Você deve estar ouvindo a grita irrestrita à respeito do fim da neutralidade da internet nos Estados Unidos. Se você pensou que isso é coisa da política americana, melhor repensar. Se pensou que nós já debatemos esse tema, e já rechaçamos o perigo por aqui, melhor pensar duas vezes. A onda que começa lá, termina aqui, e com certeza vai doer.

Aliás, as teles daqui já deram sinal de vida: (http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/12/1943511-no-brasil-teles-tambem-vao-pedir-mudanca-de-neutralidade-de-rede.shtml)

O mais chocante, e que dá conta do tamanho dos tempos errados que estamos vivendo,  é  que deram um jeito desse monstro passar nas barbas da tão proclamada democracia norte-americana. Ajit Pai, presidente da FC, o órgão que regula esses assuntos no Tio Sam, é um sujeito que tem cara de babaca, jeito de babaca, fez campanhas de TV babacas (ele chega a aparecer de Jedi), e que mesmo assim conseguiu o que queria.

Vejam se não é maior cara de paspalho do século (AP Photo/Pablo Martinez Monsivais)

A queda da neutralidade da Internet é a cara do governo Trump. Não existe argumento à favor do fim da neutralidade em relação ao público, ao usuário da internet. O palhaço do FCC que fez campanha pelo é tão crível quanto a vontade de Dr. Rey de ser presidente no Brasil.

Fica dolorosamente claro que é simplesmente o fato de que a internet como está, chegou a um pico, e a partir daqui, a curva de lucro começa a estabilizar. A falta de criatividade dos executivos das teles apelou para o mais simples: vamos dar um jeitinho de cobrar mais.

O que pode acontecer?

Pelas novas regras que passarão a valer dentro de pouquíssimo tempo, as provedoras de internet podem começar a modular seus sinais para oferecer aquilo que quiserem. Ou seja, pode esperar pacotes temáticos bem parecidos com os de TV a cabo, tipo:

Pacote básico: dando direito a e-mail e 200 mega de navegação mensal.

Pacote Social: com acesso ao Facebook, Instagram e WhatsApp, mas talvez não ao Google + , porque é do concorrente.

Pacote Netflix: mas não vai dar pra você ver HBO Go, porque sua operadora não tem contrato com esse site.

Pacote SexyPlus: onde você vai poder acessar o PornHub e o Xvideos.

O pior de tudo são as implicações profissionais. Para ficar no nosso metier, Designers têm a tendência de movimentar grandes quantidades de dados na rede, com fotos, filmes e artes que mandamos para as gráficas. De certa forma, nossa própria existência nos últimos anos tem sido vinculada à internet. Os preços que praticamos levam em conta o fato de não termos mais office-boys para levar Zip Drives até a gráfica.

E pior ainda: o que será dos nossos pacotes Adobe Creative Cloud? O mais provável é que tenhamos que comprar um pacote corporativo, para quem trabalha com isso, e ficar regulando cada mega que transferimos cada mês. Mais trabalho? Vai ter que contratar pacotes de dados opcionais.

Isso, a médio e longo prazos,  simplesmente tira do jogo aquilo que a internet sempre teve de mais valioso. O de ser um território ainda a ser explorado. Onde um Zuckerberg pode aparecer da noite pro dia e criar um mercado novo, que não existia até então.

As grandes corporações americanas querem, como sempre, controlar tudo que puderem, e conseguiram um feito enorme agora.

Mas há uma pequena luz no fim do túnel.

Trump é um político tão ruim, tão inábil, tão tosco, que pode acontecer algum caso similar com o que aconteceu com o acordo climático. Trump retirou os Estados Unidos do acordo, e isso só motivou o resto do mundo (e vários governadores americanos) a reforçar as metas.

Ninguém que tem dois neurônios quer defender Trump. É assinar um atestado de imbecilidade.

E essa característica “8 ou 80” pode gerar mudanças sistêmicas. Até porque, a gente sabe, que uma coisa é mexer na grana, na economia, na comida e bebida do povo. Mas experimente mexer na internet ou no seu esporte favorito, e pode se iniciar uma guerra civil. Mas estamos na corda bamba. As teles apostam que o povo está tão viciado no momento, que pagará qualquer coisa para poder continuar usando sua droga. Veremos.

A internet, essa que você conheceu até agora, pode ter começado a morrer ontem, dando lugar a uma coisa nova. Mais elitista, mais excludente, nas mãos de meia dúzia de grandes corporações.

Lembra quando tínhamos as grandes produtoras de conteúdo produzindo qualquer coisa que tinham em mente, e todo o resto era somente consumidor, sem participação no processo? Esse era o sonho molhado de todo executivo de telecomunicações. E eles deram o primeiro passo de volta à essa direção ontem.

Ironia é ter sido na mesma semana que a Disney se tornou um dragão flamejante, com 7 cabeças bonitinhas e sorridentes, ávida por devorar tudo e todos no caminho.

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