Quando iniciei a discussão sobre os rumos da profissão aqui no blog, com o post “Escolhi uma Profissão de Merda. E agora?“, jamais imaginei que ele me levaria a tantos insights. Depois de mais de um ano, o post continua sendo muito acessado, e parece que atua de alguma maneira parecida com ondas de audiência. Quando eu acho que ele está perdendo interesse, uma nova onda de designers passa a acessá-lo, e novos comentários chegam até a mim.

Isso dá, por um lado, alegria, por ver que de alguma forma, dei voz a pessoas que estavam com isso entalado na garganta. E por outro, tristeza por ver a situação generalizada, complicada e caótica da profissão no Brasil (e mundo) afora.

Com o tempo, fui notando padrões de comportamento nos comentários. As reclamações são muito similares, revolvendo sempre em torno de poucos temas. Como o blog sempre quis ser um espaço reflexivo, mas acima de tudo, propositivo, decidi dar meu pitaco nesses temas, um a um.

Lembrando que, como sempre, é minha opinião que está aqui. Sinta-se totalmente livre para discordar de mim.

De acordo com o que chega a mim, os profissionais culpam a atual situação do mercado aos seguintes fatores (sem ordem específica): Os Sobrinhos, O Mercado, O Cliente, O Patrão, A Falta de Regulamentação. Eu vou adicionar um outro por minha conta,  que pouquíssimos tocaram: A Formação.

Vamos começar por aquele que é o campeão absoluto de reclamações:

O Sobrinho:

robin_sobrinho

Nome científico: Micreirus Ordinalis

Poderes: Seus dons telepáticos fazem com que todo dono de empresa pense que ele é filho de sua irmã necessitada, e faz com que ele passe para o facínora todos os trabalhos de design de sua empresa. O Sobrinho, então rouba descaradamente todos os jobs do nosso heroi, o Designer, cobrando valores que vão de R$ 30,00 até um suco e um dog.

Origem: O jovem Austregézilo de Printmaster andava de mau com a vida, sem um tostão no bolso. Foi então que, numa visita a uma banca de jornal, sofreu um ferimento no braço ao ser cortado por um CD Pirata Radioativo do Corel (atenção xiitas, o Corel é só pra ficar engraçado, eu sei que é um bom software e usei boa parte da minha vida. Mas convenhamos, ele é o preferido dos sobrinhos), que lhe conferiu poderes mágicos e inacreditáveis.

De repente ele podia controlar todas as cores do arco-iris em seu computador. Podia produzir degradês de 1o24 cores. Todas as fontes do DaFont se ajoelhavam perante sua magnificência, e ele as usava sem clemência. Todas no mesmo layout. Se tornou o Senhor de todos os Cliparts, o Soberano da Extrusão em títulos. O Shogun do Harlem do Lens Flare.

Seus poderes telepáticos convenciam todos os donos de açougue, baladas e cabeleireiros a aceitarem seus pedidos de trabalho. Austregézilo virou uma figura lendária do submundo do design, e hoje vive em sua Micro-Caverna, comandando a todos diante de seu Micro-Computador que ele está pagando em 24x nas Casas Bahia, e ainda ganhou um DVD Player inteiramente grátis, onde exibe as edições que faz de festas de casamento que filma com sua câmera 2 megapixels.

A verdade sobre O Sobrinho:

O Sobrinho é a vítima preferencial nas frustrações de um designer. É sempre pra ele que o Designer perde um job. Na verdade, o Sobrinho é a primeira e mais triste vítima da sensação que as pessoas têm de que o design é uma profissão fácil, bacana, que qualquer um consegue, e que dá pra fazer um trocado usando o micro da família, sem precisar sair de casa. Uma espécie de vendedor da Jequiti, que nem por por o pé na rua põe.

Vivemos num país complicado. O povo fará qualquer coisa para descolar algum. E o quanto mais fácil essa coisa se parecer, maior a chance. Na última década e meia tivemos uma inundação de tecnologia na vida da classe C e D. Era de se esperar que aquele computador que o moleque usa para ficar no Face o dia inteiro fosse demandado para algo mais, mais cedo ou mais tarde. É difícil que o moleque decida fazer cálculo diferencial em seu computador (apesar dele precisar de menos processamento para tanto), ou que ele tente produzir uma grande obra literária. Ele precisa de algo simples, fácil, e de preferência, que possa colocar na galeria do Instagram.

Adivinha o que vem a mente?

Como combater a ameaça?

Por incrível que pareça, não é a coisa mais dificil do mundo. Basta ter em mente que, em 98% das vezes, o trabalho que esse cara pega não é aquele que você, designer, quer. Nos outros 2%, o cliente ou é muito burro, ou facilmente vai chegar a conclusão de que não valeu a pena para seus proposittos (merchã), e vai voltar sua atenção novamente para um profissional. Nessa hora, o designer precisa estar preparado para oferecer uma solução e um atendimento muito diferentes, que justifiquem o investimento que o empresário agora está disposto a fazer.

Na verdade, os sobrinhos tem seu papel no mercado. Ok, eles inundam as cidades e sites com panfletinhos multicoloridos e sites com montagens abixornantes, mas por outro lado eles fazem um serviço que eu não quero pegar. Tipo limpador de esgoto. Eu não quero para mim, mas graças a Deus alguém faz.

Se um job desses viesse para as minhas mãos, eu teria que recusar, ou cobraria algo que esse tipo de empresário não pode pagar. Então é melhor que alguém faça.

O que existe, em muitos casos, são empresas que se contentam com o trabalho do Sobrinho. Geralmente o enganado na história é ele. Que vai passar horas fazendo merda e ganhando pouco, enquanto se acha o máximo, apenas para descobrir, tarde demais, que já está velho, sem formação, que não tem lugar no mercado, e pior de tudo, o micro-computador está precisando de mais memória.

Com o passar dos anos, eu aprendi que perder tempo com situações insolúveis é perder dinheiro também. Eu não me comparo, não brigo, não entro em concorrência com sobrinho. Não é meu foco. Nem o trampo, nem a empresa que pensa assim. Se alguém me pede algo bem baratinho, dependendo do quanto gosto da pessoa, prefiro DAR o serviço do que cobrar. Ao fornecer de graça meu trabalho, deixando bem claro o quanto ele vale, eu tenho alguém que me deve um favor (Don Corleone sabe o quanto isso é importante). Mas se eu cobro baratinho, esse cliente ainda se acha no direito de pedir que eu coloque mais cor, e que aumente A logo.

Conselho de Designer pra Designer

Se você anda esbarrando demais com sobrinhos em seu caminho, é hora de mudar a rota. Ou você está na estrada errado, ou não percebeu que se feriu em algum CD radioativo por aí.

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