Girl drawing back to school

Dois avisos ao início deste artigo.

Primeiro: logo que comecei a escrever essa série, elenquei uma série de inimigos, e entre eles coloquei a Falta de Regulamentação. Estou suprimindo este item. O motivo é simples. Nesse meio tempo, a tão falada regulamentação, assunto que está na mesa desde que eu me entendo por gente, enfim parece que está saindo do papel. Se escrevesse um artigo sobre ela agora, seria superficial, e fadado ao envelhecimento precoce quase instantaneamente. Além disso, confesso que não li a fundo os termos que estão sendo aprovados. Portanto, prefiro esperar.

Segundo: toda a série foi escrita em tom de fábula. Neste último artigo, deixo esse formato de lado, pois creio que, de todos os chamados “inimigos”, este é o mais grave e importante. Por isso, prefiro um approach direto. Vamos a ele.

As diferenças nos resultados da nossa profissão em relação à várias outras sempre nos leva a tecer comparações. Nada mais comum em certa altura da vida do que ver jovens profissionais de outras áreas, que, poucos anos depois da saída da faculdade, alcançam postos de trabalho interessantes e salários notáveis, enquanto que o designer, depois dos mesmos anos de experiência, só teve correções monetárias ou trocou meia dúzia de vezes de empresa, apenas para ficar no mesmo lugar. Não parece justo.

Mas para entender os resultados, a gente precisa ir nos inícios.

 

A estrutura que leva administradores de empresa, engenheiros, advogados e médicos ao trabalho começa na faculdade. É ali que os profissionais começam a passar para os alunos as regras do mercado. A conduta, o dia a dia, o caminho a galgar, as posições e as experiências. Eles fazem isso por dois motivos. Primeiro porque são educadores. Segundo, para proteger um mercado que eles mesmos fazem parte.

Por conta dessa realidade, as faculdades mais difíceis são mais valorizadas. Professores “carrascos” são mais respeitados. Conseguir passar com alguns deles é um trabalho árduo. Com boas notas, uma raridade.

Os professores de design que me perdoem, pois com certeza existem exceções. Mas não é isso que vejo nas faculdades da nossa área. Sinto uma preocupação muito maior e meio desproporcional em criar cursos lúdicos, criativos, interessantes e ambientes divertidos do que o ensino das chatices do design. Do dia a dia, do trabalho com clientes difíceis, de fluxogramas, reuniões de briefing, mudanças de última hora, decisões criativas contrárias ao que você imaginava.

Toda a parte burocrática. Engenheiros não precisam aprender as bases de história da arte, mas designers deveriam sim, aprender noções bem mais que básicas sobre contabilidade, legislação, rotina de escritório, estratégia, marketing e outras coisas “boring”. Ou seja, a faculdade deveria acender o empreendedor dentro de cada aluno. Preparar, triar, trazer para o mercado alguém que valoriza a si próprio e à sua profissão.

O que se vê de disparidade também se reflete nos primeiros anos de trabalho dos profissionais. Enquanto um administrador de empresas ou engenheiro vai atrás de um programa de Trainee nas maiores empresas, e o médico busca sua residência no melhor hospital possível, o designer acaba como estagiário que faz trabalho de arte-finalista em algum estúdio, e não sabe quais serão seus passos dali para frente.

O organograma que um designer recém formado deve galgar, ainda que fosse levado a cabo, é curto e não quer dizer grande coisa. Se formos analisar, teríamos o estagiário, que levaria ao assistente de arte,  e então designer júnior, pleno e senior, com uma carreira de diretor de arte que normalmente só faz sentido real em publicidade. Mas na prática, tem quem vá de uma a outra sem passar pelo meio e tem muitos e muitos que recebem como assistente de arte sem assistir à ninguém, muitas vezes sendo o único profissional de design numa empresa.

A carreira do diretor de arte então, só tem de bonito o nome, pois quando as diretorias da empresa se reúnem, dificilmente incluem o coitado. E ele, que é acostumado a arroubos de criatividade e porralouquice, acha que está fazendo um bom negócio em não participar dessas reuniões tão chatas. Na verdade, está criando uma cultura onde a opinião do designer vale pouco ou nada, e que decisões são tomadas sem a sua presença.

Outros saem da faculdade, e impulsionados pelo dinheiro do papai, montam seu próprio estúdio. Existem até exemplos de estúdios que deram certo dessa forma, mas a grande maioria não sabe nem amarrar o sapato direito e já querem se sentar numa mesa de reunião com o diretor de uma empresa. Para oferecer qualquer tipo de ajuda, um designer deve ter janela de mercado, aprender a ler o caderno de economia com a mesma avidez que devora a ilustrada, aprender a falar sobre os controles internos de empresas com o mesmo interesse do que o último festival de rock. E o primeiro contato que o designer deveria ter com esse mundo deveria estar na sua escola.

Na minha visão, a faculdade deve ajudar a moldar o profissional que vai moldar o mercado. É o momento certo de colocar na cabeça do jovem que ele precisa começar certo. Mais do que saber fazer kerning de olho fechado ou grids perfeitos usando palito de picolé, o aluno deve sair de sua escola com a medida o mais certa possível do que fazer para ajudar a sua classe, e principalmente, o que não fazer.

 

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