A falta de Educação nos priva de muito mais do que só de escolas

O imbroglio da Educação no Brasil parece não melhorar nunca. Como uma vez disse Darcy Ribeiro, parece um projeto, não um problema.

O governo do PT vem focando seus esforços na construção de novas Universidades, em linhas de financiamento para quem quer fazer faculdade e na instituição de cotas raciais. Eu já fui um crítico das cotas. Hoje, vendo alguns resultados que me parecem sérios, chego a conclusão de que são uma boa iniciativa, fazem mais bem do que mal.

Mas no meu entender, todas essas ações são poucas e fora do foco realmente necessário. Me explico.

Para começo de conversa, acho que tanto esforço pela educação superior um contrasenso, no mínimo. Quando uma pessoa já chegou a vida adulta, e já conseguiu se candidatar a um vestibular, ele já tem seu caráter formado, já tem suas forças e fraquezas compostas. Esse indivíduo precisa de apoio, mas ele não muda o país. Ele já é fruto do que passou para chegar até aqui.

Por outro lado eu defendo que nem todos precisam de faculdade. É um investimento longo, árduo, que deveria ser mais difícil ainda do que é. A obrigação de uma Universidade é formar gente muito preparada. Justamente por ser uma escolha. Para que no país muitos alcancem um grau de bem estar social, com um bom emprego, e condições de sustentar a família e ter tranquilidade, a proliferação de cursos técnicos e especializados, dentro de áreas que temos carência seria muito mais transformadora. Mas esse é outro assunto.

Meu filho estuda numa boa escola. Eu e minha esposa, como tantos outros pais, fazemos das tripas coração para mantê-lo dentro do padrão mais alto ao que temos condição. Para isso, pagamos. Pagamos pela estrutura, pelos professores, pela segurança. Pela certeza do cumprimento da grade, pela certeza de que seremos ouvidos quando tivermos dúvidas, sugestões ou críticas. Em último lugar (mas também na conta) vem o preparo para sua vindoura faculdade.

Mas não era o que eu queria. Não é o ideal. Essa relação não muda as coisas.

A impressão que eu tenho é que o governo já sabe que gente como eu, e os muitos que estão acima de mim no padrão monetário, vai seguir esse mesmo padrão. Vai fazer o que for possível para manter seus filhos no sistema particular. E é aí que os problemas começam. Porque dessa forma, eles precisam fazer uma escola boa para os mais pobres. E não para TODOS.

Ao investir todas as suas (poucas) fichas no ensino superior, o que o governo quer, muito claramente, é voto. Quem é beneficiado por algum programa governamental ao entrar numa faculdade tem idade e motivos para reeleger quem proporcionou esse beneficio para si. A criança que entra no ensino básico vai demorar muito para chegar lá.

O que eu, como pai, gostaria, é de uma visão mais ampla sobre o alcance que uma escola tem na mudança de panorama social.

Imagine uma escola de qualidade indiscutível, com vagas para todas as crianças de uma determinada comunidade. Eu disse TODAS. Imagine seu filho, o filho do pedreiro e o filho do industrial, na mesma sala, no mesmo grupo. Frequentando as casas uns dos outros. Uma escola em tempo integral, com condições ideiais para que, mesmo as lições de casa fossem feitas nela. Crianças comendo juntas. O que aproxima mais as pessoas do que dividir suas refeições? Que o conteúdo passado fosse perfeitamente adequado para quando eles resolvessem prestar um vestibular. Chances iguais, portanto, para todos.

Sempre haverão pais que precisam de mais. Mais luxo, mais segurança. Ensino de outras línguas. Educação com métodos diferentes. Para esses, existiriam as escolas particulares. Quem não precisa disso, seria plenamente atendido.

Imagine que, como em várias escolas, existam times de diversos esportes. Futebol, basquete, vôlei, ginástica. Campeonatos entre escolas da mesma cidade, e entre cidades. E que esses times escolares fossem a entrada para times profissionais, não mais as terríveis e desumanas “peneiras” pelas quais as crianças passam hoje.

Bibliotecas públicas, que poderiam ser usadas por qualquer morador do entorno. Internet gratuita para pesquisas. Feiras de ciência, palestras e vivências abertas a todos. A escola servindo como um hub dentro do seu bairro.

Imagine que, dada a estrutura que essa escola teria, eu poderia ir jogar um campeonato de qualquer coisa entre outros pais de alunos.

Imagine o efeito que uma visão destas poderia ter no entrono. Pessoas da mesma comunidade, se conhecendo, convivendo e coexistindo, preocupadas com aquilo que é comum a todos: o amor aos filhos. O impacto poderia ser simplesmente gigante.

Tão grande que eu chego a entender o medo que causa. E então, mesmo o governo mais social da história brasileira prefere fazer, no máximo, escolas “boas pra pobre”. Merenda, uniforme, vaga e cale a boca, não reclame.

Gerações e gerações de políticos vem nos privando desta que seria a maior mais necessária reforma a ser promovida pelo Estado. A única que tem potencial real de mudança. Todas as outras vem bem atrás. Hoje em dia quem aprendeu a escrever não aprendeu a pensar. Quem aprendeu a pensar não aprendeu a conviver. Quem aprendeu a pensar e conviver, vive num outro mundo.

Tenho forte tendência a não votar porque sei que minha visão, neste país, tem cara de utopia. Mas tem grandes chances de me ganhar aquele que me contar uma história que rime com essa. Porque a história que está sendo contada é chata, repetitiva e eu já sei o final.

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