Ajudar

Perdi um fim de semana ajudando. Ou ganhei. Quem tem que saber sou eu.

Ajudamos a ADV São Roque aqui em casa. Por inspiração da minha esposa e por motivos que explico no texto. Este fim de semana houve a Festa das Nações aqui em São Roque, um evento beneficente que reúne várias entidades, cada uma representando um país, servindo comidas típicas. A nós, coube a barraca dos Estados Unidos, servindo o fast food característico dos americanos. A escolha é boa e trabalhosa. Enquanto outros países podem deixar a comida exposta e pronta, nós temos que fazer lanche a lanche. Muito volume, muita fila margem de lucro menor, mas muita gente atendida, o que é importante.

O lucro da festa é muito bem vindo. A entidade está angariando recursos para a construção de uma sede adequada àqueles que atende. Construção cara e necessária, e quase sem ajuda. A ADV não tem muitos apoiadores, é um trabalho de formiguinha.

Ajudar não é fácil. Na hora H, é muito mais cômodo se convencer de que a vida não tá fácil pra ninguém, que tá muito frio, que ano que vem vai dar pé, e ficar em casa, no quentinho do lar.

Se comprometer, então, é mais difícil ainda. Ser comprometido é assumir responsabilidade por algo que não é seu. No português claro, é procurar sarna pra se coçar.

Afinal de contas, o estado deveria estar fazendo mais por essas pessoas, não é? É. E você não tem nada a ver com isso, não? É verdade. E você paga seus impostos e não tem culpa por nada que elas venham a sofrer, certo? Certo.

Tudo isso é verdade. Por isso, decidir se comprometer é um ato que, pensando-se racionalmente, talvez não faça nenhum sentido. A não ser que você consiga imaginar um cenário onde algum dia possa precisar de ajuda. Aí talvez você encontre motivos que justifiquem o ato.

Não gosto do termo caridade. Dá a impressão de uma reunião de senhoras com a vida ganha que decidem fazer algo para preencher seus tempos ociosos. Não gosto, porque estando dentro de uma instituição, não é o que vejo. O que vejo, sim, é um apanhado de pessoas que trabalham o dia todo, que têm problemas como qualquer pessoa no mundo, que além disso algumas vezes ainda são pais e mães de portadores de necessidades especiais e que ainda assim encontram forças para dedicar uma parte do seu tempo pensando em algo além de seus próprios umbigos.

A quem nunca se envolveu, eu digo que não é simples aglutinar pessoas, distribuir tarefas e responsabilidades a quem não precisa estar ali. A pessoas que tem a prerrogativa de dizer não a qualquer coisa, mas que escolhem por algum motivo interno se devotar a uma causa.

Os motivos que levam as pessoas a tanto são pessoais e únicos, mas raramente egoístas ou discutíveis.

Eu ajudo a Associação dos Deficientes Visuais porque vejo. Vejo, posso ver. E entendo que a visão é talvez aquilo que de mais precioso eu possuo. Porque mesmo paraplégico eu talvez conseguisse desempenhar meu trabalho. Mas sem ver, nada feito. Porque o ato de ver é tão automático quanto respirar, e talvez por isso só se dê valor a ele quando se perde. Você abre os olhos e ali está o mundo. Porque ao não ver, as pessoas tem total consciência do mundo que estão perdendo, diferentemente de outros problemas. Eu ajudo porque me empatizo com a dor e as dificuldades pelas quais os assistidos passam.

Ajudo porque vivemos neste país onde o estado se faz de deficiente visual, e finge que não vê que tem muita gente precisando. Vivemos em cidades totalmente impróprias para quem tem pouca ou nenhuma visão. Que finge que ajuda, finge que vê.

E ajudo porque espero que, se algum dia eu vier a precisar de ajuda, encontre pelo meu caminho gente tão disposta quanto as pessoas que me rodeiam nesse meio.

Eu dedico meu tempo e meu trabalho. Não é pouco. Não é tanto assim. Alguns preferem ajudar com dinheiro. E se tempo é dinheiro, eu acho que está de bom tamanho, apesar de achar que o contato direto com quem precisa só faz aflorar valores corretos na sua existência.

O final de semana foi puxado. O cansaço vai cobrar seu preço durante a semana. Foram horas e horas de pé, atendendo uma multidão. Mas dentro da barraca, e ao meu redor, o que vi foram sorrisos, solidariedade, alegria por um trabalho bem feito e tenho certeza que todos que estavam lá colocaram suas cabeças nos travesseiros e dormiram como verdadeiros anjos.

Este post não é para enaltecer nada que faço. É para dar os merecidos créditos a meus amigos que estavam lá. Doutores, engenheiros, donas de casa, empresários, que largaram as famílias em casa e foram fritar hambúrgueres, montar sanduíches, preparar milk shakes e servir pessoas a troco de nada. Aos jovens voluntários, que se prontificaram a perder um fim de semana de agito, badalação e namoro para entregar lanches com um sorriso no rosto, além de levar bom humor à barraca, Foi bonito. Vocês tem meu agradecimento e meu coração. Mas acho que o verdadeiro pagamento pelo esforço vocês já ganharam, em seus íntimos.

Preciso dar menção especial a minha esposa, que gripada, com febre e dor de cabeça passou os dias pra lá e pra cá, organizando, preocupada, e sentindo-se realizada com o bom resultado que estávamos presenciando. Isso pra não falar no trabalho dela no resto do ano, quando o toda a dedicação não é tão visível assim.

E por último, ao meu filhote, que ficou de pé o domingo inteiro, sem tempo nem de ir ao banheiro, nem comer, com um sorriso de orelha a orelha, atendendo a todos como um mocinho. Mostrando uma maturidade que me surpreendeu desde o primeiro momento. Sem nenhuma reclamação. As vezes se poupa os filhos desses momentos, mas eu e minha esposa, que não fazemos isso, podemos falar com propriedade. Não é nenhuma poupança, as vezes é privação mesmo.

Eu é que não vou privar meu filho de sentir o que sinto. E depois desses dias cansativos, eu me sinto bem demais. Quero crer que ele divida conosco essa satisfação.

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