2015. O ano em que conta chegou.

Talvez a coisa mais desgastante que vivi na vida foi a espera para essa Copa do Mundo chegar. 2014 foi o ápice do processo, lógico. Mas ele vinha sendo destilado há anos. Nesse tempo todo, seguimos observando o desastre anunciado tomando proporções de praga divina. Estava CLARO para qualquer um que tivesse meio neurônio na cabeça, que conseguisse pensar mais à frente do que meia garrafa de cerveja de que aquilo não daria certo, jamais.

Era muito improviso. Obras superfaturadas, cobradas e não feitas, viadutos caindo na cabeça de pessoas, estádios por acabar, cidades sem o menor inteligência viária, aeroportos convertidos em puxadinhos e greves se anunciando. A Copa serviria apenas para mostrar ao mundo todo a grande desgraça nacional.

O dia do pontapé inicial chegou e… tudo funcionou. Meu queixo caiu tão fortemente quanto as chances da seleção ganhar aquilo.

Antes deste dia, eu ficava me perguntando sobre o que seria pior. Se aquele circo todo pegasse fogo, ou se no fim, como mágica, desse certo. Porque dar certo seria a coroação máxima de que o “jeitinho”, o improviso, a gambiarra prevalecem e funcionam nesse país.

E assim foi.

De certa forma, eu acho que essa Copa foi a metáfora perfeita da forma que nós, como nação, procedemos. Lembro-me de um personagem de cinema, do filme “Shakespeare Apaixonado”, vivido pelo genial Geoffrey Rush, era o diretor da companhia de teatro que encenava as peças de Shakespeare. Enquanto todos se descabelavam de desespero porque as coisas estavam por fazer a minutos da estreia, ele mantinha a calma, só dizendo “na hora H, funciona tudo. É um mistério”.

Acho que há muito tempo as autoridades desse país pensam assim. Somos presenteados com iniciativas mal feitas, coisas pela metade, obras porcas, mas no fim, tudo dá certo. É um mistério.

Alagamentos? Eles param na época do carnaval, sossega. Protestos? Relaxa, não vão acontecer num dia que o presidente esteja na cidade. Inaugurações? Sempre um dia antes de ficar insuportável, a obra sai. Apagão não acontece em final de campeonato brasileiro ou de novela. E assim segue a vida, sempre deixando na dúvida se é Deus ou o diabo que é brasileiro.

Mas tudo tem um fim. E aparentemente, ele é em 2015.

O fato mais marcante, sem dúvida é a crise hídrica. Décadas e décadas desmatando a Amazônia. Décadas vendo São Paulo crescer desordenadamente, ao largo de dois rios tristemente sujos. Mas, milagrosamente, havia água. De repente, não tem mais. E agora? De tudo que está acontecendo nesse país, não tenho dúvida. O mais catastrófico é isso.

Mas não é o único fato. O governo federal pode ver na crise hídrica uma bela de uma vidraça para acertar o Alckmin. Mas ele em gerido sua parte tão mal quanto. A crise não é só estadual, e os primeiros dias de janeiro já nos trouxeram um apagão.

De mais a mais, Dilma tem feito com o dinheiro a mesma coisa que Alckmin fez com a água. Gastando mais do que pinga na reserva, uma hora iria faltar. E agora, para tentar consertar o vazamento, chama a equipe econômica para fazer exatamente o mesmo que todo mundo fez antes dele: aumentar impostos. Já somos o país que mais imposto cobra, e que menos entrega. Até quando vamos aguentar?

Depois de muito tempo com todas as diversas mãos nas cumbucas, nossos governantes e seus comparsas nem faziam cara de inocente mais. Tinham certeza de que estava tudo dominado. Que tinham colocado o país num estado de catatonia coletiva. Que eram invisíveis. Mas de repente, com a operação Lava Jato, estão sendo vistos. Aqui e lá fora. E pior, estão nus. A situação é feia, e vai piorar.

Falar uma coisa e fazer outra é praticamente a única frase do “Guia brasileiro para ser político”. Aposto que Dilma nem teve pudores de desdizer tudo que falou em campanha. Afinal de contas “brasileiro não presta atenção nessas coisas”. E “o marketing dá um jeito nisso, é só encomendar um slogan bacana”. Mas de repente, todo mundo fala disso. Quem abriu os olhos?

Repetir incessantemente que o ENEM é uma iniciativa genial, que mudou a face da educação no Brasil não evitou que 500 mil alunos tirassem um ensurdecedor zero na prova. A prova, no caso, é realmente A PROVA da quantidade de analfabetos funcionais que temos. Tentar melhorar índices via decreto não tem surtido efeito. Os dados chegam, atrasados ou não.

As balas que voam por nossas cidades, subitamente passaram a acertar tantas cabeças que eventualmente chegaram às das crianças, escandalizando finalmente uma sociedade que nunca deveria er aprendido a conviver com elas.

A impressão que eu tenho é que finalmente a conta chegou. O quanto os responsáveis por estas situações estão dispostos a pagá-la ainda é um mistério para mim. Mais parece que ainda estão tentando enfiá-las por baixo das nossas portas, com mais impostos, multas, desvios e campanhas de desinformação.

Se a gente vai pagar de novo essa conta, e deixar a vida andar, cabe a nós. Porque agora, o gigante só não vê se não quiser.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*
*
Website