Bombou no Facebook essa semana o vídeo em que um veterinário de São Carlos reclama da decisão do Conselho Regional de Medicina Veterinária que o proibiu de atender gratuitamente à animais de pessoas sem condições financeiras. O profissional fazia o atendimento nos sábados, ajudando quem nunca teve condições de ter seu animal examinado antes.

É um gesto nobre por parte do veterinário. E um gesto corporativo do Conselho de Veterinária.

Mas veja só. O Conselho é um órgão corporativo. Um órgão de classe. Sua função é proteger a prática da profissão, não a população. Não quero dizer que eles estejam certos. Se analisado de maneira menos fria, cães e gatos fazem parte do cotidiano de muitas famílias no país. Sem tratamento, pegam e transmitem doenças. É portanto, um caso de saúde pública sim.

Mas vamos falar de design, porque este blog ainda não faz vacinações de raiva.

Caso aquela proposta de regulamentação da profissão passe algum dia pelo nosso legislativo e presidência da República, teremos um órgão regulador. E é natural que ele aprove um código de ética, que talvez ele imponha certas regras nas questões de preços. Muita gente quer isso funcionando, talvez para evitar a tentação de cobrar barato. Sempre é uma desculpa muito eficaz poder dizer ao cliente: “Olha, eu até queria fazer mais barato, mas se eu cobrar menos que a tabela do Conselho, eles cassam minha licença de designer”.

Enquanto não temos conselho, nem código de ética, a decisão de cobrar mais ou menos é toda do designer.

Eu não quero ficar botando regra no trabalho de ninguém. Mas é simplesmente um fato que, quando temos muitos profissionais cobrando pouco, a concorrência age contra nós. Quanto mais barato a comunidade de designers cobrar, mais iremos ouvir “mas eu encontro isso pela metade do preço no mercado”, como se fôssemos sacos de cimento. Mas ninguém te impede de praticar o preço que quiser.

A adoção de um patamar de preço é das coisas mais difíceis no nosso trabalho. Ela envolve mais incógnitas do que a maioria das profissões que existem. Não dá pra colocar simplesmente: logotipos – R$ 2.000,00. Na hora de dar um preço, variáveis como: área do cliente, quantidade de pessoas que irá aprovar, abrangência, tamanho do cliente, possibilidade de novos negócios com o cliente, interesse da sua empresa em atender determinado setor, quantos anos de experiência você têm, visibilidade e responsabilidade, e claro, quantas horas estimadas você vai gastar têm que entrar na conta, mesmo que de forma subjetiva.

Mesmo assim, vão aparecer momentos em sua carreira em que alguém vai te pedir algo baratinho. E às vezes, não é um aproveitador (se for, mande passear).

Muitas vezes é um amigo, um parente, um irmão. Alguém que você decidiu ajudar. Alguma empresa em que você quer investir. Sei lá.

Nesses casos, eu vou dividir com vocês a conclusão que eu, depois de muito tomar na cabeça, cheguei.

Melhor fazer de graça, do que bem baratinho.

Parece insano? Não é.

Pela minha experiência, se você fizer um trabalho bem baratinho, mesmo que simbólico, a outra parte sai da categoria de agraciado, e vira cliente. E cliente, meu amigo, você tem que atender.

Mesmo pagando bem pouco, um cliente vai exigir. Vai pedir novas opções. Pra trocar de cor, aumentar do logo, trocar a fonte, minha mãe não gostou, dá pra mostrar mais três, acho que não sei. Isso porque ele tem o argumento máximo na relação: “tô pagando…”.

Por outro lado, quando você dá algo de presente, você dá o que quer. Se você escolher presentear alguém com seu talento, você dita as regras. A não ser que a outra parte seja muito sem educação, convencionou-se há muito tempo que à cavalo dado, não se olha a fonte.

Isso não lhe dá liberdades apenas econômicas. Pode significar uma oportunidade de realizar um trabalho exatamente como você concebeu. Pode ser um ótimo tubo de ensaio para propostas mais arrojadas, que clientes mais inseguros tem dificuldade em aceitar. Se a pessoa viu o seu trabalho, resolveu te pedir uma força, e você aceitou, o mínimo que pode fazer é colocar algumas condições.

Muitas vezes um trabalho gratuito pode ser seu investimento em um negócio que você acredita. Feito da maneira correta, e se seu faro for certeiro, você pode se tornar um fornecedor especial no momento que a empresa crescer. Tudo depende de como você aceita a empreitada. E isso envolve, inclusive, fazer propostas formais, contratos etc.

Afinal de contas, presente é uma coisa. Trabalhar de graça, forçado, é escravidão.

O baratinho pode te render aquela terrível sensação de estar trabalhando mais do que recebendo. Pode te causar indisposição com o cliente, que, no fim, está cumprindo a parte dele na barganha, e pagando o que você estipulou. Se você comprar uma TV 100 polegadas 4k por R$ 300,00, quando chegar em casa, vai querer que ela funcione. Não adianta a loja te ligar dizendo que “tava baratinho”. Por outro lado, se alguém te DER de presente a televisão, você vai ficar sem graça de reclamar.

No fundo é uma questão de experiência própria. A verdade é que em mais de 90% das vezes, eu acho que o cliente merece um atendimento especial. Aliás, esse é o único atendimento que eu dou. E para ter direito a esse atendimento, ele precisa arcar com aquilo que eu custo no mercado. Nas poucas vezes em que cedi ao baratinho, a taxa de dor de cabeça foi consideravelmente maior do que naquelas em que presenteei um amigo com meu trabalho. Mas isso, até que tenhamos um Conselho que nos obrigue a fazer o que está acordado, é questão de opinião.

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