Nas últimas semanas todo mundo vem acompanhando a verdadeira batalha campal promovida pelos taxistas contra o Uber, serviço de motoristas administrado via aplicativo para smartphones. Os taxistas alegam que o Uber fere a livre concorrência, pois seus motoristas não estão sujeitos às mesmas regras que eles. Não estão totalmente sem razão: um motorista de taxi precisa de licenças especiais para trabalhar, formação diferenciada comprovada por carteira, e precisa passar por um caminhão de intempéries para manter um ponto fazer parte de uma cooperativa.

Em suma: há o que discutir. Ok, concordamos nisso.

O que está errado é a forma usada para fazer a discussão acontecer. Os taxistas têm usado de ameaças, violência, baixaria e todo tipo de coação para colocar seu ponto de vista. Nenhuma voz de sensatez é ouvida do lado deles. Alguma tentativa de, antes de tudo, entender a razão de existir do aplicativo, e quais as diferenças entre os dois serviços.

O Uber não nasceu no Brasil, mas aqui, como lá fora, tem muita facilidade de florescer por um motivo bem simples: o serviço é melhor, mais atencioso, e regulado por quem mais interessa: os próprios usuários. Se você encontra um motorista do Uber muito bem avaliado, a chance é grande de que você vai ter uma experiência tranquila, sem surpresas desagradáveis, e isso é muito.

A discussão acalorada acabou gerando argumentos para outros setores, que nada tem a ver com transporte de passageiros, mas que tem muito a perder com novas modalidades de atendimentos via internet. O presidente do Grupo Telefonica, controladora da marca Vivo, disse em uma palestra que o Whatsapp é pura pirataria, que atinge a empresa, e que a Vivo jamais fará promoções em conjunto com eles. A Ancine, de olho no crescimento do Netflix, diz que o serviço de filmes via streaming precisa de um Marco Regulatório. A Associação Nacional de Livrarias exige que se regule o serviço da Amazon.

O que todas essas empresas têm em comum, fora do fato de estarem enfrentando concorrência de empresas digitais?

Todas oferecem serviços deficientes. Operam com métodos, serviços e operações com ambos os pés no passado. Outro ponto em comum: possuem capacidade de articulação política maior do que o de resposta pragmática. Trocando em miúdos: preferem fazer um lobby para tentar proibir seus desafetos de operarem do que agir internamente ou tentar buscar uma via de regulação via entendimento entre as partes.

Nosso UBERburocrático governo (com o perdão do trocadilho) é bastante permeável a esse tipo de pedido, especialmente quando vem de grandes contribuidores de campanhas (no caso da Vivo) ou de Sindicatos (como os Taxistas). Vai acabar cedendo, metendo o bedelho onde não precisa, para não agir onde seria necessário. E pouco a pouco, o empreendedorismo vai morrendo.

Do outro lado, o que as empresas digitais tem em comum? Com ou sem necessidade de maior regulação (o que talvez seja mais evidente no caso do Uber), todas são donas de serviços amplamente elogiados por seus usuários.

Ora, a Vivo faria muito mais à sua própria imagem e margens de lucro se cuidasse de oferecer um serviço decente para seus clientes. O Netflix tem sido a ÚNICA opção em muitos lugares onde a última locadora de filmes já foi pro saco. O preço dos livros nacionais é a maior propaganda da Amazon, e não exatamente a qualidade deles.

O empreendedor funciona olhando as brechas do sistema. Procurando os locais onde clientes são mal atendidos, e usando sua criatividade e força de vontade para preencher essas lacunas. Num país como o nosso, o que não falta é buraco, o que mais tem é gente insatisfeita com os serviços prestados. Me parece uma canalhice sem tamanho dificultar a vida de quem está oferecendo finalmente aquilo que o consumidor queria. É assim que a inovação caminha, é assim que novos negócios geram riqueza.

Para entrar no assunto do blog, que é design, é preciso fazer um elogio à classe, e um puxão de orelha.

O elogio é porque, ainda que por falta de organização, nunca reagimos com violência e burrice contra aqueles que nos ameaçam, e olha que não são poucos. Convivemos à mais tempo do que deveríamos com sobrinhos, que operam sem a menor ética, qualidade e compromisso. E mais recentemente com os sites de “concorrência criativa”, que detonam a profissão ao colocar todos para brigar por clientes fazendo leilão de seus trabalhos.

Não se enganem: mesmo com o encaminhamento da regulamentação da profissão, essa ameaça não cederá. Um profissional pode ser tosco o bastante para rifar seu trabalho onde quiser. Ainda é um direito constitucional ser burro. Fazer marcha de designers à Brasilia não vai funcionar. Não vamos encher uma Towner. Procurar todos os micreiros e seus clientes para bater neles nas ruas também não é boa opção.

O que podemos fazer é o que todos os exemplos citados neste artigo deveriam: melhorar, melhorar e melhorar nosso serviço. Nossa forma de atender. Modernizar nossos processos, encontrar novas fórmulas, que encantem nosso clientes e que não nos agridam enquanto profissionais.

E temos uma vantagem a nosso favor, que não está sendo usada: ao contrário dos taxistas, operadoras de telefonia e do cinema nacional, um bom designer não deixa a desejar ao seu concorrente micreiro. Muito pelo contrário, nosso problema é que nosso público nem sabe como falar conosco. Esse é o puxão de orelha.

 

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