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Categoria: Opinião

  • Escolhi uma profissão de merda. E agora?

    Escolhi uma profissão de merda. E agora?

    Em 2013, a Forbes soltou uma matéria mostrando as profissões menos rentáveis dos EUA. E lá estava o Design Gráfico, em plena terra do Tio Sam, com um dos 8 piores níveis salariais do país.

    Na época, o blog da Propósitto tinha o foco muito mais centrado no designer. Hoje, procuramos dar maior prioridade aos assuntos que interessam aos clientes. Escrevi esse artigo na tentativa de entender os porques do descaso do mercado com nossa profissão. E não poderia esperar um resultado tão forte.

    Em pouco tempo, mais de 150 mil leituras se acumularam, tornando-o o texto de maior sucesso do blog. E muitos anos depois, ele continuava a ter tração de ferramentas de busca. Prova de que haviam muitos designers correndo atrás das mesmas respostas.

    Agora, no mês em que a Propósitto completa 10 anos de existência, resolvi trazê-lo de volta, e talvez voltar a falar um pouco com os designers. Porque de lá para cá, algumas coisas mudaram, algumas para melhor, muitas para pior. Como está a vida do designer hoje?

    Resolvi escrever este texto para tentar trazer a discussão para outros focos, e ligar pontos que ficam desconexos. De um modo ou de outro, a mudança desse panorama passa por discussões sérias, onde cada lado vai ter que apresentar argumentos sólidos para convencer o outro. Porque, indo cada um para um lado, como está, não iremos a parte alguma. Eis o que penso:

    1 – Se você comprar esse lixo, ele é todo seu

    Vejamos. A pesquisa diz que estamos na base da cadeia alimentar. Somos devorados por todos. Estamos entre os primeiros a ser descartados quando a água bate nos digníssimos traseiros de nossos empregadores.

    Existe um lado não explorado na matéria, que tem a ver com outra matéria que eu li, semanas atrás. Essa aqui. Ela dá conta de que milhares de pessoas aportando no mercado de trabalho atual tem procurado as áreas da chamada “Economia Criativa”. Áreas que teoricamente são “excitantes”, “vibrantes”, que têm menos regras de conduta, com horários mais flexíveis, em que você pode ser mais você. Setores como games, software, audiovisual, moda, editoração e mídia, e é claro, DESIGN.

    Isso transformou o setor numa certa meca, um local de sonhos, onde as empresas mais parecem clubes, cheias de gente interessante, inteligente, com valores pessoais tão grandes… E dura, sem grana.

    É preciso que se saiba, que estamos entre as áreas mais demandadas da economia atual. O design exerce um papel cada vez maior da escolha de compra do consumidor. Em alguns casos, é o fator central. Milhões e milhões de dólares são feitos sobre o trabalho de valorosos designers.

    Mas o sonho, dizem, é trabalhar por prazer. Bom, eu tenho algo a dizer:

    2 – Trabalhe por grana

    Amigos meus de longa data, profissionais competentes, com portfólios bem estruturados me dizem que o mercado não está pra brincadeira. Que um diretor de arte num estúdio de médio porte ganha por volta de R$ 3.000,00, bruto (e de 2013 para cá, acreditem, isso não mudou, nem mesmo se atualizou). E para merecer esse salário, ele vai ter que dominar o pacote master Adobe, manjar de HTML, CSS, PHP, arranhar um ASP, se virar num 3D Max e saber fazer vinhetas animadas pra vídeo.

    Minha reação quanto a isso. Para mim, não. Eu não dirijo arte por R$ 3.000,00. Antes disso, faço um curso de torneiro mecânico, uma profissão que não exige muito da minha criatividade, mas que paga melhor do que isso, e nas horas vagas eu pinto quadros, faço histórias em quadrinhos, aprendo a tocar um instrumento e mato meu desejo por realização criativa.

    É preciso aprender a dizer não. E isso é mais difícil do que se espera.

    Afinal, como deixar passar aquele job de logo para uma Surf Shop que caiu no seu colo, mas que o dono agora não tem grana pra investir? Como recusar aquela ilustra engraçadinha que vai sair numa revista mais ou menos bem-lida? Como deixar de pegar o catálogo só porque o dono da empresa quer que você também tire fotos da linha de produtos inteira dele, mesmo você explicando que só tem a câmera do celular? E como correr o risco de perder uma concorrência só porque você vai perder duas noites num “rascunho” simples que todos os outros designers vão fazer, para o cliente escolher qual gosta mais?

    É fácil dizer. Mas na hora, o medo da dispensa leva muitos a colocar os rabos entre as perninhas, mandar um “ok”, e o pior de tudo, ainda achar algum prazer na experiência do estupro.

    Seu cliente precisa saber que você trabalha por dinheiro, assim como ele. Que você está comprometido com o sucesso daquele projeto para que ele ganhe dinheiro, e te procure novamente para que você faça sua mágica. É simples assim. Você precisa cobrar o suficiente para que, se um dia tiver seu dia completamente lotado de trabalhos, esteja bem de vida. O quão bem de vida? Isso é contigo. Eu tenho meus sonhos, e as duas únicas ferramentas que tenho para realizá-los são meu trabalho, e a chance de acertar sozinho na mega-sena.

    3 – Projete a imagem de si que você quer que os outros vejam

    Saiba que seu cliente tem uma visão de você. E que você o ajudou a construir essa visão.

    Na cabeça dele, um advogado, um engenheiro ou um médico muito bem-sucedidos andam de BMW, tem casas na praia e viajam para a Europa com a família nas férias. Um designer muito bem sucedido tem um iPhone, dirige um Kwid e usa roupas “muito loucas”.

    Culpa sua.

    São os valores que você mostrou para seu chefe, para seus amigos, sua rede. Você fala disso, veste isso, dirige isso, e parece não ter as preocupações que todos têm em relação ao futuro. “A vida até parece uma festa”, diriam os Titãs. Você tenta passar para o mundo que nasceu predestinado, com um dom, e que por isso não dá trabalho fazer o que faz. É tranquilo, com um pé nas costas. Bom, ninguém valoriza quem trabalha na moleza. Você sente muito prazer em sua profissão, guarde-o para si. Até ator pornô diz que o trabalho dele é bem duro e técnico.

    Todo profissional quer ser respeitado. O modo como cada um batalha para conseguir esse respeito e proteger seu meio de vida é que difere.

    Alguns designers que tenho visto (e alguns são muito bons), tentando quebrar essa visão, tem usado um approach absurdamente técnico no exercício do design. Explicam grids, pixels, minúcias tipográficas, tendências com uma desenvoltura que eu poucas vezes vi. É uma saída. O cliente e o mercado passam a ver design como uma profissão, não como estilo de vida. Mas não sou completamente a favor.

    Na minha opinião, deveriam estar se esmerando na arte de mostrar para o cliente o quanto o investimento dele RETORNA ao seu bolso. O quanto ele PRECISA investir em design, antes que o concorrente o faça, ou faça melhor, e o deixe chupando o dedo. O quanto o design vale a pena, e a quantidade de gente que não entende patavina disso tudo. O lado técnico estará lá, mas embutido dentro da entrega. Caso contrário, o risco é o cliente achar que tudo isso é muito complicado para ele e deixar para seu sobrinho, que não lhe dá essas dores de cabeça.

    Não sei quem foi que disse, que, o mundo seria diferente se todos soubessem o que se passa dentro de um centro cirúrgico ou numa fábrica de linguiça. No fundo, nem tudo o cliente tem que saber. E dissecar os tintins por tintins da área para todos é no máximo um bom exercício acadêmico, que surte um grande efeito na pagação de pau entre outros designers.

    4 – Regulamentação?

    Estamos convivendo com uma ameaça(?) de regulamentação desde que eu me formei, e olha que eu fiz paste-up.

    Eu já fui a favor, já fui contra e muito pelo o contrário.

    Hoje, eu acho que é um caminho natural, como profissão, de se ter alguma regulamentação. O difícil é achar que isso ajuda a mudar qualquer coisa desse panorama. Ok, vamos ter uma lei que diz que não se poderá pagar menos que um salário mínimo para um estagiário. E daí? Que precisará de diploma para exercer (será?) mas e daí?

    Porém, por mais sentido que possa fazer, a impressão que dá depois de tantos anos é que não vai sair. Não vai porque não é prioridade para ninguém. Não vai porque não conseguimos fazer dessa uma pauta relevante, e não vai porque nesse momento, o mundo tem mais com o que se preocupar.

    Se o mercado não valoriza uma profissão por si só, uma lei vai fazer isso?

    Alguém acha que a Regulamentação vai obrigar um patrão pagar R$ 10.000 para um diretor de arte?

    Que vai impedir que os bróder fiquem trampando até as 3 da matina para entregar layout a troco de pizza (mesmo que na lei seja proibido, mesmo sem regulamentação nenhuma)?

    Que um cliente pague a um designer o suficiente para que ele possa viver dignamente e dedique a quantidade de horas necessária para que ele lhe entregue um trabalho realmente de primeira?

    Sempre gostam de nos comparar com as leis de médicos, advogados e engenheiros (eu mesmo fiz isso parágrafos acima), profissões ultra-regulamentadas, que tem entidades de classe representativas. Mas precisamos entender certas verdades do mercado.

    Aceite: o mundo sempre vai precisar mais de médicos, engenheiros e advogados. Se fossemos atacados por alienígenas hoje, iríamos precisar especialmente dos dois primeiros. É do jogo.

    Mas isso não quer dizer que precisemos ganhar menos do que a secretária de um médico. Porque no frigir dos ovos, médicos, advogados e engenheiros vão ao supermercado, e resolvem comprar um produto em detrimento do outro porque a embalagem ou a marca lhe passou mais confiança. Compram carros porque são mais bonitos. Vestem roupas que combinam com estilos de vida que um designer ajudou a criar. Portanto, enquanto os aliens não chegam, você é sim, parte importante da sociedade em que vivemos, e merece ser pago pelo que faz.

    5 – O que ninguém falou

    Junto da lista da Forbes, há uma outra matéria (essa). Que diz que as profissões ligadas a arte e ciências estão entre as menos bem pagas nos EUA.

    Se você ler, vai ver que eles colocam a faixa dos salários. A frase que me chamou a atenção é essa: “Quando conseguem um emprego, o salário médio é de apenas US$ 28 mil por ano, em comparação com ganhos iniciais de um engenheiro mecânico, de US$ 58 mil anuais”.

    Faça as contas. US$ 28 mil por ano dá, em valores de hoje, algo em torno de R$ 14.000 mensais, para um iniciante. O que mostra que aqui, em terras tupiniquins vamos ter que melhorar MUITO para ficar ruim igual lá.

    Ou seja: se você não quer abraçar a carreira de torneiro mecânico, e melhor começar a fazer algo para mudar.

  • Pequenas empresas: a Quarentena pode revelar sua força. E sua desgraça também

    Pequenas empresas: a Quarentena pode revelar sua força. E sua desgraça também

    Uma das primeiras tendências da Pandemia, que vêm emergindo com alguma unanimidade entre analistas, é que os hábitos de consumo podem dar uma guinada, indo do global para o local. 

    No meio de tanto horror, isso não deixa de ser uma notícia boa. Ao invés de grandes redes, ao invés de enfrentar o rolo compressor dos grandes hipermercados e atacadistas, o comerciante e produtor podem vir a ter uma importância diferenciada.

    As frutas fora de época, os produtos sem procedência definida, a competição quase sempre desigual passam a dar lugar a uma valorização do produto local, da agropecuária sazonal, da oferta de frescor ao invés de variedade, e da simples possibilidade de ajudar a economia local são argumentos fortes o bastante para mover a opinião do público.

    A The Economist, tida como a bíblia de 9 entre 10 financistas do mundo, já taxa diretamente na capa da semana: “Adeus, Globalização”. Ou seja, preparem-se, o foco vai voltar pro local. 

    Em São Roque, cidade onde vivo, os comerciantes rapidamente se organizaram em uma campanha singela. Colocaram faixas em seus estabelecimentos pedindo a preferência no consumo. Louvável, correto e dentro da tendência. 

    Até a página 13.

    Quando o cliente resolve seguir o conselho dos empresários, e consumir deles, os problemas começam, e não são poucos. A compra de produtos se torna um verdadeiro martírio. Os problemas revelam uma classe empresarial que pouco se preparou ou evoluiu nos últimos anos. Senão, vejamos:

    Precos:

    A primeira impressão é fatal. Ali é o primeiro momento da verdade que um negócio vai enfrentar, e nisso vai de mal a pior. Quase em uma totalidade, os empresários aumentaram seus preços, indo contra qualquer lei de mercado que eu conheça. Menos demanda deveria significar menores preços, não o contrário. Numa tentativa de talvez reaver o prejuízo nas vendas aumentando a margem, o empresário acaba punindo o elo mais fraco dessa corrente: o cliente. 

    Consequência: antipatia por parte do seu cliente. Ele pode estar preso no momento, sem capacidade e mobilidade de buscar seu concorrente. Mas a pandemia vai passar, e ele vai ser lembrar da sua marca, e vai ser na imagem de um avarento. 

    Remédio: Por mais duro que isso possa parecer, é hora do empresário trabalhar para empatar. Talvez até perder um pouco. Seu cliente está passando pelo mesmo que você. Se aproveitar desta situação para alguma vantagem é completamente contraproducente e danoso para sua marca. 

    Atendimento:

    As lojas estão fechadas, operando com pessoas dentro. Os telefones não atendem. As pessoas não sabem o que têm ou não têm no estoque. Nas lojas que têm autorização para abrir, não há padrão nem arquitetura de atendimento. Em um dos locais, um funcionário jogou de longe um produto para minha esposa, e pediu que ela jogasse o cartão para pagamento, e gritasse a senha para ele (!). 

    Os funcionários estão com mais medo que os clientes. 

    Consequência: se seu cliente não se sente seguro na relação com sua marca em um tempo de crise, não vai se sentir depois. 

    Remédio: Crie uma rotina de trabalho segura para seus clientes e funcionário. Redesenhe a arquitetura de atendimento. Remodele sua loja. TREINE. Esteja do lado de todo atendimento. Quando você atende bem uma pessoa que está em um momento frágil, ela vai se lembrar para o resto da vida. Isso é oportunidade. 

    Whatsapp:

    Muitas empresas estão fazendo atendimento via Whats. Mas você faz uma pergunta sobre um produto, e recebe uma lista interminável de fotos que não pediu, sem preço, e negativas à respeito do produto que pediu. 

    Além disso, uma constrangedora sequência de erros de português. 

    Consequência: sua empresa é percebida como sem tecnologia, confusa, bagunçada e improvisada. Os erros de português, apesar de serem um problema crônico do Brasil, pegam muito mal. Quando seu funcionário fala errado, é sua empresa que está falando errado. 

    Remédio: o ideal seria algum sistema automatizado, algum tipo de e-commerce para suprir essa falta. Na falta disso, e até porque sabemos que os investimentos podem ser complicados, pelo menos selecione os funcionários que melhor escrevem, e deixe os outros para buscar estoque. Crie um catálogo funcional, que apresente preços e produtos que são importantes, e não aquilo que você quer vender. 

    Conclusão:

    O atendimento nas pequenas cidades brasileiras ainda parece estar no século 19. O que resiste é o conceito de balconista. Alguém que está ali para buscar produto, para responder preço, para dizer se tem ou não tem. 

    Quando muito, o empresário migrou para um sistema de vendedor, em que o cara sai de lá de dentro da loja para te abordar na vitrine e tentar te empurrar produtos. 

    Vai ser dura a transição direto pro século 21, onde o vendedor mudou para algo muito mais parecido com um consultor, alguém treinado para entender o que vende e pra quem vende. 

    Do outro lado, é urgente que o empresário entenda que sua marca não é seu logotipo. Não é seu produto. Não é sua vitrine. Não é sua fachada.

    Sua marca é a soma de tudo isso, e qual o pedaço da promessa que ela cumpre para seu público. É a percepção que ela emana, em quem tem contato com ela e mesmo com quem ainda não teve. 

    A Pandemia vai apresentar oportunidade para quem abraçar essa ideia, e sobreviver. Muitos vão ficar pelo caminho. E muitos mais vão surgir do zero, e de só se estabelecerão aqueles que tiverem esses valores na ponta da língua. 

  • Cuide da sua marca desde o começo. Os riscos são grandes.

    Cuide da sua marca desde o começo. Os riscos são grandes.

    Eu poderia usar dados fictícios, mas aconteceu comigo, essa semana.

    Há um tempo, uma conhecida me chamou para uma reunião, pois estava lançando um novo negócio, que julgava promissor. Queria que eu criasse a Identidade Corporativa para ela. Por razões que não vêm ao caso, não deu certo. Na verdade, nem chegamos a nos encontrar.

    Semanas depois, em minha rede social, a vi comemorando o lançamento de sua marca, que outro designer fez. Normal. Concorrência é uma coisa boa, que nos faz melhorar como profissionais. Tenho ótimo relacionamento com meus concorrentes na cidade, e admiro de verdade o trabalho de alguns. Quando uma empresa os procura, sei que o mercado, e a cidade, e o próprio ambiente de negócios da cidade vai melhorar. E isso é bom para mim.

    Portanto, perder concorrências é do jogo.

    Coceira na mente

    Mas aquele logotipo apresentado por ela estava me incomodando. Não porque fosse feio, na verdade era até bem feito. Mas porque eu já o havia visto antes, em algum lugar.

    Designers têm seus meios de descobrir as coisas. Salvei o logo dela, fiz uma busca rápida e bingo. Achei o logo. Em um banco de imagens, disponível para compra. Exatamente o mesmo. Custava R$ 2,90.

    Bancos de imagens são extremamente úteis. Designers os usam por N motivos. Para resolver uma foto que precisam com qualidade. Uma ilustração de última hora. Ou no máximo, um símbolo para um evento rápido, que aconteça em um período curto de tempo.

    Mas escolher um símbolo de um banco de imagens como logotipo de sua empresa é algo bastante arriscado. Me explico: se eu fosse desonesto, poderia comprar o mesmo símbolo, escrever qualquer coisa que quisesse (mesmo que fosse algo depreciativo), e soltar nas minha redes sociais. A dona da empresa não poderia reclamar, nem me processar. Ao comprar a imagem, eu adquiri junto os direitos de uso dela. São direitos compartilhados, sem nenhuma reserva.

    Não sei quanto o profissional cobrou da minha conhecida. Mas se custou R$ 100,00  já está caro. Afinal, ele pagou R$ 2,90, nem houve criação.

    Valor versus preço

    Construir uma identidade não é uma coisa corriqueira. Construir uma marca é ainda mais complexo. Requer muitas horas de dedicação, de pesquisa, de tentativa e erro. E o resultado tem que ser uma peça única. Porque sua empresa é única. Sua marca têm características únicas. E você quer que ela se destaque numa multidão de marcas.

    Descobrir que outra empresa está estampando um símbolo igual ao seu é um verdadeiro desastre. Porque, ou a outra empresa fará um trabalho melhor que o seu, e te eclipsará, ou fará um trabalho pior que o seu, e manchará seu nome.

    Mas empresários não entendem (e não precisam entender) de branding. De forma que nessas horas, a única coisa que pode conferir segurança ao processo é o currículo e a reputação do designer que o atende. E profissionais mais gabaritados custam mais caro, e ponto.

    Comparem o custo de um profissional e o valor que sua marca têm para sua empresa. Tenho certeza que até o profissional mais completo vai ficar barato na comparação.

  • Clientes diferentes X Valores diferentes. É ético?

    Clientes diferentes X Valores diferentes. É ético?

    O post sobre o caso We do Logos gerou várias respostas, comentários de todos os tipos. Um deles me chamou a atenção por tratar de um assunto complicado, delicado, e pouco explicado para nossos clientes. Porque o valor de um trabalho pode variar de um cliente para outro. Achei que a pergunta era tão boa que merecia uma resposta mais detalhada.

    O Léo, me deixou essa mensagem, que reproduzo aqui:

    Mas eu gostaria de comentar um fator que acontece muito mais na sua área do que na minha: O preço varia conforme o cliente. Um exemplo rápido: Preciso de um logo para um website que vou lançar. Um designer faz a reunião comigo, tem o seu momento de criação, etc, etc… me cobra, por exemplo: R$ 2.000,00. Mas se o cliente não fosse eu, fosse Nike, a Coca-Cola, a Apple, a Sony, a Rede Globo, o Governo Federal ou a Johnson & Johnson? Será que seria cobrado o mesmo preço que foi cobrado de mim? A realidade do mercado mostra que NÃO na maioria dos casos. E isso é correto? O custo mudou porque o cliente tem mais dinheiro? Isso é ético?

    Léo, primeiramente, obrigado pela visita.

    Na verdade, para responder essa pergunta, vamos ter que começar diferenciando duas coisas: CUSTO e VALOR.

    Pensando estritamente na criação de um logotipo, o custo de produção não difere em quase nada entre uma peça criada para a Nike ou para a Padaria da esquina. Mas pense por um instante: quanto VALE o logo da Nike? O quanto a percepção do cliente sobre um produto pode mudar somente por ter estampado a marca num produto? O logo da Nike vale milhões. O da Padaria tem seu valor, mas comparativamente, muito menor. As vezes, grandes marcas nascem quando a empresa ainda é pequena. Nesse caso, alguns trabalhos de identidade podem sim, ter ficado com custos bem abaixo dos que se vê normalmente.

    Outra coisa que deve se levar em conta. O trabalho real envolvido em cada um dos casos.

    Quando se faz um custo para uma pequena ou média empresa, leva-se em conta o número de peças a serem criadas, as reuniões, estima-se as horas de trabalho que serão dispendidas no processo, e chega-se num valor. Normalmente, num prazo de um a três meses, é possível se realizar um bom trabalho de identidade corporativa, que atenda os requisitos da empresa e que cubra as necessidades do designer.

    No caso de mega-corporações, nada é tão simples. As reuniões são intermináveis. Dezenas de pessoas vão produzir peças, e outras dezenas vão dar palpites sobre elas. O número de aplicações é gigante. Haverá retrabalho e re-retrabalho. Pesquisas de mercado serão feitas. O trabalho de branding, de marketing, de laboratório é muito mais complexo quando se está lidando com grandes volumes de dinheiro, e claro, público. Como dizia um professor meu, é tanto trabalho de branding que o logotipo sai quase de brinde.

    Normalmente, agências e estúdios muito conceituados trabalham esse tipo de conta. E a responsabilidade é muito grande. Você definitivamente não quer ser a pessoa que fez despencar em 1% a venda de margarinas apenas porque fez uma nova embalagem que não impactou bem no público. Porque 1% no caso de gigantes alimentícios significam milhões de reais. E esse é outro motivo que faz os valores serem tão altos. Quando se está trabalhando com um cliente monstruosamente grande, assim também é a influência dele em sua carreira. A cada trabalho para grandes corporações, o estúdio está empenhando todo seu prestígio.

    Entre a padaria e a Nike existe uma miríade de tamanhos, formas e qualidades de empresas. Compor o preço para cada uma delas é uma equação complicada e nem sempre 100% matemática. Mas que deve ser feita, para não comprometer nem a padaria, nem a Nike, e nem o stúdio que está aceitando o trabalho.

    Mas há distorções, claro. E geralmente elas aparecem quando se contrata o estúdio errado, baseado mais na grife que ele representa do que em seu portfólio real. E então, não é incomum vermos identidades ridiculas que custaram milhões. Mas pode ter certeza, que por trás desses contratos estranhos, o que está pesando no bolso do cliente não é o design. É principalmente a política, a má gestão.

    Na minha opinião, quando você me pergunta se é ético cobrar valores diferentes para clientes diferentes, minha resposta é sim.

    Obrigado pela visita, qualquer dúvida estou a disposição.

  • Como o mercado vê o Designer

    Como o mercado vê o Designer

    Não acredite em mim. Acredite no google.

    O Google, além do uso óbvio para se encontrar qualquer coisa na face da terra, pode servir como um excelente termômetro do mercado. Eu vinha há algum tempo encafifado, procurando um modo de exemplificar como a sociedade vê os designers, e como isso influencia nos nossos resultados.

    Faça um exercício comigo. Vá até o Google Imagens, e digite: administrador de empresas.

    Sei que os resultados podem mudar de um dia pro outro. Mas o que você vai obter é mais ou menos isso (clique, que elas aumentam):

    Jovens, adultos, profissionais, poder, ternos e tailleurs.

    Agora busque “médico” .

    Senhores, serviço, seriedade, austeridade, equipe, confiança.

    Para continuar, agora “engenheiros”.

    Capacetes, obras, papéis enrolados, sucesso, trabalho.

    E por fim. Busque: “designer”.

    Eu não sei o que vocês vêem. Apesar de haver uma ou duas imagens boas, o que eu vejo é: legal, bacaninha, engraçadinho, espertinho, descolado. E sem nenhuma foto de um profissional.

    É assim que o mundo te vê.

    Há problema nisso? Bom, eu vejo.

    Como um profissional que cuida rotineiramente de marcas, você deve saber o que um posicionamento errado faz com um produto. O quanto ele pode ajudar ou atrapalhar. A imagem errada pode afundar um bom produto, sabemos disso, passamos por isso dia-a-dia. Mas não nos enxergamos como produtos. Não sabemos nos vender.

    O que está intrínseco nessa maneira que as profissões são percebidas fica totalmente claro quando qualquer um desses profissionais é contratado, seja por um cliente, seja por uma empresa. Quando uma empresa abre um cargo de Diretor Admnistrativo, está implícito que ele deve pagar um salário compatível com a imagem que o mercado faz de um administrador de empresas. No carro, na casa, nas viagens e na continuidade da educação que um administrador projeta. Mesma coisa com um engenheiro, ou com um médico.

    Não estou aqui comparando as profissões, e sim a percepção do mercado em relação a elas. É claro que um médico é mais importante que um designer na sociedade, mas o fato é que todos consomem muito mais design do que medicina ao andar por uma rua, ao ligar a TV ou ir ao supermercado. O mundo está inundado de design, até nas caixas de remédio.

    E qual seria a imagem que o mundo tem de nós? Bom, eu fui atrás de amigos, fiz uma pequena pesquisa informal, sem dados para sustentar o que vou expor, por isso sinta-se livre para achar tudo que direi uma perda de tempo.

    De uma maneira geral, os designer são vistos como sujeitos jovens, meio avoados, que usam roupas “bacanas”, alargadores nas orelhas e trabalham de tênis. São engraçados, divertidos e felizes. Moram em apartamentos alugados, de um dormitório, com brinquedinhos legais nas estantes, e dirigem algo como um Peugeot 206 ou um Uno Novo.

    Ninguém lembra se designer tem ou não filhos, ou se faz pós-graduação, se viaja com a familia, se tem casa de campo. Coisas que são normais para outras profissões.

    E como isso nos afeta?

    1 – Na hora de cobrar pelo trabalho. 

    É o maior impacto. Seu cliente vai chorar, negociar muito mais do que o normal. E mesmo depois que ele conseguir um super desconto, vai cobrá-lo mais fortemente do que cobraria outro profissional. Vai se sentir no direito de usar palavras que não usaria com um médico. Vai achar um absurdo ter que assinar um contrato que seria natural com um advogado.

    Clientes de designers acham normal pedir um trabalho e depois sumir. Pagar uma prestação e esquecer as outras. Acham desculpável dizer “eu fiquei sem tempo de revisar” por três meses. São coisas que não acontecem com frequência em outras áreas. Isso porque, no fundo, acham que você “é o cara que faz uns desenhos”. Não um profissional.

    2 – Na hora de te contratar.

    Pegue uma tabela de salários. Um diretor administrativo ganha facilmente até R$ 40 mil. Um diretor de marketing R$ 30 mil. E um diretor de arte (salvo os que vivem no mundo à parte das grandes agências) muito bem sucedido, ganhará R$ 8 mil. Mas a grande e avassaladora maioria trabalhará por no máximo três mil reais. E olhe lá. Quando uma linha de produtos for bem sucedida, darão parabéns ao marketing, nunca ao departamento de arte. Aliás, o próprio nome “departamento de arte” já é revelador. Parece que, ao entrar na sala, o cliente encontrará dezenas de sósias do Salvador Dali sujos de tinta. Deveria ser “Departamento de Design, Comunicação e Criação”. Assim mesmo, com criação por último.

    O RH de uma empresa nem pensa em contratar grandes profissionais para seu setor. O padrão é um profissional razoável, tomando conta de hordas de recém-formados e estagiários que farão o serviço pesado com sorrisos nos rostos e um fone na orelha.

    Trabalho de fim de semana? Horas extras? Promoções? Essas coisas raramente passam pela cabeça do contratante. Na ideia que ele faz de um designer, isso é inerente à profissão, e desde que se pague uma pizza, está tudo beleza, porque nós nos estamos antes de tudo, nos divertindo.

    3 – Na hora de viver sua vida

    Acompanho jovens e promissores designers ávidos por colocar as mãos em grandes trabalhos aceitarem condições desumanas de trabalho apenas para terem a oportunidade de “fazer uma capa”, ou um “logo de surfwear”, coisas que são muito “bacanas” no inconsciente coletivo dos designers. Bem, caros, isso raramente leva comida a mesa, ou paga a escola do seu filho.

    Mais cedo ou mais tarde você poderá querer comprar aquela casa, ou aquele carro. E vai precisar levar comprovações de renda, carteiras assinadas, extratos de banco e todo o pacote que vem junto. E aí você vai sentir essa diferença.

    Não há problema em gostar do que se faz. Puxa, na verdade é uma benção.

    Mas quando o mercado traduz esse gosto como pura diversão, algo está errado. E vai se voltar contra você.

    Como mudar o panorâma?

    Essa é uma daquelas coisas que é mais fácil falar do que fazer. Mas é simples.

    A primeira coisa é aprender a dizer não. Parece óbvio, mas a verdade é que certos nãos nos libertam. Desenhe uma linha imaginária no chão, e diga “daqui não passo. É o máximo que aguento”.

    Não é necessário mandar apagar a laser as tatoos, ou costurar os buracos dos piercings. Mas é sim, necessário saber se portar numa reunião com diretores e presidentes. Saber falar um português (quase) perfeito, sem gírias ou terminologias que só designers entendem.

    Precisa sair do gueto. Aquele gueto de luxo, onde se anda só com designers, publicitários, redatores e criativos. Há um mundo de pessoas interessantes, negócios inovadores e soluções que você não vai encontrar dentro da caixa onde está.

    Veja a si mesmo como um produto. Você consegue desenhar uma caixa que faz as pessoas quererem comprar sabonete de farelo de aveia, mas não consegue descobrir porque as pessoas não querem comprá-lo? Pense.

    É um trabalho árduo. Nossa profissão é nova, e temos um caminho longo pela frente. O que me assusta é que ás vezes tenho a sensação de que estamos nos distanciando do ideal, não chegando lentamente a ele.

    Tenha a certeza de que, por menor que seja sua mudança de atitude, ela ajuda. Pouco a pouco, podemos fazer um novo horizonte para designers no país, sem precisar de sindicalistas ou políticos.

  • Internet melhora o trânsito?

    Internet melhora o trânsito?

    O que internet mais barata e de melhor qualidade tem a ver com sustentabilidade? Mais do que pensamos à primeira vista.

    O governo e as grandes empresas guardam consigo soluções para problemas que atingem a eles próprios, e insistem em ações simplórias, repetitivoas, sempre com base na lei no menor esforço.

    Acabamos de ter a notícia que o Ministério da Fazenda vai novamente baixar a alíquota de carros para estimular sua venda. Não sei mais a eficácia de uma medida desse tipo. Quem já se endividou para comprar carro no ano passado vai fazer de novo? Tem tanta gente sem carro assim?

    O estímulo em si não é uma medida ruim. Mas o governo pode escolher o que vai apoiar. Por que não apoiar, a exemplo de outros países, a produção de carros  bem menores, de dois lugares, com motores muito econômicos e pouco poluentes, e com altas doses de inovação? De preferência com tecnologia criada no Brasil!

    Estaríamos andando na direção certa em vários quesitos. Menos poluição, diminuição de engarrafamentos, pessoas trocando motos por carros (menos mortes) e estímulos a criadores e produtos brasileiros. Sem construir um centímetro de metrô, sem desapropriar uma casa. Isso porque nem falei carros elétricos. Lógico, isso atrapalharia a margem de lucro pornográfica das montadoras, e a Petrobrás não tem muito interesse em carros econômicos.

    O problema é não enxergar além do próprio nariz, não ver conexões em pontos que parecem distantes, mas estão interligados.

    Outro exemplo. As indústrias fonográficas e de entretenimento gastam fortunas tentando coibir a pirataria. A face mais visível e mais impactante dessa modalidade são as banquinhas de filmes e CDs que estão por todo o lugar na cidade. Sujam as ruas, ocupam espaço, agridem visualmente.

    A solução mais utilizada é o uso da força policial, levando àquela famosa correria no centro da cidade, enfrentamentos constantes, e que no fim, não vale de nada. No dia seguinte as bancas estão todas lá.

    A solução para esse problema está a milhas de lá, na casa de todo mundo, dentro das operadoras de telefone, que comandam a oferta do serviço (porco) de internet que o Brasil tem.

    A pessoa que compra filmes piratas, faz por motivos bem simples. Oferta fácil e abundante, daquilo que ele quer ver, com lançamentos antes mesmo do que pelos meios oficiais. Preços bons (um DVD pirata é mais barato do que o aluguel do mesmo produto em uma locadora, e ele nem tem que devolver).

    Se o cidadão tivesse uma internet barata e de boa qualidade, e com o estímulo correto, com certeza uma boa parcela trocaria a compra desses DVDs e CDs por assinaturas de serviços de locação online, que já não são muito caros, mas que, com escala, poderiam ser ainda mais baratos. Por que é mais pratico, mais limpo, e porque no fundo, todos querem fazer a coisa certa.

    Mas o que temos é o contrário. Nossa internet, nosso 3G é um dos piores e mais caros do mundo. As agências reguladoras, que poderiam fazer a pressão pra mudar o cenário, são meros cabides de empregos. Por outro lado, para alguém adquirir um filme original, vai pagar os olhos da cara. A indústria fonográfica insiste em valores abusivos. E a experiência para o usuário é muito próxima da sua versão pirateada.

    Ou seja, como no caso das drogas, enquanto houver demanda, vai haver oferta.

    Aliás, o caso da internet poderia ajudar também em questões de mobilidade urbana e sustentabilidade. Com um serviço rápido e confiável, quantas pessoas poderiam trabalhar em sistema home-office, mesmo que em alguns dias da semana?

    O que o design tem a ver com tudo isso?

    Muito. Penso que essas soluções não aparecem porque o olhar daqueles que estão ocupando os cargos que decidem esses assuntos não é treinado para ver o que um designer vê.

    A verdade é que as reuniões onde esse tipo de assunto é decidido são formadas por profissionais com visões muito similares. Não há vez para a voz dissonante, para as soluções diferentes.

    As cúpulas administrativas das organizações ainda não dão vez para os criativos, especialmente aqui no Brasil. E elas próprias sofrem os efeitos dessa escolha. Companhias que abriram os olhos para essa realidade estão lucrando com isso. Não precisamos nem citar a Apple, que é o símbolo máximo dessa atitude.

    Empresas como a Ideo são contratadas a peso de ouro para repensar produtos e processos, no chamado “Design Thinking”. O trabalho deles é sensacional. Mas para várias organizações, nem seria necessário. Afinal de contas, design é, no aspecto final, “projeto”. Ter um bom designer na mesa (e deixá-lo falar), durante uma reunião que não tem nada a ver com design, pode ter um resultado surpreendente, se sua empresa mantiver a cabeça aberta.

    Mas aí, preciso ser sincero, seu sobrinho que mexe no Corel vai ajudar pouco.

  • A Apple na Encruzilhada

    A Apple na Encruzilhada

    Quando se fala em gestão de marca, algumas empresas vêm sempre na dianteira. Goste ou não goste da marca, qualquer profissional da área tem que reconhecer que, de uns tempos para cá, a Apple tem sido impecável na condução de sua marca. Não é a toa que chegou onde chegou.

    Boa parte desse sucesso se deve ao perfeccionismo e dedicação quase insanos de Steve Jobs. Com ele, a Apple imprimiu na mente de milhões de pessoas uma imagem de empresa inovadora, que produz produtos bonitos, simples e duráveis. Os conceitos de estética e usabilidade de Jobs estiveram impressos profundamente em cada peça dos produtos da empresa. Mais do que isso. Ele conseguiu criar uma linguagem para apresentar esses produtos. Seus keynotes se transformaram em acontecimentos relevantes para toda a indústria.

    Cada vez que Steve Jobs anunciava que subiria ao palco para fazer algum anúncio, fãs, repórteres e a concorrência paravam de respirar. Qual seria o coelho que o homem tiraria da cartola? Qual o tamanho do gol?

    Bom, como todos sabem, Jobs se foi. E deixou a ingrata tarefa de substiuí-lo para Tim Cook. Que tem se esforçado para manter a bola em jogo.

    Mas não é fácil andar usando os sapatos de outra pessoa.

    O último evento da Apple, onde apresentaram o  esperado iPhone 5, foi o mais decepcionante dos últimos tempos. Dizer que um evento que movimentou sozinho a imprensa do mundo todo e que gerou a compra de 5 milhões de aparelhos logo após foi um fracasso seria uma afirmação de maluco. Na verdade, o evento apenas acendeu uma luz amarela, que se a Apple tiver juízo, já deve ter percebido.

    A verdade é que a Apple tem muito gás pra queimar. Mas o posto que ocupa atualmente é muito dificil de manter. E perder a liderança a essa altura do campeonato pode significar perder o segundo lugar também, rápidamente. Pergunte a empresas como a Nokia, Motorola e Microsoft, que já estiveram lá, e que hoje lutam para recuperar a imagem que tiveram. Algumas apostas erradas e anos de trabalho podem ir para o ralo, de uma hora para outra.

    Quais são os sintomas?

    Quando se trata de uma marca já estabelecida, raramente uma doença é tão fulminante que leva a morte instantânea. É um processo lento, que começa com poucos indicativos, mas que se entra em larga escala, contamina toda a organização.

    Por enquanto, são leves mudanças no cenário. Mas se a Apple desmerecê-las, pode pagar um preço alto:

    O Custo da Expectativa

    A Apple vem surpreendendo sempre, em todas as suas apresentações. Quando não era uma coisa, era outra. Quando seu celular não chamava a atenção, um componente de software o fazia. Quando não tinha um produto novo, mudava radicalmente um antigo. Não foi o que ocorreu desta vez. Apresentaram um iPhone que tem pouca coisa de novo. São mudanças incrementais que, fora o tamanho da tela, não justificariam um auê tão grande. Mais grave, o produto final é nitidamente inferior ao seu concorrente direto, coisa que não é comum na empresa.

    O que deveriam ter feito? Não lançado o produto?

    Não creio. Muito tempo sem um produto novo no mercado não combina com a aceleração da tecnologia de hoje. Talvez mais acertado seria lançar de maneira mais contida, num evento menor ou talvez direto para as prateleiras. Mesmo que o nome não fosse um iPhone 5. Que soltassem o produto com o nome de 4S alguma coisa.

    O próprio iPad passa por um problema parecido. A última versão do tablet apresentou muito poucas novidade além da linda tela retina display.

    Ao longo do tempo, a Apple acostumou o mercado com apresentações grandiloquentes e anúncios espetaculares. Manter o monstro da expectativa sob controle, exceder as previsões não é algo que se consegue facilmente.

    A Apple não é só iPhone

    O mercado de celulares mudou depois da chegada do iPhone. Mas a Apple já vinha numa curva ascendente antes dele. Com os iMacs, Macbooks e com os softwares, ela sempre surpreendeu.

    O Mac OsX é, pelo menos para mim, um marco no lançamento dos sistemas operacionais. Me lembro como se fosse hoje da cara de espanto da plateia ao ver os ícones que pareciam gel, as janelas que se contraíam para expandir a velocidade absurda do sistema, quando vi a apresentação pela primeira vez, num evento.

    Já se passaram 11 anos desde esse lançamento, e ainda estamos na mesma versão 10 do aplicativo. Lógico, ele foi muito melhorado, mas a essência é a mesma. E o Windows 8 (deixando claro, não vi ainda como ele se sai no dia-a-dia  de uma empresa) tem mais cara de novo. Cheira a novidade, traz soluções diferentes.

    Os iMacs não mudam grande coisa há algum tempo também. Por um lado, para proprietários desses micros, é bom, poisé um sinal que eles sobrevivem bem à política de obsolescência programada que a própria Apple usa em seus outros produtos. Mas para o mercado é uma grande âncora. E dá a impressão de que os esforços da companhia estão todos em outra área.

    Meu bem, meu mal.

    Por fim, um problema controverso.

    Ao longo dos anos a Apple construiu um público que toda empresa gostaria de ter. Fiel, apaixonado, pronto para defender sua paixão pelos produtos como se fosse uma religião.

    Durante um bom tempo, esse publico foi identificado (e ajudado pelo marketing da própria empresa) como sendo pessoas sofisticadas, tranquilas e descoladas. A campanha da Apple trazia um sujeito ultra cool usando os produtos Apple em contrapartida com um gordinho trapalhão, que era a síntese do usuário de PC.

    Enquanto esse público esteve em minoria, foi fácil, e até salutar, manter esse estereótipo. O usuário sentia-se como parte de um clube. Como se fosse um dos poucos escolhidos para partilhar um segredo muito importante.

    Quando a maioria do público passa a se sentir assim, a história vira. Todo mundo que comprou um iPod, um Iphone, um iPad ( e não foi pouca gente ) passou a se sentir possuidor por direito do rótulo de MacLover.

    Enquanto os aparelhos apareciam nas mãos de designers, icones da moda, escritores e “formadores de opinião”, era bacana carregar esse rótulo. Agora, me parece que lentamente, está deixando de ser…

    Pagar mais um aparelho quase igual ao anterior? Não é cool.

    Dormir na fila para ser o primeiro a comprar um celular que vai custar 99 dolares daqui há um ano? Definitivamente não é cool.

    Processar a torto e a direito companhias que estão fazendo produtos legais apenas por motivos comerciais? Nem um pouco cool.

    O rótulo de Apple User tem perdido o brilho. Alguns usuários antigos estão preferindo se mostrar abertos a outras marcas do que ostentar títulos como Macfag ou coisa pior.

    A concorrência já sacou isso, e está se movendo de maneira diferente. A Samsung está apostando na comparação direta (os anúncios do Galaxy S3 são excelentes), na integração que pode oferecer por ser uma empresa que produz produtos tão distintos e na abertura que o sistema Android oferece para contra atacar. Além disso, como a Samsung lança seus produtos sem muito estardalhaço, algum fracassos no caminho não são percebidos como “bolas fora”. O Galaxy Note, que eu jurava que não funcionaria, caiu nas graças de uma parcela da população. Não me lembro de um evento feito somente para promover esse produto.

    A Microsoft está construindo um público absurdamente envolvido com sua plafatorma do Xbox Live. Gente que se loga todos os dias, se relaciona de um modo inédito e resolve vários problemas na frente da TV. Não se assuste se a plataforma chegar ao mobile de alguma maneira muito diferente em pouco tempo.

    O Google vem sendo visto como um inimigo pela Apple, e faz questão de fingir que não percebeu. Devem estar rindo de uma orelha a outra com as reações negativas ao sistema de mapas da Apple. Seu Google Plus, no começo visto como uma piada, vem aumentando consideravelmente. Quem sabe o que o futuro reserva. Eles, como a Samsung, não tem medo de colocar no ar algo em modo beta, testar, e se não der certo, arrancar de lá.

    Talvez a Apple precise se lembrar um pouco do seu espírito de empresa que nasceu na garagem. Que preferia ser pirata do que bucaneira. Que experimentava.

    A Apple não precisa ter medo de suas falhas. Precisa é reaprender a errar.