A Vida Secreta de Walter Mitty e a nossa nem tão secreta vida

A Vida Secreta de Walter Mitty é o último trabalho do ator e diretor Ben Stiller. Gosto dele. É um dos poucos comediantes americanos que não vem do stand-up, e tem uma linguagem muito própria, trabalhada somente para o cinema.

É um feel good movie padrão, com algumas diferenças que, para mim, o fizeram especial. Li críticas dizendo que ele era bobinho, e previsível. Não deixa de ser verdade. No momento em que Walter inicia a sua jornada, você provavelmente adivinhará o final. Mas como na própria vida, o final a gente já sabe. O mais bacana é o que tem entre uma ponta e outra.

Minha análise deve conter spoilers, então se você prefere não macular sua experiência, sugiro que veja o filme antes.

O filme conta a história do Walter, um cara muito introspectivo, que vive sonhando em realizar coisas notáveis, e que se apaixona platonicamente por uma colega de trabalho. Walter trabalha no arquivo de negativos de uma grande revista, e quando dá falta de um negativo importantíssimo enviado por um fotógrafo aventureiro, decide encontrar a foto indo ele mesmo atrás de pistas bem soltas.

Pode parecer pouco, mas o filme é cheio de pequenas sutilezas que me ganharam desde o começo. As pequenas coisas em segundo plano criaram um filme dentro do filme, e ressonaram muito em mim depois que ele acabou. Vejamos:

Sintomaticamente, Walter trabalha na revista Life. Que já é um trocadilho com a própria Vida. É bom no que faz, respeitado pelos fotógrafos, mas praticamente invisível para todo o resto. Walter é um coadjuvante de sua própria vida. Ele serve, ele espera, ele passa o tempo revelando as aventuras nas fotos que outras pessoas mandam para ele. Vê o negativo da vida. Ele quer resolver sua vida dando um clique de mouse.

Quantos de nós não estamos nas cochias de nossas próprias vidas, servindo de escada para outros brilharem numa peça que deveria ser nossa? Quem não perde tempo analisando o negativo de tudo. Relacionando tudo que pode dar errado antes de tomar uma atitude.

Walter nem sempre havia sido essa pessoa tão fechada. Quando jovem era radical, como denuncia o penteado moicano que usava. Seu grande aliado era seu pai. Depois de perdê-lo, Walter se fechou dentro das responsabilidades que chamou para si. Cortou o cabelo, encaretou e abriu mão do que podia para não desapontar aqueles que amava. Hoje anda por aí meio cabisbaixo, sonhando com o que poderia ter sido, carregando de um lado pro outro o peso do piano que nem dele é.

Sean O’Connel, papel de Sean Penn, por outro lado, é quase um lado do próprio Walter. É tudo que ele poderia ter sido. É aquele lado da gente que aflora de tempos em tempos, que nos dá vontade de largar tudo e ir embora. Viver sem regras, sem tempo, sem compromisso. Por mais romântico que seja, muito poucos realmente conseguem realizar isso. Por isso, Sean precisa de Walter. Precisa da admiração, do sonho, da capacidade que Walter tem de transformar seus negativos em algo que o mundo possa ver. Gente como Sean são o convite à aventura que nós todos recebemos. São a forma de ver a vida do jeito inverso ao que frequentemente conseguimos.

O fato é que a Life vai virar digital, e isso é fatídico. Como a nossa própria “life”, não? Quantas pessoas você só vê através das redes sociais hoje em dia? Quantos sentimentos tão reais, positivos ou negativos, você já acalentou depois de interações ou falta delas no face? A quantas conclusões apressadas você já não chegou olhando dados apenas pela superficie? Walter corre contra o tempo, porque sabe que esta será a última edição real. Que uma vez que a “Life” vire completamente digital, as chances de interações reais vão diminuindo.

Quando Walter decide entrar no avião atrás da “quintessência da vida” (nome que Sean deu para a foto), seus devaneios acabam, e ele começa uma sequência de contratempos interessantíssimos que mostram duas coisas. O quanto sua vida estava represada. E que não há hora tardia. Qualquer momento é hora de se jogar no mundo, ele está ali fora, esperando.

Ao finalmente encontrar Sean O’Connel, o que Walter descobre não poderia ser mais singelo: a quintessência da vida esteve com ele, o tempo todo. E justo dentro de uma carteira vazia, que parece dizer: o dinheiro é meramente o catalizador para fazer as coisas acontecerem. O dinheiro não é a meta. A meta é a aventura da vida. A grana ajuda a realizar.

Eu me senti revigorado ao ver o filme. Até mesmo um pouco culpado por empurrar com a barriga coisas que eu poderia ter feito. Mas senti também que estou na trilha. Ás vezes eu acho que me encontrei, mas é justamente nesses momentos que eu penso que é bom estar um pouco mais perdido. Por isso temos tanta saudade da juventude, quando tudo era possibilidade. Porque quando se vive a aventura da vida, não se reclama dos vulcões, pilotos bêbados ou dos qualquer coisa insignificante que acontece no nosso dia-a-dia. Porque eles não são empecilhos, são a própria vida, acontecendo na nossa frente. A escolha é viver, ou voltar pro quartinho de negativos, no escuro, e em perfeita segurança, enquanto se sonha com a vida dos outros.

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