UBER X taxistas. O que designers podem aprender com essa briga?

UBER X taxistas. O que designers podem aprender com essa briga?

Nas últimas semanas todo mundo vem acompanhando a verdadeira batalha campal promovida pelos taxistas contra o Uber, serviço de motoristas administrado via aplicativo para smartphones. Os taxistas alegam que o Uber fere a livre concorrência, pois seus motoristas não estão sujeitos às mesmas regras que eles. Não estão totalmente sem razão: um motorista de taxi precisa de licenças especiais para trabalhar, formação diferenciada comprovada por carteira, e precisa passar por um caminhão de intempéries para manter um ponto fazer parte de uma cooperativa.

Em suma: há o que discutir. Ok, concordamos nisso.

O que está errado é a forma usada para fazer a discussão acontecer. Os taxistas têm usado de ameaças, violência, baixaria e todo tipo de coação para colocar seu ponto de vista. Nenhuma voz de sensatez é ouvida do lado deles. Alguma tentativa de, antes de tudo, entender a razão de existir do aplicativo, e quais as diferenças entre os dois serviços.

O Uber não nasceu no Brasil, mas aqui, como lá fora, tem muita facilidade de florescer por um motivo bem simples: o serviço é melhor, mais atencioso, e regulado por quem mais interessa: os próprios usuários. Se você encontra um motorista do Uber muito bem avaliado, a chance é grande de que você vai ter uma experiência tranquila, sem surpresas desagradáveis, e isso é muito.

A discussão acalorada acabou gerando argumentos para outros setores, que nada tem a ver com transporte de passageiros, mas que tem muito a perder com novas modalidades de atendimentos via internet. O presidente do Grupo Telefonica, controladora da marca Vivo, disse em uma palestra que o Whatsapp é pura pirataria, que atinge a empresa, e que a Vivo jamais fará promoções em conjunto com eles. A Ancine, de olho no crescimento do Netflix, diz que o serviço de filmes via streaming precisa de um Marco Regulatório. A Associação Nacional de Livrarias exige que se regule o serviço da Amazon.

O que todas essas empresas têm em comum, fora do fato de estarem enfrentando concorrência de empresas digitais?

Todas oferecem serviços deficientes. Operam com métodos, serviços e operações com ambos os pés no passado. Outro ponto em comum: possuem capacidade de articulação política maior do que o de resposta pragmática. Trocando em miúdos: preferem fazer um lobby para tentar proibir seus desafetos de operarem do que agir internamente ou tentar buscar uma via de regulação via entendimento entre as partes.

Nosso UBERburocrático governo (com o perdão do trocadilho) é bastante permeável a esse tipo de pedido, especialmente quando vem de grandes contribuidores de campanhas (no caso da Vivo) ou de Sindicatos (como os Taxistas). Vai acabar cedendo, metendo o bedelho onde não precisa, para não agir onde seria necessário. E pouco a pouco, o empreendedorismo vai morrendo.

Do outro lado, o que as empresas digitais tem em comum? Com ou sem necessidade de maior regulação (o que talvez seja mais evidente no caso do Uber), todas são donas de serviços amplamente elogiados por seus usuários.

Ora, a Vivo faria muito mais à sua própria imagem e margens de lucro se cuidasse de oferecer um serviço decente para seus clientes. O Netflix tem sido a ÚNICA opção em muitos lugares onde a última locadora de filmes já foi pro saco. O preço dos livros nacionais é a maior propaganda da Amazon, e não exatamente a qualidade deles.

O empreendedor funciona olhando as brechas do sistema. Procurando os locais onde clientes são mal atendidos, e usando sua criatividade e força de vontade para preencher essas lacunas. Num país como o nosso, o que não falta é buraco, o que mais tem é gente insatisfeita com os serviços prestados. Me parece uma canalhice sem tamanho dificultar a vida de quem está oferecendo finalmente aquilo que o consumidor queria. É assim que a inovação caminha, é assim que novos negócios geram riqueza.

Para entrar no assunto do blog, que é design, é preciso fazer um elogio à classe, e um puxão de orelha.

O elogio é porque, ainda que por falta de organização, nunca reagimos com violência e burrice contra aqueles que nos ameaçam, e olha que não são poucos. Convivemos à mais tempo do que deveríamos com sobrinhos, que operam sem a menor ética, qualidade e compromisso. E mais recentemente com os sites de “concorrência criativa”, que detonam a profissão ao colocar todos para brigar por clientes fazendo leilão de seus trabalhos.

Não se enganem: mesmo com o encaminhamento da regulamentação da profissão, essa ameaça não cederá. Um profissional pode ser tosco o bastante para rifar seu trabalho onde quiser. Ainda é um direito constitucional ser burro. Fazer marcha de designers à Brasilia não vai funcionar. Não vamos encher uma Towner. Procurar todos os micreiros e seus clientes para bater neles nas ruas também não é boa opção.

O que podemos fazer é o que todos os exemplos citados neste artigo deveriam: melhorar, melhorar e melhorar nosso serviço. Nossa forma de atender. Modernizar nossos processos, encontrar novas fórmulas, que encantem nosso clientes e que não nos agridam enquanto profissionais.

E temos uma vantagem a nosso favor, que não está sendo usada: ao contrário dos taxistas, operadoras de telefonia e do cinema nacional, um bom designer não deixa a desejar ao seu concorrente micreiro. Muito pelo contrário, nosso problema é que nosso público nem sabe como falar conosco. Esse é o puxão de orelha.

 

Grandes Inimigos do Designer – Parte final: A Formação

Grandes Inimigos do Designer – Parte final: A Formação

Girl drawing back to school

Dois avisos ao início deste artigo.

Primeiro: logo que comecei a escrever essa série, elenquei uma série de inimigos, e entre eles coloquei a Falta de Regulamentação. Estou suprimindo este item. O motivo é simples. Nesse meio tempo, a tão falada regulamentação, assunto que está na mesa desde que eu me entendo por gente, enfim parece que está saindo do papel. Se escrevesse um artigo sobre ela agora, seria superficial, e fadado ao envelhecimento precoce quase instantaneamente. Além disso, confesso que não li a fundo os termos que estão sendo aprovados. Portanto, prefiro esperar.

Segundo: toda a série foi escrita em tom de fábula. Neste último artigo, deixo esse formato de lado, pois creio que, de todos os chamados “inimigos”, este é o mais grave e importante. Por isso, prefiro um approach direto. Vamos a ele.

As diferenças nos resultados da nossa profissão em relação à várias outras sempre nos leva a tecer comparações. Nada mais comum em certa altura da vida do que ver jovens profissionais de outras áreas, que, poucos anos depois da saída da faculdade, alcançam postos de trabalho interessantes e salários notáveis, enquanto que o designer, depois dos mesmos anos de experiência, só teve correções monetárias ou trocou meia dúzia de vezes de empresa, apenas para ficar no mesmo lugar. Não parece justo.

Mas para entender os resultados, a gente precisa ir nos inícios.

 

A estrutura que leva administradores de empresa, engenheiros, advogados e médicos ao trabalho começa na faculdade. É ali que os profissionais começam a passar para os alunos as regras do mercado. A conduta, o dia a dia, o caminho a galgar, as posições e as experiências. Eles fazem isso por dois motivos. Primeiro porque são educadores. Segundo, para proteger um mercado que eles mesmos fazem parte.

Por conta dessa realidade, as faculdades mais difíceis são mais valorizadas. Professores “carrascos” são mais respeitados. Conseguir passar com alguns deles é um trabalho árduo. Com boas notas, uma raridade.

Os professores de design que me perdoem, pois com certeza existem exceções. Mas não é isso que vejo nas faculdades da nossa área. Sinto uma preocupação muito maior e meio desproporcional em criar cursos lúdicos, criativos, interessantes e ambientes divertidos do que o ensino das chatices do design. Do dia a dia, do trabalho com clientes difíceis, de fluxogramas, reuniões de briefing, mudanças de última hora, decisões criativas contrárias ao que você imaginava.

Toda a parte burocrática. Engenheiros não precisam aprender as bases de história da arte, mas designers deveriam sim, aprender noções bem mais que básicas sobre contabilidade, legislação, rotina de escritório, estratégia, marketing e outras coisas “boring”. Ou seja, a faculdade deveria acender o empreendedor dentro de cada aluno. Preparar, triar, trazer para o mercado alguém que valoriza a si próprio e à sua profissão.

O que se vê de disparidade também se reflete nos primeiros anos de trabalho dos profissionais. Enquanto um administrador de empresas ou engenheiro vai atrás de um programa de Trainee nas maiores empresas, e o médico busca sua residência no melhor hospital possível, o designer acaba como estagiário que faz trabalho de arte-finalista em algum estúdio, e não sabe quais serão seus passos dali para frente.

O organograma que um designer recém formado deve galgar, ainda que fosse levado a cabo, é curto e não quer dizer grande coisa. Se formos analisar, teríamos o estagiário, que levaria ao assistente de arte,  e então designer júnior, pleno e senior, com uma carreira de diretor de arte que normalmente só faz sentido real em publicidade. Mas na prática, tem quem vá de uma a outra sem passar pelo meio e tem muitos e muitos que recebem como assistente de arte sem assistir à ninguém, muitas vezes sendo o único profissional de design numa empresa.

A carreira do diretor de arte então, só tem de bonito o nome, pois quando as diretorias da empresa se reúnem, dificilmente incluem o coitado. E ele, que é acostumado a arroubos de criatividade e porralouquice, acha que está fazendo um bom negócio em não participar dessas reuniões tão chatas. Na verdade, está criando uma cultura onde a opinião do designer vale pouco ou nada, e que decisões são tomadas sem a sua presença.

Outros saem da faculdade, e impulsionados pelo dinheiro do papai, montam seu próprio estúdio. Existem até exemplos de estúdios que deram certo dessa forma, mas a grande maioria não sabe nem amarrar o sapato direito e já querem se sentar numa mesa de reunião com o diretor de uma empresa. Para oferecer qualquer tipo de ajuda, um designer deve ter janela de mercado, aprender a ler o caderno de economia com a mesma avidez que devora a ilustrada, aprender a falar sobre os controles internos de empresas com o mesmo interesse do que o último festival de rock. E o primeiro contato que o designer deveria ter com esse mundo deveria estar na sua escola.

Na minha visão, a faculdade deve ajudar a moldar o profissional que vai moldar o mercado. É o momento certo de colocar na cabeça do jovem que ele precisa começar certo. Mais do que saber fazer kerning de olho fechado ou grids perfeitos usando palito de picolé, o aluno deve sair de sua escola com a medida o mais certa possível do que fazer para ajudar a sua classe, e principalmente, o que não fazer.

 

Grandes inimigos do Designer, parte 4 – O Mercado

Grandes inimigos do Designer, parte 4 – O Mercado

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A saga não pode parar. E muitas vezes, tão importante quanto à trama de uma história, é o local onde ela se desenrola. Quem é fã de Senhor dos Anéis sabe disso. A Terra Média é um personagem a mais, senão o principal. As aventuras dos nossos pobres herois, designers, também tem seu ambiente ameaçador e fantástico: O Mercado. Vamos falar um pouco dele.

Nome científico: Beco da Perdição e Glória

Características: Desde que os primeiros sintomas de que a criança se tornará um futuro designer, as mães entram em desespero. Sabem que, mais cedo ou mais tarde, será inevitável que o jovem abandone o conforto do lar para se aventurar no lugar onde os crimes mais vis acontecem, e também as maiores fortunas são ganhas, ou perdidas… O Mercado.

O Mercado é aonde todos vão trocar suas mercadorias por serviços. É neste ambiente hostil, repleto de todos os perigos conhecidos pelo homem que se reúnem patrões, clientes, sobrinhos e designers, em busca do melhor negócio para si. Depois de se embrenhar pelas vielas sujas do Mercado, o designer pode sair com um job, ou com uma bomba relógio prestes a explodir nas mãos. Dependendo dos poderes hipnóticos do cliente, o designer pode se ver obrigado a perder o feriado na chácara com a galera para entregar 5 layouts finalizados e prontos para a gráfica na segunda, para o cliente escolher apenas um, e mesmo assim pagar a metade do combinado, com um cheque para 15 e outro para 30 dias.

É no Mercado que patrões inescrupulosos cooptam designers ingênuos para trabalhar a troco de pizza. É lá que os designers perdem trabalhos para os sobrinhos, que são menores, correm mais e tem conexões espúrias.

Mas também é lá que alguns poucos designers começaram a vida e hoje reinam nos bairros mais ricos do reino. Agora é o Mercado que vai até eles.

A Verdade sobre O Mercado

A verdade é que o Mercado existe para todos. Ele permeia todas as relações, não há como fugir dele. O mercado está lá quando se consegue um novo trabalho, um novo cliente, um novo emprego. Quando oferecem um salário, quando corta-se ou adiciona-se benefícios e direitos. As regras do mercado não estão escritas em lei, e sim nas condutas. Há sim, como se proteger dessas regras.

O grande problema que vejo em designers hoje em dia (e sempre, para falar a verdade) é justamente a confusão entre o que se quer, o que se quer entregar, e a forma de conseguir. O designer não se sente à vontade para abraçar o mercado. Ele sente que isso é muito mundano para ele. Ele gostaria de ficar o dia inteiro fazendo arte, movendo pixels, testando cores. Sentar, olhar para a cara do cliente, ouvir suas expectativas, sentir o entusiasmo, negociar (ênfase na última palavra).

NEGOCIAR. É aquilo que deixa todo designer sem jeito. Passar um preço, nossa que desagradável… E o medo de ouvir um NÃO? E se o meu orçamento está baixo demais em relação à concorrência? E QUEM é a concorrência?

Se esse tipo de questionamento anda boiando na sua mente toda vez que você precisa passar um orçamento, isso provavelmente é porque você anda afastado do Mercado.

Para exemplificar o que estou falando, vou usar duas frases que não são minhas. A primeira eu não sei de quem é, ouvi em alguma palestra: “Se seu negócio não tem concorrentes, provavelmente é porque não tem mercado”.

A segunda é do Mike Montero, head da Mule Design. Em seu livro, ele diz: “A pior coisa que pode te acontecer é seu cliente aprovar seu orçamento de primeira. Alguma coisa você fez errado”.

Claro, é normal ter uma dor de barriga de expectativa ao passar uma proposta, mas não tanto. O que te trará tranquilidade é conhecer o mercado. E mais que isso: conhecer SEU mercado. Cada empresa, cada designer, se sente mais à vontade, ou entende mais, ou tem mais trânsito em algum canto do mercado. Talvez seja na área automotiva. Ou você transite bem com esportistas. Ou moda. Startups. Não importa. O que interessa é que você saiba onde está pisando. Conheça seus competidores, saiba onde seu cliente joga, saiba o que é tendência.

Sim, você pode conhecer mais de um mercado. Mas conheça.

A segunda coisa para ter em mente é que, queira ou não, você é parte do Mercado. E suas ações o melhoram ou pioram. Pense na bolsa de valores. As ações mais procuradas e lucrativas são mais caras. São as marcas que se destacam em suas áreas. São aquelas que dão mais retorno para os acionistas. Aquelas que não apresentam resultados, tem preços e valores de mercado menores.

Depende de você a forma que vai disputar seu lugar do mercado. Pode ser timidamente, se escondendo atrás do seu patrão, ou de peito aberto, seja para conquistar um novo cliente, ou mesmo um novo patrão. Ninguém foge do mercado. Todos os caminhos levam a ele.

Não, você não precisa de um “loguinho baratinho”

Não, você não precisa de um “loguinho baratinho”

Se você está precisando de uma identidade corporativa para sua empresa, seja porque a sua ficou velha, porque é feia, ou porque você está iniciando os negócios, pode ter a impressão de que nunca as coisas foram tão fáceis. Afinal de contas, existem dezenas de sites oferecendo serviços aparentemente perfeitos por bagatelas que chegam a incríveis 5 dólares! Designers e mais designers se engalfinhando para fazer “sua logo”. Como não aproveitar?

Caso você ainda não conheça esses serviços, e se isso te seduz, nem precisa suar: eu mesmo te informo. Tem o Uplogos, o Logovia, o Workana, o maldito WedoLogos e agora um tal de Fiver, que promete logos profissionais a 5 dólares, o que me leva a crer que o vício em crack não torna o profissional menos produtivo.

Se você achou que um desses serviços é sob medida para sua empresa, pode parar de ler o texto aqui. Ele não é para você. Contate um dos referidos e seja feliz. Definitivamente, nós não fomos feitos um para o outro.

Se por outro lado, o futuro da sua empresa é algo importante de verdade para você, talvez valha a pena perder alguns minutos e me deixar explicar os motivos pelos quais eu creio que esses serviços podem fazer mais mal do que bem para seu negócio.

1 – Sendo corporativista

Tira perfeita do cartunista Will

Vamos tirar o argumento classista da frente logo de cara. Esses serviços prostituem o mercado de design, e tornam a vida de quem rala de verdade para por comida na mesa mais difícil. É concorrência desleal, realizada por dois tipos de pessoa, os que querem ganhar dinheiro usando trouxas (no caso os donos dos sites, sendo desonestos a horda de designers que se oferecem), e gente que, ou está desesperada, ou está  atrás de um troco fácil (os designers). O que você tem a ver com isso? Nada. Apenas quero que essa peça esteja também no tabuleiro quando você tomar sua decisão.

2 – Você não é designer.

Algumas opções. Escolha a melhor

O primeiro ponto que quero tocar parece besta. Na grande maioria desses serviços, você oferece quanto quer pagar, e dentro daquele seu orçamento, os designers passam a te oferecer opções de layouts até que você goste de algum. Parece bacana, não?

Não, não é.

Uma coisa que preciso te falar agora, empresário, e isso pode te chocar: você não é designer. Quem disse que, uma vez de posse de 50 logos distintos, você vai escolher o melhor? Ou adequado? Ou mesmo um que seja passável? Uma coisa que pode te deixar estarrecido é: dificilmente bons profissionais vão trabalhar por muito pouco dinheiro. É a lei do mercado. Um designer que senta e desenha 10 logos para te apresentar não gastou mais do que 5 minutos em cada um. Se gastou, é mais burro e incompetente ainda.

Então tudo leva a crer que, ao fim do processo, você tenha dezenas de marcas que no máximo serão “bonitinhas, mas ordinárias”. O que te faz pensar que você conseguirá extrair algum sumo considerável dessa fruta?

Quando você contrata um designer, você não o paga apenas para sentar e desenhar. Você o faz para que ele te ouça. Te entenda. Saiba quais são suas aspirações com sua empresa. A quem quer atingir, qual é seu mercado, quem são seus competidores. Não adianta nada ter um logo parecido com o da Coca-Cola se no dia a dia você perde vendas para o cara que vende caldo de cana na esquina. Cada caso é um caso, cada logo é um logo.

Aceite. Você tem seu gosto, mas design não é só gosto. Você não sabe escolher. Precisa de um designer para isso.

3 – Responsabilidade

Do site Bored Panda: 15 worst logos

Quando você contrata um profissional para te prestar um serviço, está comprando, junto, a ética e responsabilidade dele. Não se esqueça, ele está fazendo uma operação com órgão expostos naquilo que pode garantir seu sustento, sua empresa. Se alguma coisa der errado, ele tem responsabilidade nisso.

Mas o que pode dar errado numa criação de marca?

Você pode se surpreender com dezenas de casos de logos que se parecem com o que não deveriam, que causam constrangimento para seus proprietários, ou que simplesmente foram copiados descaradamente de outros. E como você cai reclamar com o designer com quem só tratou via internet, e que o máximo de informação que você tem é que mora em Feira de Santana e tem um desenho de uma laranja de óculos escuros no lugar do avatar?

4 – Relacionamento

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No meu entender, se você quer que seu negócio vá adiante, deve tratá-lo com a devida importância. No mundo perfeito, um designer deveria ser como aquele médico que você vai mesmo sem estar doente, só para fazer o acompanhamento. Quanto mais tempo você mantém o relacionamento com o designer, mais familiarizado ele estará com sua marca, com seu mercado, e com você mesmo.

Costumo dizer que o processo de se criar uma marca é quase como “levar a empresa no psicólogo”. E na conversa com o profissional, nas perguntas e respostas que se chega a conclusões sobre o futuro, sobre cenários, sobre rumos. Correções de trajeto só podem ser feitas de forma eficiente se as partes estiveram juntas no caminho anterior.

Serviços como estes encontrados na internet não darão essa oportunidade para você e seu empreendimento. Simplesmente te entregarão um produto, e você que se vire com ele.

Muitos donos de negócio, depois de ter em mãos as peças mais básicas de sua identidade, entram numa vibe “agora eu já entendi”, e passam o trabalho para um designer mais baratinho, ou assumem de vez a comunicação, fazendo qualquer porcaria e colocando o logo embaixo. Tiro no próprio pé. Design é investimento. É continuidade. É trabalho constante, sem prazo pra terminar. Conhecer seu designer é uma forma de se concentrar em fazer negócio, que é o que você sabe.

5 – Pensa bem, rapaz

A primeira impressão… bem, você sabe.

Você suou para ter sua empresa. Colocou nela o melhor de si. Acredita em seu produto/ serviço. Pensou no modelo de negócios, gerenciou fornecedores, tem uma ideia boa, enfim, você quer ser bem sucedido (em todos esses anos nessa indústria vital, ainda não encontrei um empresário que não quisesse). Vai colocar tudo a perder justamente na hora de expor sua ideia para o mundo?

Seria o equivalente a planejar uma festa de arromba o ano todo, pedir traje a rigor para todos os convidados, e no dia do evento, receber a todos de sunga de oncinha. Não faz sentido.

Para muitos, o investimento em algo que parece tão abstrato pode soar como alto. Mas pode ser seu grande diferencial na hora de colocar os pés no mercado. Lembre-se do que diz o grande mestre do marketing, Al Ries: “Você não consegue ter uma segunda primeira impressão”.

Grandes inimigos do Designer, parte 3 – O Patrão

Grandes inimigos do Designer, parte 3 – O Patrão

Em mais um capítulo deste manual de sobrevivência do designer, hoje vamos nos concentrar num dos mais temidos comedores de carcaças do mundo mágico do Design. O Patrão.

Nome científico: Patronius Sempre Certus

Poderes: O Patrão é mais um daqueles seres místicos que o designer passa metade da vida procurando, e a outra metade reclamando que achou. Reza a lenda que os Patrões navegam pelas terras do Grande Mercado em suas caravelas fantasmagóricas. Em cada porto que param, compram uma leva de designers, e largam para trás os corpos quase mortos dos designers velhos. Geralmente atraem seus escravos com promessas de um futuro glorioso, repleto de prêmios, ambiente descontraído e a possibilidade de trabalhar de bermuda, para em seguida aprisioná-los em seus calabouços fétidos e muito bem decorados.

Uma vez dentro da embarcação, os pobres designers são expostos às mais degradantes condições de trabalho. Ainda em seus tempos de juventude, o Patrão comprou de um mercador em uma distante paragem, uma ampulheta mágica, que atrasa o tempo sempre em 24 horas. Isso o dá o poder de aceitar trabalhos cuja entrega é para ontem. O que força os nossos herois a varar noites e noites layoutando sem misericórdia, quase sempre à troca de pizza, enquanto levam chibatadas no lombo.

Em uma demonstração da grande injustiça executada pelos patrões, eles costumam a convidar a bordo de suas naus outros tipos de cidadão, como profissionais de marketing, administradores e gerentes, mas para esses, oferece condições diferenciadas de tratamento. A estes tipos, ele abre sua cabine, deixa livre o convés, e ainda os chama para participar dos planos das batalhas.

Origem: Existem dois tipos de Patrão. Aquele que, na aurora de sua juventude, era ele próprio um Designer, e aquele que já nasceu dentro do navio, que herdou do seu pai, que já era um grande mercador de designers antes dele. O primeiro perpetua o comportamento vil por vingança, para passar à frente todo o mal que sofreu. E o segundo age dessa forma porque não conhece outra forma. Há relatos de patrões legais, mas sem registro formal, porque é sempre “no navio que um amigo meu trampa”.

A Verdade sobre Os Patrões

Reclamar é um vício. Se colocar na pele dos outros é muito, muito mais difícil.

Ser patrão no Brasil é um desafio. A simples noção da burocracia que envolve a contratação e manutenção de funcionários em qualquer tipo de empresa é o suficiente para afastar dos planos de qualquer empresário essa vontade. O que é uma pena. É no trabalho, junto à chefes e diretores, que se aprende a profissão de verdade. No contato com diferentes áreas e clientes da empresa é que se aprende a atender, a servir. Servir ao patrão, ao cliente e à sua profissão.

É verdade que o Designer muitas vezes está entre os menores salários, e muitas vezes entre os que mais braçalmente trabalha. É verdade que outras áreas dentro de um estúdio ou agência acabam ganhando mais, e participando mais das grandes decisões.

Mas o outro lado dessa moeda é algo que nossa classe não está muito acostumada a abraçar: a responsabilidade. Quando as coisas dão certo, o designer quer os louros para si. Quando dão errado, é culpa do planejamento, do marketing, do patrão. O designer estava quietinho, no seu canto, com fone de ouvido, de óculos escuro e nem estava prestando atenção na hora. Só fez o que o briefing mandava.

Se os designers quiserem mudar esta balança a seu favor, vão ter que fazer coisas que detestam: sair da sombra. Colocar a cara a tapa. Falar numa reunião, dar opiniões, ASSUMIR posições. Ganhar o respeito quando estiver certo, e aguentar a porrada quando estiver errado. Falar, aliás, é uma prerrogativa essencial se o designer quer mais espaço. Falar corretamente, claramente, com português correto, com uma apresentação pessoal que passe segurança para quem está contratando os serviços da empresa. O designer vai ter que se transformar em alguém que seja digno de ser exibido numa reunião com os diretores da empresa do cliente.

Para que isso possa acontecer, ele vai precisar tirar a cabeça do buraco, e olhar o mundo que se projeta para além dos kernings, pantones e grids. Vai ter que saber o que acontece na política, na economia, no cotidiano. Vai precisar fazer um dever de casa e descobrir que diabos passa na cabeça de um empresário que fabrica corante artificial para gêneros alimentícios. Estruturas plásticas. Compostos químicos para empresas odontológicas. Porque muitas vezes esses são os clientes que um patrão atende e vê potencial. E adivinhe só, por mais áridos que esses assuntos sejam, eles são as meninas dos olhos das pessoas que os produzem. Que querem ver brilho nos olhos de quem os vai atender. Em outras palavras, você vai precisar de praticar empatia com os clientes da empresa onde você trabalha.

Ao se segregar em grupos de pessoas iguais, os designers se afastam dos motores da sociedade. Ao acharem “boring” todo esse povo que fala de assuntos tão chatos, criam muros invisíveis que separam os dois lados que, no fundo, dependem um do outro. Sejamos sinceros, muitos designers sentem até alívio ao não serem chamados para reuniões chatas, para as quais eles terão que sair dos seus cubículos decorados com toy-arts para locais longínquos e inóspitos como Guarulhos ou Diadema, nas fábricas e sedes de escritórios dos clientes.

Como pedir que o patrão veja no designer uma peça vital, se ele se porta como uma que tem reposição fácil no mercado?

No cantinho, quietinhos e cuidando de suas vidas, os designers não irão muito longe. O caminho pro reconhecimento que tanto se quer passa necessariamente por maior exposição. Um animal raro em extinção pode ser uma coisa linda nas florestas de bornéu, mas o que faria falta mesmo na humanidade se repente sumisse são as boas e velhas vacas. Para ser valorizado, o designer precisa de ser visto, para ser entendido precisa ser escrutinado. Para ser valorizado, precisa se valorizar.

Se conseguir alcançar esses objetivos, não haverá patrão no mundo que não queira ter um designer bem pago na equipe.

Grandes inimigos do Designer, Parte 2: O Cliente

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Continuando a série em que estamos esmiuçando as grandes ameaças que rondam a vida do Designer, hoje vamos falar de um animal mitológico que é, como um grande paradoxo, o grande objeto de desejo e uma grande ameaça: o Cliente.

Nome científico: Clientus Pagadorius

Poderes: O Cliente é um monstro mitológico tímido. Em sua tribo, o jovem designer chega num momento da vida em que precisará passar por seu ritual de iniciação. Em várias comunidades de Designers, é de senso comum que ninguém se transforma em Designer Pleno sem dominar a arte de se embrenhar na selva, e voltar com um Cliente abatido nos ombros.

Uma vez caçado, porém, o Cliente se transmuta num animal muito mais aterrorizante. Crescem-lhe 400 olhos, capazes de encontrar qualquer erro em qualquer layout, sempre depois de impresso, mas nenhum deles capaz de enxergar um logo em uma peça com menos de 10 centímetros. Apesar de tantos olhos, todos são fracos em cores, e ele passa a exigir peças cada vez mais coloridas, com mais variedade de fontes e letras maiores.

Seus bolsos, que antes eram monumentos vistosos, que exalavam feromônios que atraíam Designers à léguas de distância, agora murcham e não oferecem nenhuma benesse. Seu senso de tempo fica completamente biruta, e ele passa a achar que horas são dias ou semanas, culminando com a fase onde ele pede layouts para o dia anterior, como se isso fosse efetivamente possível.

Cliente e Designer frequentemente acabam desenvolvendo uma relação parasitária, onde o primeiro suga completamente a força vital do segundo, transformando-o em um trapo humano, sem tempo, sem dinheiro e nem feriado. Em troca, o Cliente provem o designer com migalhas e restos, que garantem mal e porcamente sua subsistência.

Origem: O Cliente é parte vital do mundo, e tem hábitos bastante promíscuos, uma vez que se relaciona com todos os seres, inclusive entre si. Escondem-se em vários lugares, e são frequentemente encontrados atrás de balcões de pequenos negócios e no topo das grandes montanhas de organogramas de empresas grandes. Os Clientes não andam em manadas. São solitários, costumam ser seres muito orgulhosos, e tem hábito de mandar. Seu rosnado primordial, traduzido de sua língua muitas vezes ininteligível significa algo como: “Tô pagando”.

A Verdade sobre o Cliente

É fácil e cômodo para o designer jogar a culpa pelos problemas da profissão sobre os ombros do cliente. Afinal de contas, foi ELE quem pediu as malditas alterações que tornaram a peça, que era tão legal, na porcaria que agora está. Foi ELE quem pediu que o fundo do panfleto fosse roxo ao invés do lindo cinza que o designer tinha escolhido. ELE exigiu que trocasse a Helvética por Comic-Sans. ELE que pechinchou tanto o valor da identidade que no fim não dava para comprar um café no Starbucks com o budget.

Tudo isso poderia até ser verdade. Se isso fosse uma relação de escravidão, e não um relacionamento. Se o Designer não tivesse argumentos para contrapor os do cliente. E se, em última instância, o Designer não possuísse a grande arma sagrada contra tudo isso: o poder do NÃO.

Antes de desejar uma vida de design sem cliente, é preciso se questionar em alguns quesitos:

– Você explicou, didaticamente, todo o processo de criação para o Cliente, ANTES deste processo começar?

– Você colocou este processo, descrito em detalhes, numa proposta ou contrato?

– Você tem argumentos fortes o suficiente para contrapor uma sentença tão simples quanto “mas eu sempre gostei de roxo”?

– Você está querendo satisfazer MESMO o seu cliente, ou está querendo impressionar outros designers fazendo coisas iradas no seu portfólio?

– Você realmente sabe quanto seu trabalho custa? E quanto ele vale?

– Você já parou para pensar que você TAMBÉM é um cliente?

– Você acha que existe Design sem Cliente?

 

Como combater a ameaça?

Se você respondeu SIM à maioria destas questões, esse texto provavelmente não te atinge muito. Sim, muitas vezes os cliente nos tiram do sério. Mas isso é inerente á condição de seres humanos, que todos somos.

O que importa nesse relacionamento é que ambos sintam-se recompensados com ele. O Designer precisa ter certeza de que foi justamente ressarcido pelo seu trabalho. O Cliente, por sua vez,  precisa sentir que aquilo que pagou teve um bom retorno para seus fins. Ele precisa ter certeza de que foi ouvido. Que as necessidades da sua empresa foram levadas em consideração mais do que o último site de tendência para o design no ano que vem. Mas antes disso, é preciso que este contato (Designer X Cliente) realmente se transforme em RELACIONAMENTO. Somente através dele você vai entender as necessidades da marca do seu cliente. Só conhecendo que tipo de empresário ele é vai ser possível saber que tipo de marca ele tem, o que espera dela, e qual a solução você vai apresentar.

Conselho de Designer pra Designer

Se você acha que é um excelente Designer, o que atrapalha são os clientes, você provavelmente precisa repensar essa sentença. Uma coisa não existe sem a outra. Se seu design não atende, não satisfaz e não dá resultado ao seu cliente, ele pode ser no máximo (e eu estou sendo muito bonzinho contigo) arte. Coloque-o na parede ou leve para algum museu. Ah, mas esqueci. Nesse caso, o museu vai ser seu cliente.

 

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