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Continuando a série em que estamos esmiuçando as grandes ameaças que rondam a vida do Designer, hoje vamos falar de um animal mitológico que é, como um grande paradoxo, o grande objeto de desejo e uma grande ameaça: o Cliente.

Nome científico: Clientus Pagadorius

Poderes: O Cliente é um monstro mitológico tímido. Em sua tribo, o jovem designer chega num momento da vida em que precisará passar por seu ritual de iniciação. Em várias comunidades de Designers, é de senso comum que ninguém se transforma em Designer Pleno sem dominar a arte de se embrenhar na selva, e voltar com um Cliente abatido nos ombros.

Uma vez caçado, porém, o Cliente se transmuta num animal muito mais aterrorizante. Crescem-lhe 400 olhos, capazes de encontrar qualquer erro em qualquer layout, sempre depois de impresso, mas nenhum deles capaz de enxergar um logo em uma peça com menos de 10 centímetros. Apesar de tantos olhos, todos são fracos em cores, e ele passa a exigir peças cada vez mais coloridas, com mais variedade de fontes e letras maiores.

Seus bolsos, que antes eram monumentos vistosos, que exalavam feromônios que atraíam Designers à léguas de distância, agora murcham e não oferecem nenhuma benesse. Seu senso de tempo fica completamente biruta, e ele passa a achar que horas são dias ou semanas, culminando com a fase onde ele pede layouts para o dia anterior, como se isso fosse efetivamente possível.

Cliente e Designer frequentemente acabam desenvolvendo uma relação parasitária, onde o primeiro suga completamente a força vital do segundo, transformando-o em um trapo humano, sem tempo, sem dinheiro e nem feriado. Em troca, o Cliente provem o designer com migalhas e restos, que garantem mal e porcamente sua subsistência.

Origem: O Cliente é parte vital do mundo, e tem hábitos bastante promíscuos, uma vez que se relaciona com todos os seres, inclusive entre si. Escondem-se em vários lugares, e são frequentemente encontrados atrás de balcões de pequenos negócios e no topo das grandes montanhas de organogramas de empresas grandes. Os Clientes não andam em manadas. São solitários, costumam ser seres muito orgulhosos, e tem hábito de mandar. Seu rosnado primordial, traduzido de sua língua muitas vezes ininteligível significa algo como: “Tô pagando”.

A Verdade sobre o Cliente

É fácil e cômodo para o designer jogar a culpa pelos problemas da profissão sobre os ombros do cliente. Afinal de contas, foi ELE quem pediu as malditas alterações que tornaram a peça, que era tão legal, na porcaria que agora está. Foi ELE quem pediu que o fundo do panfleto fosse roxo ao invés do lindo cinza que o designer tinha escolhido. ELE exigiu que trocasse a Helvética por Comic-Sans. ELE que pechinchou tanto o valor da identidade que no fim não dava para comprar um café no Starbucks com o budget.

Tudo isso poderia até ser verdade. Se isso fosse uma relação de escravidão, e não um relacionamento. Se o Designer não tivesse argumentos para contrapor os do cliente. E se, em última instância, o Designer não possuísse a grande arma sagrada contra tudo isso: o poder do NÃO.

Antes de desejar uma vida de design sem cliente, é preciso se questionar em alguns quesitos:

– Você explicou, didaticamente, todo o processo de criação para o Cliente, ANTES deste processo começar?

– Você colocou este processo, descrito em detalhes, numa proposta ou contrato?

– Você tem argumentos fortes o suficiente para contrapor uma sentença tão simples quanto “mas eu sempre gostei de roxo”?

– Você está querendo satisfazer MESMO o seu cliente, ou está querendo impressionar outros designers fazendo coisas iradas no seu portfólio?

– Você realmente sabe quanto seu trabalho custa? E quanto ele vale?

– Você já parou para pensar que você TAMBÉM é um cliente?

– Você acha que existe Design sem Cliente?

 

Como combater a ameaça?

Se você respondeu SIM à maioria destas questões, esse texto provavelmente não te atinge muito. Sim, muitas vezes os cliente nos tiram do sério. Mas isso é inerente á condição de seres humanos, que todos somos.

O que importa nesse relacionamento é que ambos sintam-se recompensados com ele. O Designer precisa ter certeza de que foi justamente ressarcido pelo seu trabalho. O Cliente, por sua vez,  precisa sentir que aquilo que pagou teve um bom retorno para seus fins. Ele precisa ter certeza de que foi ouvido. Que as necessidades da sua empresa foram levadas em consideração mais do que o último site de tendência para o design no ano que vem. Mas antes disso, é preciso que este contato (Designer X Cliente) realmente se transforme em RELACIONAMENTO. Somente através dele você vai entender as necessidades da marca do seu cliente. Só conhecendo que tipo de empresário ele é vai ser possível saber que tipo de marca ele tem, o que espera dela, e qual a solução você vai apresentar.

Conselho de Designer pra Designer

Se você acha que é um excelente Designer, o que atrapalha são os clientes, você provavelmente precisa repensar essa sentença. Uma coisa não existe sem a outra. Se seu design não atende, não satisfaz e não dá resultado ao seu cliente, ele pode ser no máximo (e eu estou sendo muito bonzinho contigo) arte. Coloque-o na parede ou leve para algum museu. Ah, mas esqueci. Nesse caso, o museu vai ser seu cliente.

 

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