O perigo do excesso de carisma

Ontem eu, minha esposa e meu filhos estávamos assistindo a um excelente documentário sobre Hitler e o Holocausto que estava passando na NatGeo, o “APOCALYPSE: THE RISE OF HITLER”.

Simplesmente impressionante. Não conhecia a história tão a fundo, e como ele é inteiro composto por filmagens reais, fica mais impactante ainda.

Tem certas coisas que incomodam a gente sem que saibamos exatamente o porque. É uma sensação estranha, que pega na boca do estômago.

Esse documentário me ajudou a compreender porque eu não gosto de políticos e homens públicos muito carismáticos. É claro que carisma é condição para qualquer político. Mas aquele EXCESSO, aquela vontade de parecer o salvador. Aquela necessidade de aplauso que alguns acalentam, tenho repelência.

Uma coisa é querer salvar o mundo. Outra, bem diferente, é querer que o mundo seja salvo DESDE QUE SEJA POR MIM.

Aquele tipo que fala aquilo que os mais desesperados querem ouvir. Que entrega soluções mágicas que parecem simples, que não forçam a sociedade a nenhuma reflexão, simplesmente usam a inércia e a “zona de conforto” como capim seco para se jogar uma bituca acesa de generalizações, preconceitos, polarizações perigosas. Em ambientes assim, com instituições fracas, esperança alta, a base do povo com poucas possibilidades e muita disposição para transferir o poder que tem para algum salvador da pátria, é sentar e observar o grande incêndio se formar.

Qualquer um que se apresente como detentor de muitas certezas, de muitas soluções mágicas, mesmo que pareçam lindas num primeiro momento, vai ganhar somente minha desconfiança.

Porque o mundo não é simples, nem fácil. É um lugar cheio de discrepâncias, dominado por um animal que está na primeira infância de sua evolução moral. Não gostamos de escutar verdades, gostamos é de escutar as NOSSAS verdades.

Hitler era um sujeito assim. Goebbels era outro. Cada um a sua maneira, queriam ser artistas. Rejeitados e nutridos por um complexo de inferioridade que os consumia, transformaram o ódio à humanidade em força. Falaram para o que há de pior em cada pessoa, num momento de grande fragilidade da Alemanha e da Europa. Usaram a podridão dos sistemas a seu favor, corromperam e torceram as estruturas políticas por dentro, como um ponto de ferrugem não tratado acaba derrubando uma torre.

É fácil olhar para o documentário hoje e se perguntar “como esse povo não via quem estava bem à sua frente? Como deixaram isso acontecer? Como não perceber o ódio no olhar de Hitler?”. Mais difícil é olhar à nossa volta agora e perceber esta mesma centelha no olhar de quem pede o nosso envolvimento.

Ninguém deveria ser merecedor deste tipo de adoração. Fama é uma coisa, e prefiro reservá-la de preferência para artistas. Celebridade deveria ser concedida a quem fez algo célebre. Mas adoração e idolatria não devem ser dirigidas a ninguém, nem político nem artista, nem religioso.

Quem acha que os fatos da segunda guerra mundial são coisas do passado, e que a humanidade aprendeu com seus erros é no mínimo ingênuo. A maior parte da humanidade é composta por gente morta de fome e ávida por carinho e atenção. Gente que se sente invisível, desassistida, largada. Um povo que pode ser vítima fácil de alguém que toque em suas cabeças, ponha-as no colo e chame-as de filhos. Uma vez que esse povo eleja alguém como pai ou mãe, farão de tudo para defendê-lo, como um animal selvagem de circo defende seu domador.

Aconteceu neste planeta. E depois de Hitler, já tornou a aconteceu localizadamente. Pode acontecer de novo.

Há uma frase que miseravelmente não vou me lembrar do autor, que diz: “Está cada vez mais difícil distinguir os homens dispostos, dos homens dispostos a tudo”. Cuidado com os homens dispostos a tudo.

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