Tenho um conhecido que aqui vamos chamar de Antonio.

Antonio é proprietário de uma empresa. Ele faz lavagens especiais em roupas. Sabe aquele jeans que já vem com cara de meio surrado? Pois é, a empresa dele lava. Faz outros tipos de lavagem que eu não saberia nem explicar para vocês. O Antonio não vai ser visto todo molhado na frente de um tanque. Todo processo é industrial, ele tem funcionários e domina a técnica. As vendas e prospecções de sua empresa dependem dele. Ele visita clientes e acompanha de perto os investimentos e gastos. Nível de glamour do trabalho dele: zero.

Outro amigo e cliente, que chamarei aqui de José, tem uma pequena indústria. Ele produz não-tecido. Aqueles rolos de um material que parece algo entre papel e pano, sabe? José é um dos principais produtores do país. Traz máquinas enormes, especializadas nesse segmento, e solta bobinas quilométricas de várias cores, texturas e densidades. Você se surpreenderia ao descobrir o alcance do produto. A fábrica de José é limpíssima, eu vi, mas parece (adivinhe) uma fábrica. José lida muitos mais com a área comercial e de contas da empresa do que com os operários, mas algumas vezes por semana desce à fabrica para ver de perto a produção. Nível de glamour de trabalho do José: zero.

Agora vamos falar da nossa área. Vamos falar do designer ou ilustrador que você conhece. E, para ninguém me acusar de usar um loser na comparação (e olha que não usei nenhum mega-industrial como exemplo) vamos pegar um designer que esteja numa boa colocação na nossa cadeia alimentar. Vamos chamá-lo de Heitor. Ele é fictício, mas duvido que você não conheça algum Heitor por aí.

Heitor trabalha numa agência. Não é uma agência enorme, mas é bem colocada no mercado. Heitor e sua equipe atendem à marcas bem estabelecidas no mercado. Faz design de identidades corporativas bacanas, com manuais de utilização que são um show à parte. Faz embalagens, anúncios, catálogos. Quando a campanha exige, Heitor visita estúdios, e uma vez assistiu uma sessão de fotos com a Gisele Bundchen. A agência onde Heitor trabalha é descolada. Tem ping pong e video game nas áreas comuns. O ambiente é bem decorado, e a mesa dele fica a quase dois metros da mesa do seu colega. Quando fecha uma conta grande, ou no fim do ano, a agência faz eventos concorridos. As vezes, chamam bandas do momento para shows fechados. Um dos diretores da agência ganhou um Leão ano passado.

Quando precisa ficar até tarde, eles pedem uma pizza muito foda, e no começo do ano rolou até uma cerveja na madruga. Heitor tem vários amigos da área. Da sua e de outras agências. Frequentam as mesmas baladas. Comem nos mesmos restaurantes. Nível de glamour do trabalho de Heitor: 8,5!! Uau!

Tenho quase certeza que nenhum designer quer ter a vida dos dois primeiros personagens. Claro, somos pessoas criativas, inquietas, temos outras coisas na cabeça. Faz sentido. Faz?

Essa desconexão entre o “nosso mundo” e o “mundo por aí”, na minha opinião, pode estar enfraquecendo nossa profissão. Me explico.

Se Antonio e José se encontrarem num almoço qualquer por aí, vão se entender perfeitamente, em 10 minutos no máximo. Se Heitor estiver na mesa, vai ser dificil manter o interesse de parte a parte. Para profetizar, creio que os dois acharão Heitor excêntrico demais. E Heitor pode achá-los caretas e boçais, e descobrir rapidamente uma rede social no celular, ou um punhado de canudinhos plásticos com um colorido lindo para tirar uma foto FODA pra colocar no seu instagram.

Se o glamour da vida “mundana” de Heitor te interessa (e admita, interessa), talvez o resto da vida dele  não produza a mesma mágica.

Enquanto Antonio e José são donos de casas em condomínio, dirigem SUVs e viajam com a família para o exterior uma vez por ano, Heitor paga aluguel num imóvel de dois dormitórios (num prédio antigo de um arquiteto lendário, com uma biblioteca de livros de arte e design invejável) numa rua legal do centro da cidade. Nem precisa de carro, tudo é perto. Quando não tem jeito, pede uma carona a algum amigo. Fez um mochilão para a Europa, uma vez. Heitor não tem filhos, mas se optar por tê-los vai ter que reinventar sua vida toda.

Heitor sente que poderia ganhar mais. Que trabalha mais do que ganha. E no almoço com os pais no fim de semana, às vezes acha que dá mais duro do que seu irmão engenheiro, que tem um salário duas vezes maior do que o seu.

Não estou aqui querendo ser sarcástico com os Heitores por aí (talvez só um pouco). Quero só tocar no Heitor em cada um de nós.

Nos consideramos seres diferentes, especiais. Na verdade, somos tão diferentes quanto um economista é diferente de um médico. Mas eles sabem levar suas carreiras, nós não. Estamos nos concentrando nesses detalhes “glamourosos” do nosso trabalho quanto talvez devêssemos prestar mais atenção no todo maior. Talvez, numa análise dessas, cheguemos a conclusão de que esses mimos são colocados ali como aquela suculenta maçã pendendo na frente da cara do cavalo para fazê-lo andar. E sem reclamar.

Não quero ter a vida do Antonio ou do José, assim como eles não querem a minha. Mas se quero ter alguns resultados parecidos com os deles, vou ter que aprender a entendê-los. Seja porque são modelos em potencial, seja porque podem ser clientes em potencial. Para atendê-los, eu preciso viver no mesmo mundo que eles.

Se, por outro lado, eu me transformo nesse ser mitológico que quase parece uma esfinge, não posso cobrar dos Josés e Antonios que me entendam, que me consultem, que me decifrem. Eles com certeza terão medo de serem devorados.

Não me julguem como um mercantilista. Não estou dizendo que é preferível fazer um serviço qualquer e ser bem pago. O preferível é fazer um serviço exemplar e ser bem pago. Mas que esse serviço tenha mais valor para seu cliente do que para outro designer. Que você seja reconhecido com um criador de soluções, que seja chamado para participar do jogo empresarial do seu cliente, e não que seja percebido como um acessório.

Eu estou numa cruzada pessoal para fazer com que o trabalho da Propósitto seja uma parte normal da vida das empresas e clientes que atendo. Chega de “ai que lindo” uma vez por ano. Prefiro um simples obrigado, e a certeza de que em alguma parte do processo, meu trabalho fez alguma diferença real no ciclo de vida das empresas e produtos que toquei via design. E que amanhã estarei novamente no processo, da mesma forma que um advogado ou consultor.

Se eu conseguir isso, poderei ter o trabalho do Heitor, e os resultados do José ou do Antonio.

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