Em mais um capítulo deste manual de sobrevivência do designer, hoje vamos nos concentrar num dos mais temidos comedores de carcaças do mundo mágico do Design. O Patrão.

Nome científico: Patronius Sempre Certus

Poderes: O Patrão é mais um daqueles seres místicos que o designer passa metade da vida procurando, e a outra metade reclamando que achou. Reza a lenda que os Patrões navegam pelas terras do Grande Mercado em suas caravelas fantasmagóricas. Em cada porto que param, compram uma leva de designers, e largam para trás os corpos quase mortos dos designers velhos. Geralmente atraem seus escravos com promessas de um futuro glorioso, repleto de prêmios, ambiente descontraído e a possibilidade de trabalhar de bermuda, para em seguida aprisioná-los em seus calabouços fétidos e muito bem decorados.

Uma vez dentro da embarcação, os pobres designers são expostos às mais degradantes condições de trabalho. Ainda em seus tempos de juventude, o Patrão comprou de um mercador em uma distante paragem, uma ampulheta mágica, que atrasa o tempo sempre em 24 horas. Isso o dá o poder de aceitar trabalhos cuja entrega é para ontem. O que força os nossos herois a varar noites e noites layoutando sem misericórdia, quase sempre à troca de pizza, enquanto levam chibatadas no lombo.

Em uma demonstração da grande injustiça executada pelos patrões, eles costumam a convidar a bordo de suas naus outros tipos de cidadão, como profissionais de marketing, administradores e gerentes, mas para esses, oferece condições diferenciadas de tratamento. A estes tipos, ele abre sua cabine, deixa livre o convés, e ainda os chama para participar dos planos das batalhas.

Origem: Existem dois tipos de Patrão. Aquele que, na aurora de sua juventude, era ele próprio um Designer, e aquele que já nasceu dentro do navio, que herdou do seu pai, que já era um grande mercador de designers antes dele. O primeiro perpetua o comportamento vil por vingança, para passar à frente todo o mal que sofreu. E o segundo age dessa forma porque não conhece outra forma. Há relatos de patrões legais, mas sem registro formal, porque é sempre “no navio que um amigo meu trampa”.

A Verdade sobre Os Patrões

Reclamar é um vício. Se colocar na pele dos outros é muito, muito mais difícil.

Ser patrão no Brasil é um desafio. A simples noção da burocracia que envolve a contratação e manutenção de funcionários em qualquer tipo de empresa é o suficiente para afastar dos planos de qualquer empresário essa vontade. O que é uma pena. É no trabalho, junto à chefes e diretores, que se aprende a profissão de verdade. No contato com diferentes áreas e clientes da empresa é que se aprende a atender, a servir. Servir ao patrão, ao cliente e à sua profissão.

É verdade que o Designer muitas vezes está entre os menores salários, e muitas vezes entre os que mais braçalmente trabalha. É verdade que outras áreas dentro de um estúdio ou agência acabam ganhando mais, e participando mais das grandes decisões.

Mas o outro lado dessa moeda é algo que nossa classe não está muito acostumada a abraçar: a responsabilidade. Quando as coisas dão certo, o designer quer os louros para si. Quando dão errado, é culpa do planejamento, do marketing, do patrão. O designer estava quietinho, no seu canto, com fone de ouvido, de óculos escuro e nem estava prestando atenção na hora. Só fez o que o briefing mandava.

Se os designers quiserem mudar esta balança a seu favor, vão ter que fazer coisas que detestam: sair da sombra. Colocar a cara a tapa. Falar numa reunião, dar opiniões, ASSUMIR posições. Ganhar o respeito quando estiver certo, e aguentar a porrada quando estiver errado. Falar, aliás, é uma prerrogativa essencial se o designer quer mais espaço. Falar corretamente, claramente, com português correto, com uma apresentação pessoal que passe segurança para quem está contratando os serviços da empresa. O designer vai ter que se transformar em alguém que seja digno de ser exibido numa reunião com os diretores da empresa do cliente.

Para que isso possa acontecer, ele vai precisar tirar a cabeça do buraco, e olhar o mundo que se projeta para além dos kernings, pantones e grids. Vai ter que saber o que acontece na política, na economia, no cotidiano. Vai precisar fazer um dever de casa e descobrir que diabos passa na cabeça de um empresário que fabrica corante artificial para gêneros alimentícios. Estruturas plásticas. Compostos químicos para empresas odontológicas. Porque muitas vezes esses são os clientes que um patrão atende e vê potencial. E adivinhe só, por mais áridos que esses assuntos sejam, eles são as meninas dos olhos das pessoas que os produzem. Que querem ver brilho nos olhos de quem os vai atender. Em outras palavras, você vai precisar de praticar empatia com os clientes da empresa onde você trabalha.

Ao se segregar em grupos de pessoas iguais, os designers se afastam dos motores da sociedade. Ao acharem “boring” todo esse povo que fala de assuntos tão chatos, criam muros invisíveis que separam os dois lados que, no fundo, dependem um do outro. Sejamos sinceros, muitos designers sentem até alívio ao não serem chamados para reuniões chatas, para as quais eles terão que sair dos seus cubículos decorados com toy-arts para locais longínquos e inóspitos como Guarulhos ou Diadema, nas fábricas e sedes de escritórios dos clientes.

Como pedir que o patrão veja no designer uma peça vital, se ele se porta como uma que tem reposição fácil no mercado?

No cantinho, quietinhos e cuidando de suas vidas, os designers não irão muito longe. O caminho pro reconhecimento que tanto se quer passa necessariamente por maior exposição. Um animal raro em extinção pode ser uma coisa linda nas florestas de bornéu, mas o que faria falta mesmo na humanidade se repente sumisse são as boas e velhas vacas. Para ser valorizado, o designer precisa de ser visto, para ser entendido precisa ser escrutinado. Para ser valorizado, precisa se valorizar.

Se conseguir alcançar esses objetivos, não haverá patrão no mundo que não queira ter um designer bem pago na equipe.

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