Sim, você precisa cuidar da sua marca. Não, você não sabe fazer isso sozinho.

Sim, você precisa cuidar da sua marca. Não, você não sabe fazer isso sozinho.

Nike. Apple. McDonalds.

Três empresas que são vistas como vencedoras. Três histórias completamente diferentes com algumas coisas em comum:

São empresas que começaram pequenas, cresceram rápido, e entenderam melhor que seus concorrentes o poder de suas marcas. Cada uma em sua área de atuação, elas se destacaram de tal forma pela maneira que gerenciam seus patrimônios visuais, que muitas vezes são alvo de críticas que dizem que seus produtos não estão à altura do valor de suas marcas.

É comum ouvir nos seus respectivos mercados que os tênis da Nike não são melhores que os dos seus concorrentes, que são produzidos com mão de obra escrava, que são caros demais pelo que entregam. Ainda assim, a Nike sempre esteve no topo do reconhecimento mundial quando se trata de esporte. Seus tênis sempre estiveram entre os principais sonhos de consumo de atletas profissionais, amadores e aqueles que simplesmente querem calçar algo descolado.

Mesma coisa acontece com o McDonalds. É público e notório que qualquer pessoa deve conseguir um sanduíche mais gostoso e maior em qualquer padaria da sua cidade, gastando menos dinheiro. Mas quando estamos soltos no ambiente hostil que é uma praça de alimentação, a maioria de nós tem que resistir bravamente ao impulso de nosso cérebro, comandando para irmos de encontro à loja vermelha e amarela. Se você estiver na companhia de um adolescente ou criança então, é quase uma batalha perdida.

Entre fãs de tecnologia é normal participar de conversas que dizem que, com o dinheiro que se investe pra adquirir um computador ou telefone da Apple, dá pra comprar dois da concorrência, e muitas vezes melhores que os dela. Verdade seja dita, a marca realmente cobra um abuso no preço dos seus produtos, especialmente por aqui. Mas basta lançar um produto novo, e instantaneamente formam-se filas de consumidores ávidos. Pode ser um i-descascador de banana, se tiver a maçãzinha (perdão pelo trocadilho) impressa, vai ter quem compre. Na minha opinião, a Apple está num momento decisivo em sua história, mas apesar disso, ainda é a marca mais valiosa do mundo, e antes que comece a soltar fumaça nas turbinas, ainda tem muito combustível a queimar.

Como isso ocorre?

E o que isso tem a ver com sua marca, sua empresa, seus produtos?

Talvez mais do que você pensa.

A força das 3 marcas, é que, antes mesmo de terem seus produtos percebidos pelo mercado, seus dirigentes perceberam que precisavam se diferenciar de seus concorrentes. Ter um bom produto ou serviço, de boa qualidade e com um preço justo é ótimo. Mas a verdadeira batalha pela percepção do público começa muito antes deles terem sequer conhecimento do seu produto. Começa quando eles passam na frente da sua vitrine, ou quando tem um cartão de visitas em mãos, ou quando olham seu logotipo numa rede social num post de um amigo, e nem estavam procurando nada na sua área de atuação.

Tudo isso vai construindo uma pré-percepção e uma predisposição do público em relação à sua empresa. Você pode vender alta tecnologia, mas se seu site for feio e velho, seu cliente não vai ver isso. Pode vender alta costura, mas numa vitrine zoneada, nem o maior estilista do mundo vai chamar a atenção. É como um dentista cheio de dente podre. Como um decorador que vive numa casa feia. Nosso cérebro não consegue parar de fazer conexões, de completar lacunas. Queira ou não, ele vai sempre estar formando uma imagem à seu respeito. E se essa imagem vai ajudar ou atrapalhar nas suas vendas, é contigo.

Quando tudo acontece da forma correta, a imagem que ele tem da sua marca não está construída, mas a porta para isso está aberta na sua mente. No momento em que esse consumidor, direta ou indiretamente, subir um degrau no envolvimento com sua marca, não vai sentir o choque que um sujeito que só viu cavalos na vida tem ao estar frente a frente com um avião. É uma relação passo a passo.

Ele pode entrar em seu site. Pode clicar num anúncio que você deixou no Facebook. Pode ler um artigo que você postou em seu blog. Pode descobrir um produto seu no Instagram. Pode ouvir da boca de um amigo uma experiência que ele teve com seu produto ou pode ver esse amigo usando. Neste momento, tão decisivo, mas ainda longe da hora em que ele tem seu produto no carrinho de compras, como sua marca se apresenta?

• A Nike pretende fornecer produtos esportivos de qualidade para todos os praticantes – profissionais ou amadores – de atividades físicas. Para isso, seu design é vibrante, moderno, usa materiais inovadores. A Nike sempre investe em uma infinidade de sites e hotsites com imagens produzidas pelos melhores fotógrafos do mundo. O site aliás, está em constante mudança. Muito difícil entrar nele com alguns meses de diferença e não encontrá-lo remodelado. Ela patrocina milhares de eventos esportivos profissionais e amadores por todo o mundo, e atletas de alta performance. O foco da Nike são os atletas amadores, que se espelham em seus ídolos na prática esportiva.

• O McDonalds praticamente inventou o conceito de fast-food. Os irmãos criadores do modelo instituiram uma verdadeira linha de montagem de comida em seus restaurantes. E depois, seu CEO teve a visão de perceber que, apesar de jovens adoram sanduíches, são as famílias que gastam dinheiro comendo os lanches. Toda a comunicação do McDonalds é voltada muito mais para a experiência em torno da qualidade e simplicidade do momento que as famílias tem dentro dos seus restaurantes do que propriamente em sabor. A padronização do gosto do lanche é parte da estratégia de marca. O sabor é tão parecido quanto suas lojas. Esteja onde estiver no mundo, a pessoa sempre sabe o que esperar da experiência com o McDonalds. Para isso investiram pesado em arquitetura, na famosa combinação do amarelo sobre o vermelho, nos personagens infantis. Mas engana-se quem pensa que estão parados. Existem lojas “tubo de ensaio”, aos poucos introduzindo verdes, pretos, tons mais sofisticados. Uma corporação desse tamanho não pode ser pega de surpresa por nenhuma nova onda.

• A Apple, que nasceu dentro da garagem de Steve Jobs, sabe lidar com sua imagem desde o dia do parto. Jobs, que era muito mais um hippie do que qualquer outra coisa, tratou de arrumar um terno e cortar o cabelo para apresentar seu primeiro computador ao povo, numa feira. De lá pra cá, e ainda que não fosse um designer, Jobs cuidou do design como prioridade em tudo que lançou. Até nas embalagens, que são um espetáculo a parte. A Apple quer atrair o povo cool, ligado em tecnologia, mas que não quer perder tempo sendo um geek que abre parafusos e mexe em configurações. Para conseguir isso, investe em uma comunicação minimalista, foca quase totalmente nos produtos e quase na sacralização deles. A comunicação da Apple, hoje, quase não mostra pessoas.

Quando o potencial cliente finalmente entra em contato direto com sua marca, novos momentos da verdade (os mais graves) vão se desenhando. Como ele é atendido? O quanto as pessoas que vendem o produto o defendem? Quantas usam de verdade o produto, e são capazes de sanar qualquer dúvida? O produto é tão bom quanto se vende? A percepção é de um produto caro ou barato? Vale o quanto pesa? Seu cliente se sente tentado à usá-lo? Terá orgulho de exibí-lo?

E depois da compra, seu trabalho terminou? De forma alguma.

Qual a relação do usuário com seu produto/ serviço? Ele se sente parte de um grupo por usá-lo? Tem um bom pós-venda? Tem boa assistência técnica? Seu produto capta a atenção das pessoas que tem contato com seu cliente?

Para o pequeno empresário, boa parte dessas questões parecem distantes do mundo do pequeno empresário. E para alcançar o nível de excelência e controle de algumas delas realmente custa muito caro. Mas não fazer nada custa muito mais. Existe toda uma gama de atitudes e ações que podem ser implementadas e que com certeza melhorarão os resultados e a imagem de sua empresa.

E como saber o que fazer, e em que medida? Contratando um profissional. Na verdade, não tem outro jeito. Ainda que você, empresário, seja um cara antenado, de olho em tudo que acontece no mercado, e ainda que você tenha muito potencial, contratar um profissional é o caminho certo. Os erros mais graves geralmente não são cometidos nas questões em que a gente simplesmente não tem conhecimento, mas sim aquelas que acha que sabe.

Trocando em miúdos:

• Você não é habilitado para enxergar os problemas de sua própria empresa. É como um médico operar o próprio filho. Não dá certo. Um designer, um gestor de marca sabe que perguntas fazer, como te ajudar no posicionamento, na busca de soluções.

• Trabalho real de marca é para médio/ longo prazo e contínuo. Não adianta contratar um designer, fazer logo e identidade visual e achar que está com o jogo ganho. Ou pensar que agora dá pra assumir o trabalho você mesmo, e economizar a grana. É preciso continuidade, constância, novidade, inovação. Você precisa se espelhar em empresas como estas que eu citei acima, e manter o investimento ativo sempre. Note que eu digo: sempre. Para sempre.

• Contrate o profissional certo. Não, seu sobrinho que mexe em Corel não é o mais indicado. Não é só saber mexer em computador, é muito mais sério que isso. Se você acredita nisso, passe a levar seu carro num mecânico qualquer, seus filhos num médico qualquer. Cobrar barato, em certos caso, geralmente significa gente pouco qualificada, que não se dá o valor. Profissionais são pessoas especializadas, que vivem e respiram seu mercado 100% dos dias. Não dá pra ser pão duro com o destino da sua empresa.

• Cuidar de uma marca é muito mais do que fazer um logotipo bonito. Vai muito além, e tem muito trabalho antes e depois disso. Se você quer grandes resultados, tem que investir para isso. Hoje, mais do que nunca, sucesso não cai do céu.

Para concluir. Se você quer trabalhar design e branding como gente grande, tenha em mente: conheça seu produto, conheça seu público, saiba onde quer chegar, e contrate gente séria.

 

Advogado, Designer e puta. Sempre dá pra achar um mais barato.

Advogado, Designer e puta. Sempre dá pra achar um mais barato.

Minha esposa é advogada.

Apesar da abissal diferença que existe entre nossas profissões, via de regra nos pegamos encontrando similaridades no que tange à forma com que os clientes tratam os profissionais. Estranhamente, as duas carreiras não tem nada a ver nos prós. Mas nos contras, a gente se entende que é uma beleza.

Design, é claro, fica ainda mais fragilizada. Não temos nem uma entidade forte de classe. Mas se engana quem pensa que ter um órgão gigante e influente como a OAB dando backup para o profissional resolve todos os problemas. E se engana duplamente quem pensa que, triando os profissionais que podem exercer a profissão de maneira impiedosa, através de uma prova cada vez mais difícil, garante que só gente preparada e incutida de senso de conjunto exerça o ofício.

Trocando em miúdos: está cheio de advogado sobrinho por aí.

Os motivos dificilmente são os mesmos. Minha análise é que temos uma horda de despreparados em Design porque nossa profissão é tida como algo fácil, que qualquer um com um computador, um Corel e “bom gosto” consegue fazer coisas “maravilhosas” e “descolar altos ganhos” para si. Já no caso do Direito, o problema está nas quantidades. Convencionou-se dizer que no Brasil, as profissões mais respeitadas são as de médico e advogado (não por acaso, são aquelas que o cara é chamado de “doutor” antes mesmo de pisar num doutorado).

Ocorre que medicina é bem mais complicado. Não estruturalmente falando, é complicado porque morre gente na sua mesa. É complicado porque uma faculdade de medicina precisa necessariamente de uma parafernália imensa, que custa caro e exige espaço, instalações e investimento em tecnologia.

Já para montar uma faculdade de direito você precisa (além dos professores, claro), de uma sala que caiba 150 alunos e um data show, se tanto. O resultado: trocentas faculdades de direito em cada esquina do país. Lotadas até a tampa por alunos que ainda crêem que serão altamente respeitados nas ruas a cada flash de sua carteirinha da ordem (que mais de 80% deles não vai conseguir tirar).

As faculdades de medicina, por outro lado, são tão difíceis de entrar quanto ganhar na mega sena da virada quando são públicas. E tão caras quanto os ganhos dos 10 primeiros anos da vida de um designer bem-sucedido quando são particulares. Não deixa de ser um super eficiente método de manter a profissão sempre em alta, sempre em evidência, sempre com demanda, nem que seja pela escassez de pessoas que consigam se adequar à uma das duas condições.

Sintomaticamente, o país bem que precisaria de 10 vezes mais médicos por ano, 10 vezes menos advogados, e não está nem aí pra Design. Mas deveria. Os números ilustram bem porque praticamente não vemos médicos “sobrinhos”, mas nas outras duas carreiras, tropeçamos com eles cada vez que saímos de casa.

É um caso clássico de oferta/procura. Muitos procuram poucos médicos = profissão valorizada. Muitos procuram muitos (muitos, muitos!!) advogados = concorrência desleal. Muitos designers procuram clientes, mas eles de verdade nem sabem direito que porra é essa = confusão, profissão sem valor, falta de entendimento.

Nas conversas com minha esposa sobre nossas profissões, eu chego a conclusão que vários tipos de confusão que nos causam dor e prejuízo são parecidas:

Cliente que pensa que sabe

Vivemos numa sociedade extremamente judicializada. Não é raro receber via Facebook matérias que chamam para supostos direitos que todos deveriam ter, e que podem render uma grana. Ou pessoas que, antes de uma separação, fazem toda a pesquisa prévia na internet em 45 minutos enquanto ouvem o último disco da Shakira, e acham que são verdadeiros juristas, e que só não fazem sozinhos porque não têm carteirinha.

Em design, o cliente é inundado de referências o tempo todo, se encanta com um monte de coisas que não necessariamente se encaixam, e acha que sabe tudo que precisa, mas infelizmente não aprendeu a “mexer” no computador, porque “tinha que trabalhar”. Em ambos os casos, a sensação de estar à altura do profissional que está contratando só causa sofrimento. Ninguém discute uma decisão de um cirurgião durante uma operação. Mas qualquer um acha que tem o pantone certo pra sua marca recortado de um pedaço de revista na carteira.

Cliente acha que é fácil

Sintoma parecido com o anterior, mas ligeiramente diferente. Em direito isso é mais localizado. Ninguém acha que um processo tributário é algo simples, mas experimente dialogar com alguém que acha que o divórcio ou um processo trabalhista é coisa corriqueira. Afinal, o resultado é sempre algo digitado em folhas de papel. Não se entrega um robozinho, não tem que abrir a cabeça, não tem risco de esguichar sangue no teto. Deve ser fácil, portanto.

Em design não preciso nem falar. Não sei quantas vezes eu ouvi o cliente dizer “é super facinho, você faz em cinco minutos”. Uma coisa eu digo pra todos: NÃO EXISTE 5 MINUTOS. Existe o tempo que eu gastei da minha carreira pra resolver essa parada em 5 minutos. Para piorar, tem outro estigma. Designers trabalham com prazer. Ou com a fantasia que os outros têm à respeito da profissão. Pô, trabalhar o dia inteiro no computador, fazendo desenhinhos, aplicando corzinha…. Ainda tem que pagar por isso?

Meusamigo e minhasamiga

Designers e advogados tem outro ponto de conexão. São sempre procurados pelos amigos em momentos muito peculiares da vida. Deles.

Advogados são sempre procurados em momentos de aflição. Ou tem alguém separando, ou sendo lesado, ou no risco de perder tudo, ter que desembolsar uma bufunfa que não contava. Ou tudo isso junto. E então é uma sacanagem do advogado querer ganhar sua grana justamente nesse momento tão frágil. E acreditem: advogados ganham amigos “do peito” que nunca o chamaram para dividir um chan de dentro num churrasco regado a Belco. Também é absolutamente normal ver aquela pessoa que até mês passado estava ostentando as fotos da última viagem ao Caribe estar passando por “um temporada tenebrosa” justamente quando precisa do Doutor amigão.

Nós, por outro lado, lidamos com a pessoa quando ela está em momentos bem diversos desses. Ou ela está gastando muito pra abrir um novo negócio e então está “desprevenida”, ou está precisando alavancar o negócio, mas está “totalmente sem bicho”, e precisa da nossa ajuda. Note que geralmente eles não pensam no design como parte integrante do processo, mas sim como um adendo. O Design virou um puxadinho nos negócios do Brasil.

Médicos já resolveram esse problema, e muito bem. Qualquer dor que você reclame para eles numa festa, e a não ser que exista algum órgão vital caindo no bolo do aniversariante, eles dizem “passa no meu consultório”. Aliás, geralmente, ele têm um consultório. E antes de você sentar na cadeira e dar um abraço amigão no seu amigão, vai passar pela recepcionista, e pagar. Ou passar o cartão do convênio. De uma forma ou de outra, a diferença que existe entre médicos, advogados e designers é bem clara: o pagamento vem ANTES do diagnóstico.

O sobrinho, sempre ele

Em design, eu não creio que precise ir mais fundo nessa discussão. Já estamos carecas de saber disso. Há quem diga que o sobrinho tem uma função social no panorama do mercado. Que ele pega serviços que um designer de respeito jamais se sujeitaria. E que o certo é não disputar mercado com eles, para não rebaixar a sua própria marca à altura deles.

De fato, eu tento não entrar na seara dos micreiros. Afinal, eu raramente tenho grande demanda por criação de ímã de geladeira, calendário com foto de gato e flyer de balada sertaneja. É raro (o que não quer dizer que não aconteça) perder trampo para um desses caras.

Mas até para podemos traçar uma comparação fiel para os dois lados, eu quero deixar de lado a figura do cara que faz arte no Print Master. O cara que tem os estudos baseado em tutorial do Corel 12. Esse cara, seria, na relação com o direito, comparável à tia do cafezinho que assiste muito Celso Russomano, e se acha entendida. Eles incomodam um pouco, mas na hora de encarar um trabalho de respeito, vão pipocar e dar pra trás.

Nas duas profissões, o que realmente causa estrago são os caras formados e estabelecidos, que resolvem fazer leilão do próprio trabalho. Os caras que dão um preço, e quando o cliente levanta meia pestana, dão imediatamente um desconto de 50% mais um copo de suco. São os caras que ganham trabalhos falando mal dos concorrentes. Que, vejam só, eventualmente são sobrinhos do dono do negócio mesmo. E sabem que determinado trabalho não está a altura deles, mas não conseguem ter a humildade de dizer não. De aprender. Não conseguem alcançar o fato de que seu trabalho está no mínimo sendo insuficiente para o que o cliente precisa, mas que, pior ainda, pode estar sendo um fator de temeridade na vida do cliente. Seja esse cliente um representado ou uma marca.

Nesse ponto, os sobrinhos advogados e os sobrinhos designers tem bastante em comum.

Na minha àrea, topei com vários deles. Muitas vezes eles são bem nascidos, e já saem da facu com um escritório todo bem montado, decoração feita por profissionais, equipamentos de primeira linha sobre as mesas. Nunca trabalharam num estúdio ou agência. Nunca foram estagiários, nunca fizeram arte final, nunca levaram bronca de diretor de arte bipolar ou dono de empresa no dia da primeira parcela do décimo terceiro. Apesar disso, eles se acham prontos para assumir um rebranding completo da Coca-Cola, uma semana depois da formatura. Isso eles não fazem, felizmente, porque a Coca não é maluca. Mas assumem a gestão da marca da indústria do amigo do papai sem pestanejar. E se for o caso, fazem de graça, “pra por no portifa”.

A chave da mudança desse paradigma não está em catequisar os sobrinhos. Nem rezar para que a luz da providência divina se abata sobre suas consciências subitamente, levando-os a rituais de sepukku coletivo. Mas reside, sim, na paciência em explicar para seus clientes porquê e em quê você é diferente. Nos riscos que se corre ao deixar seu caso, ou sua marca, nas mãos de quem não tem competência nem para valorizar a si próprio.

Afinal, preço tem de todos os tipos e tamanhos. Seja para advogados, para designers e para a mais antiga das profissões (as meninas de vida difícil me perdoem o linguajar chulo usado no título, mas é que se aplica melhor ao caso), sempre se pode achar alguém que faça mais baratinho. Depende mesmo do que você quer levar pra sua cama. Talvez por isso essa conduta receba comumente o nome de “prostituição da carreira”.

 

8 segredos para pensar criativamente (dica: Roube dos outros)

Bob Gill é uma lenda, que está no meio do Design desde os anos 50. Passou por tudo, viu de tudo, praticamente fundou a Pentagram, e está na ativa até hoje, com uma mente privilegiada e um senso de humor refinado, um olhar para a profissão que poucos tem. Li esse artigo na FastCo Design e fiquei fascinado pela explicação do processo, pela jovialidade das ideias.

Tentei fazer uma entrevista com ele, que me respondeu bem categoricamente: “O que eu tinha pra dizer sobre o processo está no livro. Compre o livro, se sobrar alguma dúvida, eu te dou a entrevista”. Eu respondi que com certeza, comprarei. Mas resolvi traduzir a entrevista para que vocês, assim como eu, possam conhecer um pouco de Bob Gill, e comprar também. 

Espero que gostem. Na sequência, o excerto do livro de Gill.

Nos anos 50, eu, juntamente com todos os outros designers, estávamos preocupados com estética e moda. Design era a mais nova familia tipográfica num layout moderno, paracendo com um Mondrian com muito espaço em branco. Isso era o que me ensinaram na escola de arte.

Eu não me lembro quando eu mudei. Se aconteceu com todos de uma vez, ou gradualmente. Eventualmente, inspirado por designers como Paul Rand, Lou Dorfsman e Helmut Krone, um diretor de arte no Doyle Dane Bernbach, juntamente com o pintor surrealista René Magritte, eu me tornei menos interessado em design por si só, e mais interessado em design que comunica uma opinião.

Isso foi 60 anos atrás. Hoje, é ainda mais incumbência do Designer Gráfico balançar as coisas, surpreender. Hoje, a audiência por Design Gráfico é a mesma audiência que terá visto o último filme de alienígenas e o último video-clipe com efeitos especiais que são de tirar o fôlego. Como um Designer pode competir com essa mágica em, vamos dizer, um anúncio de página inteira colorido, ou, mais improvável ainda, uma coluna em preto e branco para produtos chatos como pasta de dentes ou comida para gatos? Nós não temos a tecnologia, ou o orçamento, ou o tempo para competir com Avatar hoje, ou Deus sabe o que aparecerá amanhã. Se nós quisermos atrair atenção para nosso trabalho, temos que explorar a outra ponta do espectro visual. Nós temos que ir para a realidade. Nós devemos dar uma olhada cuidadosa no mundo real, e de fato, dizer para nossa audiência, “Olhe! Você já tinha notado isso? Estava bem debaixo do seu nariz!”

E aí tem outra coisa sobre a situação atual que Designers tem que reconhecer. Antes dos computadores, a produção de material impresso estava nas mãos de Designers e impressores. A maioria dos clientes tinha apenas uma vaga noção de como era produzido. E eles estava preparados para pagar bem por seus logos, relatórios anuais, e outros papéis de seus negócios.

Mas essa não é a forma agora. Agora, por R$ 99,99, é possível comprar um programa que permite qualquer um com uma estação de trabalho montada produzir muitas das coisas normais do negócio. A mística foi finalmente embora no meio do Design e impressão. Esses programas juntam palavras e imagens em formatos que parecem profissionais. Eles até jogam alguns efeitos-especiais. Para necessidades comerciais de pouca exigência, está ótimo.

Então, se qualquer um que consiga digitar pode fazer boa parte do trabalho anteriormente feito por especialistas bem pagos, o que sobra para os Designers? Eles têm que fazer coisas que um digitador não consegue.  Isso significa que eles têm que ser pensadores, solucionadores de problemas, quer eles gostem ou não. E, infelizmente, pensar não é o primeiro amor de um Designer. Eles adoram escolher cores, movers tipos e formas por aí, desenhar num estilo particular, e impor os últimos truques gráficos em seu próximo trabalho, independente se eles são apropriados ou não. Eles pegam esses truques da Cultura.

A Cultura deu a eles preconcepções sobre o que é excitante, o que é interessante; e a maioria dos Designers gastam seu tempo tentando emular o que deveria ser quente, o que é atual, o que é tendência. Mas apenas pense, se nós queremos fazer algo que seja original, como podemos nos basear naquilo que a Cultura nos diz? A Cultura fala a todos nós as mesmas coisas. Não é o Big Brother que está te olhando, é a Disney, o Shopping Channel, Rupert Murdoch, a Time e outras mega-corporações.

A Cultura que eles infligem em nós através de seus monopólios virtuais de TVs a cabo, CDs, filmes, teatros, livros e revistas, etc, é desenhada para apelar para o menor denominador comum, que por sua vez permite que eles vendam o maior número de tchotchkes.  Claro que o establishment permite apenas o suficiente de cultura mais alta para provar que eles não são filisteus.

Como você pode se retirar dessa avalanche de pão branco, para que você possa ser um pensador original?

Processo

A primeira coisa é limpar sua mente do quanto mais bagagem cultural for possível. Quando você consegue um trabalho, independente do quanto o assunto for familiar, resista a toda tentação de pensar que sabe o suficiente a respeito, e que está pronto para desenhar. Assuma que toda a informação e referências visuais foram supridas pela Máfia da Cultura, nada é original com você. Pesquise o assunto como se você não soubesse nada a respeito. Não procure por inspiração em livros de Design. Não sente em seu computador, esperando por um raio o acertar.

(Um dos trocadilhos visuais de Gill: “Fumar um cachimbo faz você… .parecer mais elegante)

Se o trabalho for para uma lavadora a seco, vá a uma lavadora a seco. E fique lá até você ter algo que você honestamente pense que é interessante a dizer sobre lavagem a seco. Eu não sei exatamente como fazer isso. De qualquer maneira, eu sei que , quanto mais você pesquisar o assunto, mais provavelmente você poderá descobrir algo realmente interessante, ou melhor ainda, algo original, algo que ninguém notou antes. (Incidentalmente, às vezes mesmo que eu não esteja fazendo um trabalho sobre lavagem a seco, eu vou lá de qualquer jeito, só para pegar um vapor das máquinas).

Só quando você estiver satisfeito com a afirmação, o processo de Design pode começar. Tente esquecer como um bom design supostamente deveria ser. Ouça a afirmação. Ela vai dizer a você como deveria parecer. Ela vai desenhar a si mesma. Bem, quase.

O logo da AGM, que Gill criou.

O problema é o problema.

A melhor forma de ter uma solução interessante é começar com um problema interessante. Infelizmente, quase todos os problemas que os Designers costumam ter serão chatos. Portanto, a primeira coisa a se fazer é redefinir o problema, para que ele seja interessante.

Por exemplo: Problema original: Logo para AGM, uma companhia que faz modelos industriais muito pequenos. O cliente queria que o logo fosse grande o suficiente para ser visto em seu prédio e em suas vans de entrega.

Problema redefinido: Como o logo da AGM pode ser grande o suficiente para ser visto na lateral de seu prédio e, ao mesmo tempo, comunicar que a companhia faz coisas muito pequenas?

Roubar é bom

A pessoas vêm gerando imagens a milhares de anos. Imagens como Raios X, bandeiras, fotos da lua da Nasa, máscaras de teatro, sinalização pública, a Monsa Lisa, daguerreótipos da Guerra Civil, grafite, gravuras, desenhos de engenharia, etc. Estas imagens, dependendo de como são usadas e/ ou modificadas, podem transcender seus propósitos originais e estreitos. Elas podem representar um periodo cultural ou uma ideia muito específica. E se um designer pode usá-las de modos nunca antes concebidas por seus criadores, eu acho que é legítimo liberá-las.

Não existe essa coisa de clichê ruim.

Caveira e ossos dizem pirata. Estrela e listras dizem América. Uma lupa diz detetive. Um coração diz eu te amo. A boa notícia é que esses clichês comunicam instantâneamente. A má notícia é que essas imagens comuns foram usadas com tanta frequência que elas não são mais visualmente interessantes. Porém, se elas forem usadas de maneiras novas, elas podem ser muito eficazes.

Palavras interessantes.

Veja um slogan como: Nós curamos câncer por um nickel. Não é necessário fazer as palavras parecerem interessantes. Elas são interessantes. Se você tentar fazer uma afirmação parecer interessante, o visual compete com as palavras.

Palavras chatas.

A maioria dos Designers não são roteiristas muito bons. A maioria dos roteiristas também não são. Então, se você se encontrar precisando de desenhar algo com palavras chatas, não tente fazê-las interessantes. Deixe as imagens fazerem o trabalho pesado.

Palavras em figuras

Para que se importar em ilustrar uma palavra… se a palavra por si só pode ser a ilustração, como no caso desse logo para uma comédia.

Todo mundo sabe que menos é mais. Mas as vezes, mais pode ser mais também.

Me pediram para fazer um logo para a Nast & Zalben Productions, um serviço de planejamento de eventos. Quando eles me contaram a respeito das várias coisas que eles tinham produzido nos últimos 12 meses, eu pensei que seria interessante e novo incluir todas elas no logo. Eu até adicionei algumas que eles não fizeram, só pela diversão.

Esse é um excerto da monografia Bob Gill, so far (Outubro de 2011). Foi traduzido do site http://www.fastcodesign.com/

Você pode comprar o livro aqui

BOB GILL

Bob Gill é co-fundador da consultoria em Design F/F/G, com Alan Fletcher e Colin Forbes. Mais tarde, foi renomeada Pentagram. Ele é autor de mais de uma dúzia de livros.

 

10 anos com Francisco

Há 10 anos você veio ao mundo.

Naquela manhã inesperadamente fria de setembro de 2001, quatro dias depois do mundo ter repentinamente se tornado um lugar pior, de mais medo e incerteza, você veio para mudar completamente minha vida.

Chegou forte, bonito de uma forma que eu nunca entendi por completo, com pulmões capazes de acordar até o mais dedicado dos dorminhocos e com um carisma que podia derrubar até o mais duro dos seres.

De uma hora pra outra, eu, que era designer, marido, irmão, filho, deixei todas esses títulos pra me tornar pai em primeiro lugar, o resto todo brigando para ver quem controlava o pequeno pedaço da minha alma que você não ocupava.

De lá pra cá venho assistindo a você crescer, se tornando um bebê, criança, menino, e agora um rapazinho que já tem uma idade de dois dígitos. Um década ao seu lado, Francisco….

Não entendo mais minha vida sem você. Não sei o é que não te ver todos os dias. Não sei dizer se minha vida antes de você era melhor ou pior. Eu nem lembro dela.

Hoje é dia de presentes, de festinhas, de alegria. É dia também de eu reforçar tudo aquilo que quero para você.

Quero que você continue com o coração que tem hoje. Um coração que aceita a todos, não julga a ninguém, que está sempre aceso.

Que você nunca se esqueça do poder que seu sorriso tem. Que ele lhe abrirá muito mais portas em sua vida do que seu pranto, sua ira.

Que você saiba que os dias de angústia virão. Mas que eles passam, como tudo passa. Saber disso é o primeiro passo para não dar tanta importância a eles.

Saiba que muita coisa pode lhe ser tirada na vida. Muitas perdas lhe aguardam, como aguardam cada ser deste planeta. Mas seu espírito é tão maior e tão mais iluminado que tudo isso, que você sempre poderá recuperar tudo.

Escute os mais velhos. Aprenda com as coisas que eles passaram. Mas tudo que você precisa para ter uma vida plena você já carrega consigo nesse momento. É só procurar quando precisar.

Colecione amigos, mais que qualquer outra coisa. Serão eles que estarão lá para você quando eu não mais estiver. Ninguém é uma ilha e todos precisam de todos. Não permita que nenhum tipo de orgulho o impeça de pedir ajuda quando necessário, e de estender a mão quando lhe for pedido.

Acima de tudo, conte com sua família. Estaremos aqui, sempre. Por mais longe que você vá, saiba sempre que o caminho para casa é sempre próximo, sempre aberto, sempre seu. Eu e sua mãe estaremos com nossos radares constantemente atrás dos sinais que você mandar. Chegará o dia em que nossas opiniões terão menos peso que as suas. É normal, só nunca se esqueça que pode pedí-las a qualquer momento da sua vida.

Hoje eu te assisto se tornando, mais rapidamente do que eu gostaria, é verdade, no homem que você um dia vai ser. E em meio as suas brincadeiras, eu já enxergo lampejos do ser humano que o mundo ganhará. E acho o mundo um pouco sortudo por ter um filho como você. Sortudo, como eu me sinto, de ser seu pai.

As pessoas podem achar estranho esse post tão pessoal num blog tão profissional. Mas não há separação. Você é, e sempre foi, minha força motriz, minha maior inspiração. O maior e mais importante motivo para tentar vencer, e ser correto, justo e ético.

Você passou do bebê que carregávamos para baixo e para cima dentro dos carrinhos, cadeirinhas e berços para um meninão curioso com tudo que acontece pelo mundo, que questiona engrenagens de um universo que eu mesmo não sou mais capaz de ver. Meu pequeno companheiro, minha companhia de todas as horas.

Meu amigo. Meu amor.

 

Feliz aniversário, Francisco.

Papai te ama, muito.

 

Manifesto incompleto, de Bruce Mau – parte 1

Tive a honra de conhecer Bruce Mau pessoalmente. Em 2008, a empresa que eu trabalhava o trouxe ao Brasil, e após sua (incrível) palestra sobre seu livro Massive Change (não perca), eu e algumas pessoas da empresa tivemos um almoço com ele.

Bruce é muito simpático, verdadeiramente interessado, e dono de uma lógica que sempre pende ao simples, direto. Foi uma conversa interessantíssima. Ao fazer o material de divulgação daquele evento, descobri seu Manifesto Incompleto, que passo a traduzir aos poucos aqui. São chamadas à ação que qualquer designer, ou mais ainda, qualquer pessoa que lide com assuntos criativos deveria ter impresso para consultar a qualquer momento.

Aí vão os primeiros 10 ítens, se vocês gostarem, vou mandando outros.

1. Permita que os eventos mudem você

Você precisa querer crescer. Crescimento é diferente de algp que acontece a você. Você o produz. Você o vive. Os pré-requisitos para o crescimento: a abertura para experienciar eventos e a vontade de ser mudado por eles.

2. Esqueça o “bom”.

“Bom” é uma quantidade conhecida. “Bom” é o que todos nós concordamos. Crescimento é uma exploração dos recessos apagados que podem ou não comprometer sua pesquisa. Enquanto você se apegar ao “bom”, você nunca terá crescimento real.

3. Processo é mais importante que resultado

Quando o resultado guia o processo, nós somente iremos para onde já estivemos. Se o processo guia o resultado, nós podemos não saber para onde estamos indo, mas saberemos que queremos estar lá.
4. Ame seus experimentos (como você amaria uma criança feia).

Prazer é a engrenagem do crescimento. Explore a liberdade de moldar seu trabalhos como lindos experimentos, iterações, tentativas, provas e erros. Olhe para a longa vista e permita a si mesmo a diversão da falha todos os dias.

5. Vá fundo.

O quão mais profundo você for, mais certamente você descobrirá algo de valor.
6. Capture acidentes.

A resposta errada é a resposta certa para uma diferente questão. Colecione respostas erradas como parte do processo. Faça perguntas diferentes.

7. Estude

Um estúdio é um lugar de estudo. Use a necessidade de produção como uma desculpa para estudar.

8. Fique a deriva

Permita a si mesmo vagar sem rumo. Explore adjascências. Não faça julgamentos. Adie críticas.

9. Comece por qualquer lugar.

John Cage nos diz que não saber por onde começar é uma causa comum de paralisia. Seu conselho: comece por qualquer lugar.

10. Todo mundo é um líder.

Crescimento acontece. Quando acontecer, permita que ele venha a tona. Aprenda a seguir quando fizer sentido. Deixe qualquer um liderar.

Anúncios antigos de Natal

Eu adoro anúncios das décadas de 40/50.

O uso da ilustração é tão rico, tão bem-feito. E o conteúdo muitas vezes é tão canalha, que só mesmo um mundo mais simplista podia aceitar aquelas ideias.

E ao mesmo tempo, sei lá porque, eles trazem uma certa nostalgia. Uma aura de mágica, de inocência. Em anúncios do Natal é mais forte ainda. Bom, talvez nem tanto no anúncio de arma de fogo e do Papai Noel fumando…

Via Word of Ads.

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