A arte de colecionar pedras

Pode parecer incrível, mas dedicamos boa parte de nosso tempo neste planeta colecionando e distribuindo pedras.

A cada relação que estabelecemos, em qualquer nível, em qualquer profundidade, fazemos trocas. Algumas trocas são importantes, outras mais banais. Mas não há relação sem elas. Um sorriso, uma cara feia, um aperto frouxo ou forte demais, tudo deposita impressões boas e más nas mãos das pessoas com quem esbarramos em nosso caminho.

Esses momentos, essas impressões, são as nossas pedras. Cada uma terá uma importância para quem entrega e para quem recebe. Quase nunca as entregamos por querer, mas mesmo sem intenção, e mesmo que pequenas, elas vão passar de mãos em mãos. Muitas vezes, fragmentos delas vão parar nas mãos de terceiros, gente que nem mesmo conhecemos, e que de repente tem consigo um pequeno pedaço da nossa vida.

Por mais cuidadosos que sejamos com nossas pedras, elas parecem ter vida própria. É só piscar o olho e pronto, você já deixou aquela pedrinha quando admitiu um medo bobo, uma falha sem importância, um desvio normal a todos.

Alguns são especialistas em roubar pedras de outrem, sem que elas percebem. Um simples olhar, um jeito de agir peculiar, sua própria visão da existência, uma frase colocada desta ou daquela maneira, e de súbito você tem várias pedrinhas sobre sua mesa, esperando a ação furtiva do ladrão.

E quanto mais confiamos em quem nos ouve, mais e maiores pedras entregamos. Uma relação de amizade ou de amor pressupõe uma intensa troca de pedras. No fim, estar junto com alguém é ajudá-lo a carregar suas pedras, enquanto se tem alguém para te aliviar do peso das suas. Significa também que aqueles que mais estimamos são aqueles com mais munição para nos magoar.

O modo que cuidamos dessas pedras pode definir nossa forma de ver a vida.

Muitos não sabem o que fazer com elas. Guardam nas gavetas e nunca mais as vêem, até que em momentos de angústia, as reviram, encontram dezenas de pedras misturadas, sentimentos de tanta gente embolados e desorganizados, brigando por lugar em nossos porões. Normalmente essas pessoas vão acabar não discernindo as próprias pedras das dos outros, vão se perder nessa bagunça, e não raro se machucar ao tropeçar em pedras alheias.

Outros tem um cuidado excessivo com as pedras de seus conhecidos. Cuidam delas como se fossem suas. Colecionam, colocam em estantes, tiram o pó. Estão constantemente as revisando, relembrando. Estão sempre abertos a guardar mais pedras. Este tipo de gente, que geralmente se oferece como ouvinte profissional, raramente te ajuda muito a quebrar suas pedras. Por outro lado, eles quase nunca prestam atenção em suas próprias pedras. Enquanto dão foco nas rochas do mundo, empurram as suas para debaixo de qualquer tapete que a vida ofereça.

Eventualmente, todos nós jogamos pedras uns nos outros. Pode ser qualquer uma que se tenha à mão, no momento da raiva. Quando nos importamos muito com a pessoa, é normal escolher entre as pedras aquela que seja menor. E jogar de alguma forma cuidadosa, que não atinja nenhum órgão vital. É normal levar pedrada, faz parte da vida. Às vezes necessário. Ninguém tem o direito de atravessar a vida sem uma boa pedrada. Mas uma pedra que volta às suas mãos te dá a chance de refletir sobre ela. Muitas vezes é tão antiga que você nem se lembrava. Outras nem doem, só causam surpresa. Algumas, graças a Deus, são motivos de risos. São as pedras que se quebrarão com facilidade. Que ficaram ocas com o tempo. Parecem pedras de cenário de filme, feitas de isopor.

Mas há também quem carregue todas as pedras junto a si, para poder atirá-las contra todos, sempre que julgarem oportuno. O quanto a pedrada vai machucar depende do tamanho da pedra que você ofereceu. O diabo é que esses são exímios mineradores, e tem pontarias milagrosas. São eles que nos deixam geralmente sem fala. Com as mãos em nossos machucados, olhando para o petardo atirado em nossa direção. “Não acredito que você me atirou isso”, é nossa reação mais comum.

Não creio exista solução para este problema. Não acredito que tenha como se resguardar tanto, e se houver forma, deve ser uma existência triste passar o tempo todo com os escudos levantados e as mãos fechadas, tentando não ser atingido nem entregar sua pedras a ninguém. Não tem um ser que caminhe sobre este mundo que não traga marcas roxas das pedradas que levou. Não se inventa vacina contra pedrada.

Mais fácil é entregar e receber pedras para das pessoas certas. Das que ficaram com você, tratar com carinho. Ajudar a quebrar algumas. E a grande maioria, deixar cair pelo caminho, e se esquecer completamente que elas estiveram em suas mãos. Quando alguma batalha te encontrar, você pode estar em desvantagem agressiva, mas vai estar mais leve para encontrar outro caminho, e com as mãos livres para ajudar quem precisa.

One thought on “A arte de colecionar pedras

  1. Putz, adorei! Uma metáfora dessas coloca a gente pra pensar…
    Valeu pela pedrada!

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*
*
Website