Chris Do é o fundador e CEO da agência Blind, especializada em estratégia de marca, e consultoria em design. Fundada em 1995, Blind é pioneira em motion design. Hoje, Blind continua em sua tradição de excelência in the tradition of excellence, trazendo um time de classe mundial de estrategistas, designers, cineastas, escritores e animadores para criar conteúdos memoráveis.

Chris também é fundador do Canal The Futur, onde produz vídeos que ensinam e provocam designers a pensar de maneira mais profissional e conseguir melhores resultados e respeito no mercado. Numa entrevista muito elucidativa, Chris fala sobre carreira, mercado, crise e design.

 

Em seus vídeos, você sempre aponta que design é um negócio, e deve ser conduzido de acordo com isso. Você acha que ainda há muita confusão nesse assunto? Mais da parte dos clientes ou dos designers?

Eu penso que todos os criativos, seja um freelancer ou um dono de negócio, precisam decidir se eles querem perseguir arte/design como um hobby ou uma prática profissional. O que eu quero dizer com isso é: seja pago em uma quantidade que seja sustentável para manter seu estilo de vida a longo prazo.

Se esse é o caso, eles precisam aprender algumas habilidades chave: vendas, marketing, relações com clientes, negociação, licitação, estimativas, fechamento, comunicação, serviço de atendimento ao cliente etc…

Baseado nas perguntas que chegam a mim, eu acho que só uma pequena porcentagem de pessoas realmente entende o que está envolvido em tocar um negócio. É por isso que nós continuamos a produzir conteúdo para ajudar a educar em alguns desses princípios chave.

Por volta de 2008/2010, o mundo passou por uma grave crise. O Brasil está passando por uma crise brutal nesse momento. Como você e sua companhia conseguiram se manter no topo?

O derretimento da economia global nos atingiu bem forte também. Nós perdemos dinheiro em 2009 pela primeira vez na história da empresa. Foi o momento de nós aprendermos de verdade sobre nosso negócio. Então eu tive que me aprofundar em nossas finanças e aumentar meu QI de negócios. Antes disso, o dinheiro estava entrando, e nos permitia algumas práticas empresariais bem desleixadas. No ano seguinte, nós estávamos trabalhando no azul de novo. Por sorte, eu já estava trabalhando com um coach de negócios há anos, e estava preparado para algo assim.

Eu defino esse período como meu “estágio de crescimento”, e de maturidade como proprietário e operador. Então, por volta de 2012, nós notamos uma tendência externa da nossa produção comercial. Nós notamos uma mudança nas oportunidades vindas de agências de publicidade. Então, o que antes era pleno e bem orçado, começou a desacelerar.

Nós percebemos isso, e começamos a buscar por outros mercados que não fossem o dos comerciais de TV. Depois de algumas tentativas falhas de produzir vídeos corporativos, vídeos explicativos e web design, nós aprendemos como fazer UX da forma certa. Isso nos levou ao caminho da estratégia de marca e nós começamos a trabalhar com os clientes diretamente. Isso marcou uma mudança radical do tipo de trabalho que nós estávamos acostumados a fazer, então foi necessário ter modelos de pensamento e de trabalho inteiramente novos, incluindo uma nova equipe que era mais capaz de enfrentar os desafios dos trabalhos de design.

Estar no topo, como você colocou, requer ter constantemente na mente o que é seu negócio e sua reinvenção. Ou você rompe consigo próprio, ou será rompido.

Que conselho você dá para designers e clientes à respeito da importância do design em um momento de crise?

Agora, mais do que nunca, design se tornou a característica matadora ou vantagem competitiva. Não importa o quão vertical você está, design separa o bom do ruim. Se empresas de design querem ser relevantes no mercado século 21, elas precisam aprender as novas regras/ aplicações do design. Eles precisam de pensar além dos spots de TV de 30 segundos, ou design de identidade. Eles precisam de usar design para resolver problemas de negócios, marketing e metas de conversão. Eles precisam de desenhar uma melhor experiência de usuário através de toda jornada do usuário.

Em meu país, nós lutamos contra um monte de gente que não tem nenhum conhecimento específico trabalhando como designers, cobrando valores muito baixos e bagunçando o mercado todo. Vocês têm esse tipo de problema no mercado americano? Como lidar com eles?

O mercado é global. Não é local. É fácil para uma companhia buscar talento e criatividade em qualquer mercado. O problema com criativos que cobram muito pouco não é específico do Brasil. E impacta a todos. Mas, ao invés de nadar contra a corrente, designers (aqueles que são educados) devem estreitar seus negógios com perspicácia, aprender como solucionar problemas maiores e aí, empregar esses trabalhadores que cobram pouco.

Eu frequentemente falo sobre “preencher lacunas”. O cliente tem uma necessidade. Ele precisa de criativos para solucionar seus problemas. Designers (por todo o planeta) tem uma necessidade. A necessidade deles é pagar suas contas e colocar comida na mesa. O problema é que (em muitos casos), o cliente e o designer não sabem como contatar um ao outro ou mesmo como trabalhar um com o outro. Existe oportunidade aqui para uma agência de design em escala industrial.

Conecte a necessidade do cliente com a necessidade do designer. Solucione esse problema, e gerencie o processo. Existe uma tremenda oportunidade aqui.

No Brasil, nós vemos muitos estudantes abrindo seus estúdios logo após terminar a faculdade. Você acha que isso é um movimento inteligente, ou ganhar experiência no mercado antes faz mais sentido?

Eu não quero ser hipócrita (porque eu comecei minha empresa logo após a faculdade), mas eu não acho que seja uma boa ideia fazer isso. Eu sofri por muitos anos pela minha própria ignorância. Eu perdi oportunidades e afastei clientes porque eu não sabia fazer melhor.

Eu sugiro trabalhar para alguém para crescer criativamente e para aprender o negócio do design antes de se aventurar em sua própria. Parece que é um caminho vagaroso, mas na verdade é um atalho.

Como é sua rotina na Blind? Você ainda consegue ficar na criação, ou o trabalho como CEO toma muito do seu tempo?

Eu toco e gerencio duas companhias. Blind é uma companhia de serviços. Ela praticamente funciona sozinha, com os times criativos, incluindo dois diretores criativos e um diretor digital. Eu fico mais focado nas sessões de estratégia e no processo de inclusão dos clientes.

A outra companhia é a The Futur, que é uma startup de conteúdo/mídia. É nesta aonde eu passo a maior parte do tempo. Eu estou escrevendo, produzindo, editando, conversando com convidados e usuários.

Mas, para responder sua pergunta, eu raramente coloco as minhas mãos no trabalho de design mesmo.

Você tem algum trabalho de sonho, que ainda não realizou? O que seria?

Não. Eu estou fazendo aquilo que eu deveria fazer. Este é o último trabalho que eu terei na vida. Ensinar, compartilhar e ajudar outros a crescer enquanto construo igualdade no The Futur, vai ser o ápice da minha vida de trabalho. Não existe nada que eu prefira estar fazendo.

Você conhece algum designer ou ilustrador brasileiro? Quais são suas impressões?

Sim. Nós trabalhamos com vários brasileiros como estagiários, designers e diretores de fotografia. Brasileiros vêm de uma cultura muito diversa e criativa. O trabalho que eles produzem tende a ser muito lírico, brilhante e vibrante. Alguns dos melhores estúdios de motion design estão no Brasil.

Seu estúdio, Blind, faz alguns dos mais incríveis trabalhos em motion design que eu já vi. Como você está vendo a chegada da realidade virtual? O que você pensa sobre esse mercado?

Eu estou esperando na lateral quando se trata de VR. Existe muita atenção sobre isso nesse momento, já que é a nova coisa a se perseguir. Eu pessoalmente não experimentei VR como um grande veículo de storytelling. Meus interesses em VR estão no espaço da educação. Eu acho que isso pode ser o killer app que a indústria está esperando.

Você provavelmente lida com grandes empresas no seu trabalho. Como você se sente trabalhando com clientes pequenos? Te dá mais liberdade? E você acha que o design pode causar um impacto maior em grandes ou pequenas organizações?

Eu realmente não presto muita atenção ao tamanho do cliente. Eu estou mais focado no que eu posso ajudar nossos clientes a alcançar suas metas e auxiliá-los a se posicionar acima de seus competidores. O tamanho do cliente não é um bom indicador sobre a forma que eles são para se trabalhar. É mais sobre sua tenacidade, liderança e seu nível de gosto. Eles gostam do melhor trabalho? Eles gostam de ficar na segurança? Eles são uma marca desafiadora ou líder de mercado? O quanto eles são agressivos em sua ambição? Essas são as coisas que importam.

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