ter simplesmente coisas demais para mencionar, era basicamente trabalho de agência no começo, e então foi mudando para direção de arte para clientes de todo lugar do mundo.

Quais são as grandes diferenças de trabalhar para grandes corporações e ser dono de seu próprio negócio?

Quando você é dono do seu negócio, você faz tudo. Você tem que fazer.

Ter  o seu próprio negócio será a coisa mais recompensadora que você fará na sua vida. Mesmo se você deixar de lado as recompensas finaceiras, as liberdades e opções que isso traz a sua vida não têm preço. Apenas saiba que nunca trabalhará mais duro em sua vida, porque, de repente, tudo será problema seu.

Eu imagino que hoje em dia você seja um executivo, não apenas uma força criativa em seu trabalho. Como você divide seu tempo entre tarefas administrativas e o processos criativos?

É um pouco do que eu falei acima, mas controlar seu tamanho é a melhor forma de gerenciar seu tempo e tarefas. Não cresça para ser grande, cresça para ser formidável.

Faça as coisas que são mais importantes, que signifiquem mais para você e tenha algo de artesão, de qualidade neles. Fazer pelo menos um pouco desses por ano será uma afirmação muito mais poderosa do que fazer centenas de pequenos e típicos projetos. Isso, qualquer um pode fazer.

Com a explosão na venda de tablets, as pessoas tem lido cada vez mais coisas diretamente na tela. Quais são, na sua opinião, as maiores diferenças em desenhar fontes para telas?

Existe um bocado de óbvias diferenças tecnológicas, mas a “verdade” da tipografia está no tipo, não no veículo que o entrega. O que eu quero dizer é que se você planeja usar uma tipografia para texto, ela precisa fazer o trabalho dela como tal, seja em um jornal, seja num iPad.

Quando estive em sua palestra, você falou em experimentar coisas radicais (me lembro de uma capa de CD que usou um esquilo morto escaneado). Você ainda encontra espaço para esse tipo de experimentação?

Com certeza. Criação vem de tudo.

Todos os dias, criativos pensam dos mais variados modos. Eu tendo a processar pensamentos por um bom tempo antes de chegar no coração da matéria, e o modo que faço isso é fechar meus olhos e “escapar”. Para mim, é quando eu começo o processo de ir dormir. Eu tropeço nesse lugar temporário de “pensamentos” que eu frequentemente não consigo visitar durante meus dias ocupados.

É bastante sossegado, e muito otimista, porque me faz sentir como se eu pudesse fazer tudo. Aparte de todas as limitações “reais” que o mundo coloca em mim.

 

As ideias nascem desse sentimento autêntico, e não “preparado” ou “forçado” por causa de uma tarefa ou prazo.

Em dois exemplos específicos, foi assim que eu dei a luz a nossas companhias irmãs, http://www.5inch.com and http://www.t26.com.

Quem são suas maiores influencias em design e tipografia? E quais outras atividades inspiram você?

Não é bem “quem”, mas mais “o que”, e a resposta é meio cliché. Tudo. Eu acho que meio limitante excluir varias fontes como inspiração. Não é o que criativos fazem, já que eu acredito que todos os criativos tendem a ser influenciados pelos seus arredores como um todo.

Eu estou em meu computador quase o dia inteiro exceto quando dormindo). Eu faço uma quantidade tremenda de posts em blogs (para todos os meus sites), então a quantidade de inputs fica quase surreal. Me expõe a todas as grandes coisas que os humanos podem fazer, e isso é bem impressionante.

Existe algum trabalho de sonho que você ainda não fez? O que seria?

Eu sempre quis ser um engenheiro de som ou editor

Qual é o seu conselho para jovens designers que querem construir uma carreira em tipografia?

Olhe tudo de muitos ângulos e rapidamente você terá um ângulo próprio. Não deixe coisas acontecerem com você. Faça coisas acontecem com você. Se você for sonhar, sonhe grande, é de graça.

Eu tenho alguns, mas um recente comentário de Chris Economaki faz tudo fazer sentido… “Não gaste tempo ficando pronto. Esteja sempre pronto”.

Lembre-se…. mentes pequenas matam grandes ideias.

 

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