No começo do ano, impulsionado pela crise, vendo o volume de negócios dar uma caída brava, resolvi habilitar minha empresa para participar de licitações governamentais. O processo é chato, requer dezenas de documentos, certidões e idas e vindas ao contador, tudo para certificar que sua empresa é apta e idônea para fornecer o que promete ao governo. A princípio, achei isso bom, pois com certeza afastaria os caloteiros de carteirinha do processo.

Em tempos onde a gente se acostumou a operar páginas criadas com especialistas em UX e UI, o sistema de cadastramento parece ter sido feito por algum egípcio nascido em 2.000 AC, que até semana passada se comunicava via hieroglifos. É um site feio e mal feito. Mas que, em termos de mecânica e segurança, parece fazer sentido.

Foi duro, mas consegui. Logo nos primeiros meses, apareceram algumas licitações na área, e lá fui eu, todo orgulhoso, me inscrever.

A primeira licitação era para desenvolver o projeto gráfico e diagramação de uma série de revistas para um Conselho Regional de Medicina. A carta de chamada indicava o tipo de empresa que poderia participar, e dava um preço máximo para o conjunto das peças: algo em torno de R$ 2.500 para cada revista. Como eram 4 revistas, o valor total girava em torno de R$ 10.000,00. Não é que fosse o creme do creme, mas estava, digamos, adequado para aqueles fins.

A modalidade de licitação era pregão eletrônico. Isso significa que o menor preço vence. É, grosso modo, um leilão reverso. Logo ao se candidatar para o trabalho, você já dá seu primeiro lance, e você nunca sabe a identidade dos outros concorrentes, apenas o valor de seus lances. Foi quando levei o primeiro choque.

Veja, num leilão de um quadro (apenas como um exemplo) o leiloeiro apresenta a obra a ser vendida, com um preço mínimo. A partir daí, os presentes se revezam apresentando lances com preços gradativamente maiores, até que o maior de todos, vença. Mas não existe caso no mundo onde um leiloeiro divulgou o preço base de, sei lá, dez mil reais, e um cara já gritou do fundo “dou 50 mil!”. Os lances são graduais, até porque todos ali querem gastar o menor valor possível.

Pois naquela minha primeira incursão no mundo dos pregões, tendo um valor máximo de 10 mil reais, um cara já tinha dado o seu PRIMEIRO LANCE em R$ 8 mil. Achei estranho, mas como era um novato, coloquei R$ 7.800 apenas para baixar um pouco. E aguardei o dia do pregão real.

Por mais que eu tivesse me preparado para o pior, não dava pra ter noção do que viria a acontecer. O preço da disputa caía mais rápido do que eu conseguia atualizar. Em nacos grandes, absurdos. Quando o valor chegou a menos de mil reais por revista eu parei de tentar, mas fiquei olhando, horrorizado, o valor que aquelas empresas davam para seus próprios trabalhos.

O valor final ficou em menos de 300 reais por revista. Revistas com projeto gráfico, tratamento de fotos, editoração, design. 300 REAIS.

Semanas depois um novo projeto apareceu. E, já vacinado, fui conferir se eu tinha dado azar, ou se o padrão de comportamento era aquele mesmo.

Não me lembro os detalhes deste. O projeto era similar, diagramação e projeto gráfico de revista. Mas posso dizer que conseguiu ser pior do que o primeiro.

Como não me conformo com essas coisas, dei uma de detetive. Uma vez que o processo foi terminado, você passa a ter acesso aos nomes dos vencedores. E eu fui atrás de quem são, para tentar entender. Ambos os casos eram de empresas que tinham em seus contratos sociais absolutamente TUDO. Elas diagramavam, ilustravam, tratavam e tiravam fotos, faziam logotipos, ilustrações, manuais, capas de livro, faziam cópias, imprimiam, grampeavam, manuseavam, plastificavam, digitavam e se fosse preciso, fariam massagem nos pés dos contratantes. Eu vi alguns trabalhos deles. Eu não contrataria para varrer o chão do meu escritório. Não contrataria para fazer panfleto de balada tecno sertaneja no boteco da esquina da minha casa. E ainda assim, essas empresas estão por aí, fornecendo design para o governo. Uma delas tinha reclamações de ter usado trabalho alheio de um ilustrador num material governamental, sem permissão. É esse o nível.

Aliás, explica muito sobre a qualidade dos materiais oficiais do governo que vemos por aí.

Corta.

Numa das andanças internéticas, veio parar em minha mão, por intermédio de um amigo, uma chamada para cursos do Pronatec. Entre eles, exigindo apenas ensino fundamental, estava o curso Editor de Projeto Visual Gráfico. Eis a descrição dele:

Cria, desenvolve e edita projetos visuais gráficos. Utiliza programas de computação. Otimiza aspectos estéticos. Adequa conceitos de expressão e comunicação sintonizados com o projeto.

Podemos argumentar que seja uma descrição superficial demais para tudo que envolve. Mas, ao final de 180h de curso (que você pode fazer em 45 dias estudando 4h por dia), teremos mais um ser humano capaz de concorrer em pé de igualdade nas licitacões governamentais, habilitado conforme a importância que o próprio governo dá a nossa profissão.

Nesses momentos é que eu até acho que a regulamentação poderia ajudar. Mas talvez essas coisas ajudem a entender porque essa regulamentação não passou e não vai passar tão cedo. O fato é que os atores decisórios envolvidos nesse processo acham confortável poder contar com o design e suas adjacências como oferta de ocupações de nível médio. Como pedreiros, encanadores e ajudantes de pintura (nada contra essas profissões, por favor, mas nelas, realmente não vejo necessidade de uma faculdade), essas atividades ajudam a criar uma ilusão de campo de trabalho. “Você só precisa de um micro ligado a internet, e ‘programas de computação’ para desempenhar uma atividade glamourosa e rentável”.

Profissões são tão valorizadas quanto a importância que dão pra ela, e a dificuldade percebida de exercê-la . É cultural. Se tivéssemos conseguido, há muito tempo, explicar para nossa sociedade que fazer design é bem mais do que operar um computador, e que para ser bem sucedido nessa área, o profissional precisa dominar um cabedal de informações tão vasto, que só tendo mesmo uma aptidão nata para dar conta.

Outro fato a ser levado em conta é a falta total de critério da população para separar BOM design do design MEDÍOCRE. Quando a barra educacional/ cultural/ social está tão baixa quanto agora, qualquer um que sabia trocar uma fonte no word é considerado um profissional.

A regulamentação poderia, na melhor das hipóteses, garantir que somente empresas inscritas em nossa entidade de classe pudessem participar das licitações. Que os cursos de formação em design gráfico somente fossem permitidos com segundo grau completo. Que tivessem um número mínimo de horas para garantir um diploma profissional. Mas pouco poderia fazer pelo morto de fome que cobra 380 reais para diagramar uma revista de 40 páginas.

O problema não é que esse profissional exista. Vivemos num país em crise constante. O que é troco para uns é o almoço de outros. O problema não é que esse cara não encontre valor nem no próprio trabalho. O problema é quando a média de todos os profissionais pense assim.

E é assim que o governo, o mercado e seus vizinhos te vêem. Da forma e na direção que estamos caminhando, design em breve será ofertado como commodity. Como cimento. O mais barato vence.

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