O fim de tudo

Eu quero te dizer que tudo suja.

O mais alvo dos tecidos, e a mais pura das almas. Um dia, a escuridão espirra, e mesmo que você não queira, ainda que seja nas barras das calças de nossa existência, você vai sair manchado.

Tudo quebra. O vaso mais resistente e a amizade mais forte. Há sempre uma altura, uma pressão, uma profundidade, uma distância que é mais do que suportamos. Mais do que damos conta.

Tudo enferruja. Nem o metal mais polido, nem os joelhos mais flexíveis resistem ao passar do tempo. Aquele que se manteve ereto e o que sempre se ajoelhou vão sempre se encontrar no meio do caminho entre um e outro. A vida não prefere nem os inflexíveis, nem os contorcionistas.

Tudo apaga. A estrela mais brilhante. A memória mais longínqua. Um dia, nem seus ossos saberão dizer que tipo de gente você foi. O mendigo e o rei viram parte do mesmo pó que cobre os livros da mais completa das bibliotecas, que no fim se tornará, também ela, adubo.

Tudo esgarça. A roupa mais nova e o ideal mais aferrado.Todos têm um grau em que fervem. Todos tem um ponto onde dói. Todos tem uma palavra proibida. Todos tem um limite.

Tudo morre, mesmo a mais antiga das sequoias, a mais lôngeva das tartarugas, o mais saudável dos homens. Nossos dias e ações estão contados, fadados a se esgotar, a dar tempo e espaço para que, quem vem depois de nós também use esse espaço, esse tempo, para poder morrer também.

Tentar não sujar, não quebrar, não apagar ou não morrer sempre foram as mais inúteis das ações. Você pode perder tempo lustrando os metais de sua vida. Mas por mais imaculados que eles estejam, seus reflexos sempre mostrarão uma face cada dia mais velha.

Você pode colar os cacos de todos os vasos que caírem em sua existência. Mas vai empilhá-los em algum porão que fica nos fundos da sua alma, e um dia, de tanto peso, as prateleiras vão ceder.

Você pode varrer toda a sujeira que encontrar pelo seu caminho, e pode achar que ele finalmente ficou limpo. Mas quando alguém te perguntar sobre a viagem, você vai perceber que só viu a vassoura.

Você pode serzir os joelhos de todas as roupas, mas deixará as canelas expostas ao tempo se crescer. E pode pisar nas bocas das calças se diminuir.

A vida é em vão. E ainda assim, cada um de nós tem que viver. Nem que seja pisando nos cacos, sujando as roupas, esquecendo as feridas, enferrujando no tempo. A gente tem que viver, nem que seja, um pouquinho por dia, morrendo.

2 thoughts on “O fim de tudo

  1. Tô aqui lendo e relendo seus textos, buscando um comentário que complemente, contrarie ou enriqueça uma ideia, uma definição ou um conceito. Não consigo. Tudo muito bom. Vai escrever bem assim lá em Macondo!

    • Ô, meu velho, eu queria é ter mais leitores como você.
      Mas você sabe que esse, sob muitos aspectos, é um dos textos que eu mais gosto. Mas nem todo mundo pega o que eu quis dizer…

      bjo procê.

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