Parabéns, você está virando commodity

Parabéns, você está virando commodity

No começo do ano, impulsionado pela crise, vendo o volume de negócios dar uma caída brava, resolvi habilitar minha empresa para participar de licitações governamentais. O processo é chato, requer dezenas de documentos, certidões e idas e vindas ao contador, tudo para certificar que sua empresa é apta e idônea para fornecer o que promete ao governo. A princípio, achei isso bom, pois com certeza afastaria os caloteiros de carteirinha do processo.

Em tempos onde a gente se acostumou a operar páginas criadas com especialistas em UX e UI, o sistema de cadastramento parece ter sido feito por algum egípcio nascido em 2.000 AC, que até semana passada se comunicava via hieroglifos. É um site feio e mal feito. Mas que, em termos de mecânica e segurança, parece fazer sentido.

Foi duro, mas consegui. Logo nos primeiros meses, apareceram algumas licitações na área, e lá fui eu, todo orgulhoso, me inscrever.

A primeira licitação era para desenvolver o projeto gráfico e diagramação de uma série de revistas para um Conselho Regional de Medicina. A carta de chamada indicava o tipo de empresa que poderia participar, e dava um preço máximo para o conjunto das peças: algo em torno de R$ 2.500 para cada revista. Como eram 4 revistas, o valor total girava em torno de R$ 10.000,00. Não é que fosse o creme do creme, mas estava, digamos, adequado para aqueles fins.

A modalidade de licitação era pregão eletrônico. Isso significa que o menor preço vence. É, grosso modo, um leilão reverso. Logo ao se candidatar para o trabalho, você já dá seu primeiro lance, e você nunca sabe a identidade dos outros concorrentes, apenas o valor de seus lances. Foi quando levei o primeiro choque.

Veja, num leilão de um quadro (apenas como um exemplo) o leiloeiro apresenta a obra a ser vendida, com um preço mínimo. A partir daí, os presentes se revezam apresentando lances com preços gradativamente maiores, até que o maior de todos, vença. Mas não existe caso no mundo onde um leiloeiro divulgou o preço base de, sei lá, dez mil reais, e um cara já gritou do fundo “dou 50 mil!”. Os lances são graduais, até porque todos ali querem gastar o menor valor possível.

Pois naquela minha primeira incursão no mundo dos pregões, tendo um valor máximo de 10 mil reais, um cara já tinha dado o seu PRIMEIRO LANCE em R$ 8 mil. Achei estranho, mas como era um novato, coloquei R$ 7.800 apenas para baixar um pouco. E aguardei o dia do pregão real.

Por mais que eu tivesse me preparado para o pior, não dava pra ter noção do que viria a acontecer. O preço da disputa caía mais rápido do que eu conseguia atualizar. Em nacos grandes, absurdos. Quando o valor chegou a menos de mil reais por revista eu parei de tentar, mas fiquei olhando, horrorizado, o valor que aquelas empresas davam para seus próprios trabalhos.

O valor final ficou em menos de 300 reais por revista. Revistas com projeto gráfico, tratamento de fotos, editoração, design. 300 REAIS.

Semanas depois um novo projeto apareceu. E, já vacinado, fui conferir se eu tinha dado azar, ou se o padrão de comportamento era aquele mesmo.

Não me lembro os detalhes deste. O projeto era similar, diagramação e projeto gráfico de revista. Mas posso dizer que conseguiu ser pior do que o primeiro.

Como não me conformo com essas coisas, dei uma de detetive. Uma vez que o processo foi terminado, você passa a ter acesso aos nomes dos vencedores. E eu fui atrás de quem são, para tentar entender. Ambos os casos eram de empresas que tinham em seus contratos sociais absolutamente TUDO. Elas diagramavam, ilustravam, tratavam e tiravam fotos, faziam logotipos, ilustrações, manuais, capas de livro, faziam cópias, imprimiam, grampeavam, manuseavam, plastificavam, digitavam e se fosse preciso, fariam massagem nos pés dos contratantes. Eu vi alguns trabalhos deles. Eu não contrataria para varrer o chão do meu escritório. Não contrataria para fazer panfleto de balada tecno sertaneja no boteco da esquina da minha casa. E ainda assim, essas empresas estão por aí, fornecendo design para o governo. Uma delas tinha reclamações de ter usado trabalho alheio de um ilustrador num material governamental, sem permissão. É esse o nível.

Aliás, explica muito sobre a qualidade dos materiais oficiais do governo que vemos por aí.

Corta.

Numa das andanças internéticas, veio parar em minha mão, por intermédio de um amigo, uma chamada para cursos do Pronatec. Entre eles, exigindo apenas ensino fundamental, estava o curso Editor de Projeto Visual Gráfico. Eis a descrição dele:

Cria, desenvolve e edita projetos visuais gráficos. Utiliza programas de computação. Otimiza aspectos estéticos. Adequa conceitos de expressão e comunicação sintonizados com o projeto.

Podemos argumentar que seja uma descrição superficial demais para tudo que envolve. Mas, ao final de 180h de curso (que você pode fazer em 45 dias estudando 4h por dia), teremos mais um ser humano capaz de concorrer em pé de igualdade nas licitacões governamentais, habilitado conforme a importância que o próprio governo dá a nossa profissão.

Nesses momentos é que eu até acho que a regulamentação poderia ajudar. Mas talvez essas coisas ajudem a entender porque essa regulamentação não passou e não vai passar tão cedo. O fato é que os atores decisórios envolvidos nesse processo acham confortável poder contar com o design e suas adjacências como oferta de ocupações de nível médio. Como pedreiros, encanadores e ajudantes de pintura (nada contra essas profissões, por favor, mas nelas, realmente não vejo necessidade de uma faculdade), essas atividades ajudam a criar uma ilusão de campo de trabalho. “Você só precisa de um micro ligado a internet, e ‘programas de computação’ para desempenhar uma atividade glamourosa e rentável”.

Profissões são tão valorizadas quanto a importância que dão pra ela, e a dificuldade percebida de exercê-la . É cultural. Se tivéssemos conseguido, há muito tempo, explicar para nossa sociedade que fazer design é bem mais do que operar um computador, e que para ser bem sucedido nessa área, o profissional precisa dominar um cabedal de informações tão vasto, que só tendo mesmo uma aptidão nata para dar conta.

Outro fato a ser levado em conta é a falta total de critério da população para separar BOM design do design MEDÍOCRE. Quando a barra educacional/ cultural/ social está tão baixa quanto agora, qualquer um que sabia trocar uma fonte no word é considerado um profissional.

A regulamentação poderia, na melhor das hipóteses, garantir que somente empresas inscritas em nossa entidade de classe pudessem participar das licitações. Que os cursos de formação em design gráfico somente fossem permitidos com segundo grau completo. Que tivessem um número mínimo de horas para garantir um diploma profissional. Mas pouco poderia fazer pelo morto de fome que cobra 380 reais para diagramar uma revista de 40 páginas.

O problema não é que esse profissional exista. Vivemos num país em crise constante. O que é troco para uns é o almoço de outros. O problema não é que esse cara não encontre valor nem no próprio trabalho. O problema é quando a média de todos os profissionais pense assim.

E é assim que o governo, o mercado e seus vizinhos te vêem. Da forma e na direção que estamos caminhando, design em breve será ofertado como commodity. Como cimento. O mais barato vence.

Sim, você precisa cuidar da sua marca. Não, você não sabe fazer isso sozinho.

Sim, você precisa cuidar da sua marca. Não, você não sabe fazer isso sozinho.

Nike. Apple. McDonalds.

Três empresas que são vistas como vencedoras. Três histórias completamente diferentes com algumas coisas em comum:

São empresas que começaram pequenas, cresceram rápido, e entenderam melhor que seus concorrentes o poder de suas marcas. Cada uma em sua área de atuação, elas se destacaram de tal forma pela maneira que gerenciam seus patrimônios visuais, que muitas vezes são alvo de críticas que dizem que seus produtos não estão à altura do valor de suas marcas.

É comum ouvir nos seus respectivos mercados que os tênis da Nike não são melhores que os dos seus concorrentes, que são produzidos com mão de obra escrava, que são caros demais pelo que entregam. Ainda assim, a Nike sempre esteve no topo do reconhecimento mundial quando se trata de esporte. Seus tênis sempre estiveram entre os principais sonhos de consumo de atletas profissionais, amadores e aqueles que simplesmente querem calçar algo descolado.

Mesma coisa acontece com o McDonalds. É público e notório que qualquer pessoa deve conseguir um sanduíche mais gostoso e maior em qualquer padaria da sua cidade, gastando menos dinheiro. Mas quando estamos soltos no ambiente hostil que é uma praça de alimentação, a maioria de nós tem que resistir bravamente ao impulso de nosso cérebro, comandando para irmos de encontro à loja vermelha e amarela. Se você estiver na companhia de um adolescente ou criança então, é quase uma batalha perdida.

Entre fãs de tecnologia é normal participar de conversas que dizem que, com o dinheiro que se investe pra adquirir um computador ou telefone da Apple, dá pra comprar dois da concorrência, e muitas vezes melhores que os dela. Verdade seja dita, a marca realmente cobra um abuso no preço dos seus produtos, especialmente por aqui. Mas basta lançar um produto novo, e instantaneamente formam-se filas de consumidores ávidos. Pode ser um i-descascador de banana, se tiver a maçãzinha (perdão pelo trocadilho) impressa, vai ter quem compre. Na minha opinião, a Apple está num momento decisivo em sua história, mas apesar disso, ainda é a marca mais valiosa do mundo, e antes que comece a soltar fumaça nas turbinas, ainda tem muito combustível a queimar.

Como isso ocorre?

E o que isso tem a ver com sua marca, sua empresa, seus produtos?

Talvez mais do que você pensa.

A força das 3 marcas, é que, antes mesmo de terem seus produtos percebidos pelo mercado, seus dirigentes perceberam que precisavam se diferenciar de seus concorrentes. Ter um bom produto ou serviço, de boa qualidade e com um preço justo é ótimo. Mas a verdadeira batalha pela percepção do público começa muito antes deles terem sequer conhecimento do seu produto. Começa quando eles passam na frente da sua vitrine, ou quando tem um cartão de visitas em mãos, ou quando olham seu logotipo numa rede social num post de um amigo, e nem estavam procurando nada na sua área de atuação.

Tudo isso vai construindo uma pré-percepção e uma predisposição do público em relação à sua empresa. Você pode vender alta tecnologia, mas se seu site for feio e velho, seu cliente não vai ver isso. Pode vender alta costura, mas numa vitrine zoneada, nem o maior estilista do mundo vai chamar a atenção. É como um dentista cheio de dente podre. Como um decorador que vive numa casa feia. Nosso cérebro não consegue parar de fazer conexões, de completar lacunas. Queira ou não, ele vai sempre estar formando uma imagem à seu respeito. E se essa imagem vai ajudar ou atrapalhar nas suas vendas, é contigo.

Quando tudo acontece da forma correta, a imagem que ele tem da sua marca não está construída, mas a porta para isso está aberta na sua mente. No momento em que esse consumidor, direta ou indiretamente, subir um degrau no envolvimento com sua marca, não vai sentir o choque que um sujeito que só viu cavalos na vida tem ao estar frente a frente com um avião. É uma relação passo a passo.

Ele pode entrar em seu site. Pode clicar num anúncio que você deixou no Facebook. Pode ler um artigo que você postou em seu blog. Pode descobrir um produto seu no Instagram. Pode ouvir da boca de um amigo uma experiência que ele teve com seu produto ou pode ver esse amigo usando. Neste momento, tão decisivo, mas ainda longe da hora em que ele tem seu produto no carrinho de compras, como sua marca se apresenta?

• A Nike pretende fornecer produtos esportivos de qualidade para todos os praticantes – profissionais ou amadores – de atividades físicas. Para isso, seu design é vibrante, moderno, usa materiais inovadores. A Nike sempre investe em uma infinidade de sites e hotsites com imagens produzidas pelos melhores fotógrafos do mundo. O site aliás, está em constante mudança. Muito difícil entrar nele com alguns meses de diferença e não encontrá-lo remodelado. Ela patrocina milhares de eventos esportivos profissionais e amadores por todo o mundo, e atletas de alta performance. O foco da Nike são os atletas amadores, que se espelham em seus ídolos na prática esportiva.

• O McDonalds praticamente inventou o conceito de fast-food. Os irmãos criadores do modelo instituiram uma verdadeira linha de montagem de comida em seus restaurantes. E depois, seu CEO teve a visão de perceber que, apesar de jovens adoram sanduíches, são as famílias que gastam dinheiro comendo os lanches. Toda a comunicação do McDonalds é voltada muito mais para a experiência em torno da qualidade e simplicidade do momento que as famílias tem dentro dos seus restaurantes do que propriamente em sabor. A padronização do gosto do lanche é parte da estratégia de marca. O sabor é tão parecido quanto suas lojas. Esteja onde estiver no mundo, a pessoa sempre sabe o que esperar da experiência com o McDonalds. Para isso investiram pesado em arquitetura, na famosa combinação do amarelo sobre o vermelho, nos personagens infantis. Mas engana-se quem pensa que estão parados. Existem lojas “tubo de ensaio”, aos poucos introduzindo verdes, pretos, tons mais sofisticados. Uma corporação desse tamanho não pode ser pega de surpresa por nenhuma nova onda.

• A Apple, que nasceu dentro da garagem de Steve Jobs, sabe lidar com sua imagem desde o dia do parto. Jobs, que era muito mais um hippie do que qualquer outra coisa, tratou de arrumar um terno e cortar o cabelo para apresentar seu primeiro computador ao povo, numa feira. De lá pra cá, e ainda que não fosse um designer, Jobs cuidou do design como prioridade em tudo que lançou. Até nas embalagens, que são um espetáculo a parte. A Apple quer atrair o povo cool, ligado em tecnologia, mas que não quer perder tempo sendo um geek que abre parafusos e mexe em configurações. Para conseguir isso, investe em uma comunicação minimalista, foca quase totalmente nos produtos e quase na sacralização deles. A comunicação da Apple, hoje, quase não mostra pessoas.

Quando o potencial cliente finalmente entra em contato direto com sua marca, novos momentos da verdade (os mais graves) vão se desenhando. Como ele é atendido? O quanto as pessoas que vendem o produto o defendem? Quantas usam de verdade o produto, e são capazes de sanar qualquer dúvida? O produto é tão bom quanto se vende? A percepção é de um produto caro ou barato? Vale o quanto pesa? Seu cliente se sente tentado à usá-lo? Terá orgulho de exibí-lo?

E depois da compra, seu trabalho terminou? De forma alguma.

Qual a relação do usuário com seu produto/ serviço? Ele se sente parte de um grupo por usá-lo? Tem um bom pós-venda? Tem boa assistência técnica? Seu produto capta a atenção das pessoas que tem contato com seu cliente?

Para o pequeno empresário, boa parte dessas questões parecem distantes do mundo do pequeno empresário. E para alcançar o nível de excelência e controle de algumas delas realmente custa muito caro. Mas não fazer nada custa muito mais. Existe toda uma gama de atitudes e ações que podem ser implementadas e que com certeza melhorarão os resultados e a imagem de sua empresa.

E como saber o que fazer, e em que medida? Contratando um profissional. Na verdade, não tem outro jeito. Ainda que você, empresário, seja um cara antenado, de olho em tudo que acontece no mercado, e ainda que você tenha muito potencial, contratar um profissional é o caminho certo. Os erros mais graves geralmente não são cometidos nas questões em que a gente simplesmente não tem conhecimento, mas sim aquelas que acha que sabe.

Trocando em miúdos:

• Você não é habilitado para enxergar os problemas de sua própria empresa. É como um médico operar o próprio filho. Não dá certo. Um designer, um gestor de marca sabe que perguntas fazer, como te ajudar no posicionamento, na busca de soluções.

• Trabalho real de marca é para médio/ longo prazo e contínuo. Não adianta contratar um designer, fazer logo e identidade visual e achar que está com o jogo ganho. Ou pensar que agora dá pra assumir o trabalho você mesmo, e economizar a grana. É preciso continuidade, constância, novidade, inovação. Você precisa se espelhar em empresas como estas que eu citei acima, e manter o investimento ativo sempre. Note que eu digo: sempre. Para sempre.

• Contrate o profissional certo. Não, seu sobrinho que mexe em Corel não é o mais indicado. Não é só saber mexer em computador, é muito mais sério que isso. Se você acredita nisso, passe a levar seu carro num mecânico qualquer, seus filhos num médico qualquer. Cobrar barato, em certos caso, geralmente significa gente pouco qualificada, que não se dá o valor. Profissionais são pessoas especializadas, que vivem e respiram seu mercado 100% dos dias. Não dá pra ser pão duro com o destino da sua empresa.

• Cuidar de uma marca é muito mais do que fazer um logotipo bonito. Vai muito além, e tem muito trabalho antes e depois disso. Se você quer grandes resultados, tem que investir para isso. Hoje, mais do que nunca, sucesso não cai do céu.

Para concluir. Se você quer trabalhar design e branding como gente grande, tenha em mente: conheça seu produto, conheça seu público, saiba onde quer chegar, e contrate gente séria.

 

Advogado, Designer e puta. Sempre dá pra achar um mais barato.

Advogado, Designer e puta. Sempre dá pra achar um mais barato.

Minha esposa é advogada.

Apesar da abissal diferença que existe entre nossas profissões, via de regra nos pegamos encontrando similaridades no que tange à forma com que os clientes tratam os profissionais. Estranhamente, as duas carreiras não tem nada a ver nos prós. Mas nos contras, a gente se entende que é uma beleza.

Design, é claro, fica ainda mais fragilizada. Não temos nem uma entidade forte de classe. Mas se engana quem pensa que ter um órgão gigante e influente como a OAB dando backup para o profissional resolve todos os problemas. E se engana duplamente quem pensa que, triando os profissionais que podem exercer a profissão de maneira impiedosa, através de uma prova cada vez mais difícil, garante que só gente preparada e incutida de senso de conjunto exerça o ofício.

Trocando em miúdos: está cheio de advogado sobrinho por aí.

Os motivos dificilmente são os mesmos. Minha análise é que temos uma horda de despreparados em Design porque nossa profissão é tida como algo fácil, que qualquer um com um computador, um Corel e “bom gosto” consegue fazer coisas “maravilhosas” e “descolar altos ganhos” para si. Já no caso do Direito, o problema está nas quantidades. Convencionou-se dizer que no Brasil, as profissões mais respeitadas são as de médico e advogado (não por acaso, são aquelas que o cara é chamado de “doutor” antes mesmo de pisar num doutorado).

Ocorre que medicina é bem mais complicado. Não estruturalmente falando, é complicado porque morre gente na sua mesa. É complicado porque uma faculdade de medicina precisa necessariamente de uma parafernália imensa, que custa caro e exige espaço, instalações e investimento em tecnologia.

Já para montar uma faculdade de direito você precisa (além dos professores, claro), de uma sala que caiba 150 alunos e um data show, se tanto. O resultado: trocentas faculdades de direito em cada esquina do país. Lotadas até a tampa por alunos que ainda crêem que serão altamente respeitados nas ruas a cada flash de sua carteirinha da ordem (que mais de 80% deles não vai conseguir tirar).

As faculdades de medicina, por outro lado, são tão difíceis de entrar quanto ganhar na mega sena da virada quando são públicas. E tão caras quanto os ganhos dos 10 primeiros anos da vida de um designer bem-sucedido quando são particulares. Não deixa de ser um super eficiente método de manter a profissão sempre em alta, sempre em evidência, sempre com demanda, nem que seja pela escassez de pessoas que consigam se adequar à uma das duas condições.

Sintomaticamente, o país bem que precisaria de 10 vezes mais médicos por ano, 10 vezes menos advogados, e não está nem aí pra Design. Mas deveria. Os números ilustram bem porque praticamente não vemos médicos “sobrinhos”, mas nas outras duas carreiras, tropeçamos com eles cada vez que saímos de casa.

É um caso clássico de oferta/procura. Muitos procuram poucos médicos = profissão valorizada. Muitos procuram muitos (muitos, muitos!!) advogados = concorrência desleal. Muitos designers procuram clientes, mas eles de verdade nem sabem direito que porra é essa = confusão, profissão sem valor, falta de entendimento.

Nas conversas com minha esposa sobre nossas profissões, eu chego a conclusão que vários tipos de confusão que nos causam dor e prejuízo são parecidas:

Cliente que pensa que sabe

Vivemos numa sociedade extremamente judicializada. Não é raro receber via Facebook matérias que chamam para supostos direitos que todos deveriam ter, e que podem render uma grana. Ou pessoas que, antes de uma separação, fazem toda a pesquisa prévia na internet em 45 minutos enquanto ouvem o último disco da Shakira, e acham que são verdadeiros juristas, e que só não fazem sozinhos porque não têm carteirinha.

Em design, o cliente é inundado de referências o tempo todo, se encanta com um monte de coisas que não necessariamente se encaixam, e acha que sabe tudo que precisa, mas infelizmente não aprendeu a “mexer” no computador, porque “tinha que trabalhar”. Em ambos os casos, a sensação de estar à altura do profissional que está contratando só causa sofrimento. Ninguém discute uma decisão de um cirurgião durante uma operação. Mas qualquer um acha que tem o pantone certo pra sua marca recortado de um pedaço de revista na carteira.

Cliente acha que é fácil

Sintoma parecido com o anterior, mas ligeiramente diferente. Em direito isso é mais localizado. Ninguém acha que um processo tributário é algo simples, mas experimente dialogar com alguém que acha que o divórcio ou um processo trabalhista é coisa corriqueira. Afinal, o resultado é sempre algo digitado em folhas de papel. Não se entrega um robozinho, não tem que abrir a cabeça, não tem risco de esguichar sangue no teto. Deve ser fácil, portanto.

Em design não preciso nem falar. Não sei quantas vezes eu ouvi o cliente dizer “é super facinho, você faz em cinco minutos”. Uma coisa eu digo pra todos: NÃO EXISTE 5 MINUTOS. Existe o tempo que eu gastei da minha carreira pra resolver essa parada em 5 minutos. Para piorar, tem outro estigma. Designers trabalham com prazer. Ou com a fantasia que os outros têm à respeito da profissão. Pô, trabalhar o dia inteiro no computador, fazendo desenhinhos, aplicando corzinha…. Ainda tem que pagar por isso?

Meusamigo e minhasamiga

Designers e advogados tem outro ponto de conexão. São sempre procurados pelos amigos em momentos muito peculiares da vida. Deles.

Advogados são sempre procurados em momentos de aflição. Ou tem alguém separando, ou sendo lesado, ou no risco de perder tudo, ter que desembolsar uma bufunfa que não contava. Ou tudo isso junto. E então é uma sacanagem do advogado querer ganhar sua grana justamente nesse momento tão frágil. E acreditem: advogados ganham amigos “do peito” que nunca o chamaram para dividir um chan de dentro num churrasco regado a Belco. Também é absolutamente normal ver aquela pessoa que até mês passado estava ostentando as fotos da última viagem ao Caribe estar passando por “um temporada tenebrosa” justamente quando precisa do Doutor amigão.

Nós, por outro lado, lidamos com a pessoa quando ela está em momentos bem diversos desses. Ou ela está gastando muito pra abrir um novo negócio e então está “desprevenida”, ou está precisando alavancar o negócio, mas está “totalmente sem bicho”, e precisa da nossa ajuda. Note que geralmente eles não pensam no design como parte integrante do processo, mas sim como um adendo. O Design virou um puxadinho nos negócios do Brasil.

Médicos já resolveram esse problema, e muito bem. Qualquer dor que você reclame para eles numa festa, e a não ser que exista algum órgão vital caindo no bolo do aniversariante, eles dizem “passa no meu consultório”. Aliás, geralmente, ele têm um consultório. E antes de você sentar na cadeira e dar um abraço amigão no seu amigão, vai passar pela recepcionista, e pagar. Ou passar o cartão do convênio. De uma forma ou de outra, a diferença que existe entre médicos, advogados e designers é bem clara: o pagamento vem ANTES do diagnóstico.

O sobrinho, sempre ele

Em design, eu não creio que precise ir mais fundo nessa discussão. Já estamos carecas de saber disso. Há quem diga que o sobrinho tem uma função social no panorama do mercado. Que ele pega serviços que um designer de respeito jamais se sujeitaria. E que o certo é não disputar mercado com eles, para não rebaixar a sua própria marca à altura deles.

De fato, eu tento não entrar na seara dos micreiros. Afinal, eu raramente tenho grande demanda por criação de ímã de geladeira, calendário com foto de gato e flyer de balada sertaneja. É raro (o que não quer dizer que não aconteça) perder trampo para um desses caras.

Mas até para podemos traçar uma comparação fiel para os dois lados, eu quero deixar de lado a figura do cara que faz arte no Print Master. O cara que tem os estudos baseado em tutorial do Corel 12. Esse cara, seria, na relação com o direito, comparável à tia do cafezinho que assiste muito Celso Russomano, e se acha entendida. Eles incomodam um pouco, mas na hora de encarar um trabalho de respeito, vão pipocar e dar pra trás.

Nas duas profissões, o que realmente causa estrago são os caras formados e estabelecidos, que resolvem fazer leilão do próprio trabalho. Os caras que dão um preço, e quando o cliente levanta meia pestana, dão imediatamente um desconto de 50% mais um copo de suco. São os caras que ganham trabalhos falando mal dos concorrentes. Que, vejam só, eventualmente são sobrinhos do dono do negócio mesmo. E sabem que determinado trabalho não está a altura deles, mas não conseguem ter a humildade de dizer não. De aprender. Não conseguem alcançar o fato de que seu trabalho está no mínimo sendo insuficiente para o que o cliente precisa, mas que, pior ainda, pode estar sendo um fator de temeridade na vida do cliente. Seja esse cliente um representado ou uma marca.

Nesse ponto, os sobrinhos advogados e os sobrinhos designers tem bastante em comum.

Na minha àrea, topei com vários deles. Muitas vezes eles são bem nascidos, e já saem da facu com um escritório todo bem montado, decoração feita por profissionais, equipamentos de primeira linha sobre as mesas. Nunca trabalharam num estúdio ou agência. Nunca foram estagiários, nunca fizeram arte final, nunca levaram bronca de diretor de arte bipolar ou dono de empresa no dia da primeira parcela do décimo terceiro. Apesar disso, eles se acham prontos para assumir um rebranding completo da Coca-Cola, uma semana depois da formatura. Isso eles não fazem, felizmente, porque a Coca não é maluca. Mas assumem a gestão da marca da indústria do amigo do papai sem pestanejar. E se for o caso, fazem de graça, “pra por no portifa”.

A chave da mudança desse paradigma não está em catequisar os sobrinhos. Nem rezar para que a luz da providência divina se abata sobre suas consciências subitamente, levando-os a rituais de sepukku coletivo. Mas reside, sim, na paciência em explicar para seus clientes porquê e em quê você é diferente. Nos riscos que se corre ao deixar seu caso, ou sua marca, nas mãos de quem não tem competência nem para valorizar a si próprio.

Afinal, preço tem de todos os tipos e tamanhos. Seja para advogados, para designers e para a mais antiga das profissões (as meninas de vida difícil me perdoem o linguajar chulo usado no título, mas é que se aplica melhor ao caso), sempre se pode achar alguém que faça mais baratinho. Depende mesmo do que você quer levar pra sua cama. Talvez por isso essa conduta receba comumente o nome de “prostituição da carreira”.

 

Respondendo à uma leitora sobre a carreira

Respondendo à uma leitora sobre a carreira

Recebi uma carta muito interessante de uma leitora em vias de fazer sua escolha por uma carreira. Como a carta dela é muito bem fundamentada, e acho que as dúvidas dela podem ajudar a outros, resolvi publicar aqui na íntegra.

Quero deixar claro que as respostas são opiniões minhas, não sou dono de nenhuma verdade.

Como que o mercado de trabalho recebe esse profissionais? E em tempos de crise?
​Normalmente o início da carreira de um designer é como estagiário em um estúdio ou agência.
Agências pagam mal, se pagam. Porém, apesar de eu ser contra essa prática, um estágio numa boa agência pode render frutos. Mas só se for muito boa, e só se você se garantir muito no seu trabalho. Caso contrário, é muito fácil ficar vetorizando logo, servindo café e tirando cópia de graça. Para dar certo, tem que colar no diretor de arte e fazer valer.
Em estúdios de design, costuma-se pagar um salário que se aproxima do mínimo. Se a pessoa está disposta a ensinar, não vejo problema.
Em tempos de crise aumenta a demanda por “estagiários” que façam tudo, portando, tome cuidado.
Quais são os salários iniciais? E o salário médio?
​Vou falar meio de chutômetro, e meio baseado no que eu vejo com amigos.
Salários iniciais (para design, não estágio​) na faixa de R$ 1.200,00
Salário médio para profissional pleno, de uns R$ 3.500,00, quando isso.
Designer Sênior e diretores de arte por volta de R$ 5.000,00 ou R$ 6.000,00.
Publicidade paga mais, mas você precisa ter uma carreira inteira voltada para este ramo.
Quais são as condições de trabalho?
​Geralmente boas. Os estúdios e editorias são locais agradáveis, o pessoal geralmente é gente boníssima e normalmente divertidíssimos. Os problemas​ são nas flexibilizações que são constantes. Trabalhar horas e horas na madrugada é constante, e geralmente remuneradas por pizza. Você acaba ficando porque sente que está se divertindo, mas é uma armadilha. Se eu estivesse entrando agora no mercado, tomaria cuidado com isso. Procure estabelecer algum tipo de retorno, mesmo que não seja em grana. Um banco de horas, pelo menos.
Há um sindicato ou leis que representem e protejam essa área?
​Existe a ADG, que é a Associa​ção dos Designers Gráficos, que vem tentando agir nos interesses da classe, mas que não pode atuar como sindicato, então, não. Não há isso.
Quais são as melhores áreas de atuação no Brasil?
​O Brasil é respeitado em Design de Produto, na produção de móveis. Mas tudo muito localizado.
Não sei se existem áreas melhores ou piores. Como eu disse, publicidade paga mais para diretores de arte, mas é mais restrito à grandes agências. ​
Qual é o melhor país para exercer essa profissão?
​Só sei que não é aqui (risos nervosos). Nos Estados Unidos e Europa designers são bem mais valorizados. Casos de Designers chegando à diretoria de empresas estão começando a aparecer. Aqui, até mesmo a postura da maioria dos designers impede que isso aconteça. Ainda somos muito ligados a certas características da profissão, como o fato de ser glamourizada, de ter liberdades de se vestir como quiser, de estar cercado de pessoas descoladas, que acabam fazendo com que o perfil do profissional se mantenha muito “cabeça fresca” e não exija muito dos contratantes. É preciso mudar esse perfil, rápido.​

Você está feliz com o seu trabalho?

Desde que me tornei empresário​, venho tendo melhores resultados e explorando mais profundamente o design. Isso ajuda.
Mas sendo totalmente honesto, em qualquer profissão existem frustrações. Design não é diferente, e com o agravante de que você trabalha muito, tem pouco resultado, e tem que lutar muito para encontrar seu lugar ao sol e mesmo para que as pessoas entendam que diabos você faz.
 Que conselhos você pode dar para uma pessoa que está querendo fazer esse curso?
​Meu conselho é: entre nessa profissão se você ama design de verdade. No meu caso, eu não sabia fazer mais nada.
Se você gosta muito, vai suportar os desafios e brigar para que o status da profissão mude. Para quebrar certos paradigmas e fazer diferença. Se a expectativa não for essa, pode haver frustração. ​

 

Melhor de graça do que baratinho

Melhor de graça do que baratinho

Bombou no Facebook essa semana o vídeo em que um veterinário de São Carlos reclama da decisão do Conselho Regional de Medicina Veterinária que o proibiu de atender gratuitamente à animais de pessoas sem condições financeiras. O profissional fazia o atendimento nos sábados, ajudando quem nunca teve condições de ter seu animal examinado antes.

É um gesto nobre por parte do veterinário. E um gesto corporativo do Conselho de Veterinária.

Mas veja só. O Conselho é um órgão corporativo. Um órgão de classe. Sua função é proteger a prática da profissão, não a população. Não quero dizer que eles estejam certos. Se analisado de maneira menos fria, cães e gatos fazem parte do cotidiano de muitas famílias no país. Sem tratamento, pegam e transmitem doenças. É portanto, um caso de saúde pública sim.

Mas vamos falar de design, porque este blog ainda não faz vacinações de raiva.

Caso aquela proposta de regulamentação da profissão passe algum dia pelo nosso legislativo e presidência da República, teremos um órgão regulador. E é natural que ele aprove um código de ética, que talvez ele imponha certas regras nas questões de preços. Muita gente quer isso funcionando, talvez para evitar a tentação de cobrar barato. Sempre é uma desculpa muito eficaz poder dizer ao cliente: “Olha, eu até queria fazer mais barato, mas se eu cobrar menos que a tabela do Conselho, eles cassam minha licença de designer”.

Enquanto não temos conselho, nem código de ética, a decisão de cobrar mais ou menos é toda do designer.

Eu não quero ficar botando regra no trabalho de ninguém. Mas é simplesmente um fato que, quando temos muitos profissionais cobrando pouco, a concorrência age contra nós. Quanto mais barato a comunidade de designers cobrar, mais iremos ouvir “mas eu encontro isso pela metade do preço no mercado”, como se fôssemos sacos de cimento. Mas ninguém te impede de praticar o preço que quiser.

A adoção de um patamar de preço é das coisas mais difíceis no nosso trabalho. Ela envolve mais incógnitas do que a maioria das profissões que existem. Não dá pra colocar simplesmente: logotipos – R$ 2.000,00. Na hora de dar um preço, variáveis como: área do cliente, quantidade de pessoas que irá aprovar, abrangência, tamanho do cliente, possibilidade de novos negócios com o cliente, interesse da sua empresa em atender determinado setor, quantos anos de experiência você têm, visibilidade e responsabilidade, e claro, quantas horas estimadas você vai gastar têm que entrar na conta, mesmo que de forma subjetiva.

Mesmo assim, vão aparecer momentos em sua carreira em que alguém vai te pedir algo baratinho. E às vezes, não é um aproveitador (se for, mande passear).

Muitas vezes é um amigo, um parente, um irmão. Alguém que você decidiu ajudar. Alguma empresa em que você quer investir. Sei lá.

Nesses casos, eu vou dividir com vocês a conclusão que eu, depois de muito tomar na cabeça, cheguei.

Melhor fazer de graça, do que bem baratinho.

Parece insano? Não é.

Pela minha experiência, se você fizer um trabalho bem baratinho, mesmo que simbólico, a outra parte sai da categoria de agraciado, e vira cliente. E cliente, meu amigo, você tem que atender.

Mesmo pagando bem pouco, um cliente vai exigir. Vai pedir novas opções. Pra trocar de cor, aumentar do logo, trocar a fonte, minha mãe não gostou, dá pra mostrar mais três, acho que não sei. Isso porque ele tem o argumento máximo na relação: “tô pagando…”.

Por outro lado, quando você dá algo de presente, você dá o que quer. Se você escolher presentear alguém com seu talento, você dita as regras. A não ser que a outra parte seja muito sem educação, convencionou-se há muito tempo que à cavalo dado, não se olha a fonte.

Isso não lhe dá liberdades apenas econômicas. Pode significar uma oportunidade de realizar um trabalho exatamente como você concebeu. Pode ser um ótimo tubo de ensaio para propostas mais arrojadas, que clientes mais inseguros tem dificuldade em aceitar. Se a pessoa viu o seu trabalho, resolveu te pedir uma força, e você aceitou, o mínimo que pode fazer é colocar algumas condições.

Muitas vezes um trabalho gratuito pode ser seu investimento em um negócio que você acredita. Feito da maneira correta, e se seu faro for certeiro, você pode se tornar um fornecedor especial no momento que a empresa crescer. Tudo depende de como você aceita a empreitada. E isso envolve, inclusive, fazer propostas formais, contratos etc.

Afinal de contas, presente é uma coisa. Trabalhar de graça, forçado, é escravidão.

O baratinho pode te render aquela terrível sensação de estar trabalhando mais do que recebendo. Pode te causar indisposição com o cliente, que, no fim, está cumprindo a parte dele na barganha, e pagando o que você estipulou. Se você comprar uma TV 100 polegadas 4k por R$ 300,00, quando chegar em casa, vai querer que ela funcione. Não adianta a loja te ligar dizendo que “tava baratinho”. Por outro lado, se alguém te DER de presente a televisão, você vai ficar sem graça de reclamar.

No fundo é uma questão de experiência própria. A verdade é que em mais de 90% das vezes, eu acho que o cliente merece um atendimento especial. Aliás, esse é o único atendimento que eu dou. E para ter direito a esse atendimento, ele precisa arcar com aquilo que eu custo no mercado. Nas poucas vezes em que cedi ao baratinho, a taxa de dor de cabeça foi consideravelmente maior do que naquelas em que presenteei um amigo com meu trabalho. Mas isso, até que tenhamos um Conselho que nos obrigue a fazer o que está acordado, é questão de opinião.

UBER X taxistas. O que designers podem aprender com essa briga?

UBER X taxistas. O que designers podem aprender com essa briga?

Nas últimas semanas todo mundo vem acompanhando a verdadeira batalha campal promovida pelos taxistas contra o Uber, serviço de motoristas administrado via aplicativo para smartphones. Os taxistas alegam que o Uber fere a livre concorrência, pois seus motoristas não estão sujeitos às mesmas regras que eles. Não estão totalmente sem razão: um motorista de taxi precisa de licenças especiais para trabalhar, formação diferenciada comprovada por carteira, e precisa passar por um caminhão de intempéries para manter um ponto fazer parte de uma cooperativa.

Em suma: há o que discutir. Ok, concordamos nisso.

O que está errado é a forma usada para fazer a discussão acontecer. Os taxistas têm usado de ameaças, violência, baixaria e todo tipo de coação para colocar seu ponto de vista. Nenhuma voz de sensatez é ouvida do lado deles. Alguma tentativa de, antes de tudo, entender a razão de existir do aplicativo, e quais as diferenças entre os dois serviços.

O Uber não nasceu no Brasil, mas aqui, como lá fora, tem muita facilidade de florescer por um motivo bem simples: o serviço é melhor, mais atencioso, e regulado por quem mais interessa: os próprios usuários. Se você encontra um motorista do Uber muito bem avaliado, a chance é grande de que você vai ter uma experiência tranquila, sem surpresas desagradáveis, e isso é muito.

A discussão acalorada acabou gerando argumentos para outros setores, que nada tem a ver com transporte de passageiros, mas que tem muito a perder com novas modalidades de atendimentos via internet. O presidente do Grupo Telefonica, controladora da marca Vivo, disse em uma palestra que o Whatsapp é pura pirataria, que atinge a empresa, e que a Vivo jamais fará promoções em conjunto com eles. A Ancine, de olho no crescimento do Netflix, diz que o serviço de filmes via streaming precisa de um Marco Regulatório. A Associação Nacional de Livrarias exige que se regule o serviço da Amazon.

O que todas essas empresas têm em comum, fora do fato de estarem enfrentando concorrência de empresas digitais?

Todas oferecem serviços deficientes. Operam com métodos, serviços e operações com ambos os pés no passado. Outro ponto em comum: possuem capacidade de articulação política maior do que o de resposta pragmática. Trocando em miúdos: preferem fazer um lobby para tentar proibir seus desafetos de operarem do que agir internamente ou tentar buscar uma via de regulação via entendimento entre as partes.

Nosso UBERburocrático governo (com o perdão do trocadilho) é bastante permeável a esse tipo de pedido, especialmente quando vem de grandes contribuidores de campanhas (no caso da Vivo) ou de Sindicatos (como os Taxistas). Vai acabar cedendo, metendo o bedelho onde não precisa, para não agir onde seria necessário. E pouco a pouco, o empreendedorismo vai morrendo.

Do outro lado, o que as empresas digitais tem em comum? Com ou sem necessidade de maior regulação (o que talvez seja mais evidente no caso do Uber), todas são donas de serviços amplamente elogiados por seus usuários.

Ora, a Vivo faria muito mais à sua própria imagem e margens de lucro se cuidasse de oferecer um serviço decente para seus clientes. O Netflix tem sido a ÚNICA opção em muitos lugares onde a última locadora de filmes já foi pro saco. O preço dos livros nacionais é a maior propaganda da Amazon, e não exatamente a qualidade deles.

O empreendedor funciona olhando as brechas do sistema. Procurando os locais onde clientes são mal atendidos, e usando sua criatividade e força de vontade para preencher essas lacunas. Num país como o nosso, o que não falta é buraco, o que mais tem é gente insatisfeita com os serviços prestados. Me parece uma canalhice sem tamanho dificultar a vida de quem está oferecendo finalmente aquilo que o consumidor queria. É assim que a inovação caminha, é assim que novos negócios geram riqueza.

Para entrar no assunto do blog, que é design, é preciso fazer um elogio à classe, e um puxão de orelha.

O elogio é porque, ainda que por falta de organização, nunca reagimos com violência e burrice contra aqueles que nos ameaçam, e olha que não são poucos. Convivemos à mais tempo do que deveríamos com sobrinhos, que operam sem a menor ética, qualidade e compromisso. E mais recentemente com os sites de “concorrência criativa”, que detonam a profissão ao colocar todos para brigar por clientes fazendo leilão de seus trabalhos.

Não se enganem: mesmo com o encaminhamento da regulamentação da profissão, essa ameaça não cederá. Um profissional pode ser tosco o bastante para rifar seu trabalho onde quiser. Ainda é um direito constitucional ser burro. Fazer marcha de designers à Brasilia não vai funcionar. Não vamos encher uma Towner. Procurar todos os micreiros e seus clientes para bater neles nas ruas também não é boa opção.

O que podemos fazer é o que todos os exemplos citados neste artigo deveriam: melhorar, melhorar e melhorar nosso serviço. Nossa forma de atender. Modernizar nossos processos, encontrar novas fórmulas, que encantem nosso clientes e que não nos agridam enquanto profissionais.

E temos uma vantagem a nosso favor, que não está sendo usada: ao contrário dos taxistas, operadoras de telefonia e do cinema nacional, um bom designer não deixa a desejar ao seu concorrente micreiro. Muito pelo contrário, nosso problema é que nosso público nem sabe como falar conosco. Esse é o puxão de orelha.

 

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