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  • Escolhi uma profissão de merda. E agora?

    Escolhi uma profissão de merda. E agora?

    Em 2013, a Forbes soltou uma matéria mostrando as profissões menos rentáveis dos EUA. E lá estava o Design Gráfico, em plena terra do Tio Sam, com um dos 8 piores níveis salariais do país.

    Na época, o blog da Propósitto tinha o foco muito mais centrado no designer. Hoje, procuramos dar maior prioridade aos assuntos que interessam aos clientes. Escrevi esse artigo na tentativa de entender os porques do descaso do mercado com nossa profissão. E não poderia esperar um resultado tão forte.

    Em pouco tempo, mais de 150 mil leituras se acumularam, tornando-o o texto de maior sucesso do blog. E muitos anos depois, ele continuava a ter tração de ferramentas de busca. Prova de que haviam muitos designers correndo atrás das mesmas respostas.

    Agora, no mês em que a Propósitto completa 10 anos de existência, resolvi trazê-lo de volta, e talvez voltar a falar um pouco com os designers. Porque de lá para cá, algumas coisas mudaram, algumas para melhor, muitas para pior. Como está a vida do designer hoje?

    Resolvi escrever este texto para tentar trazer a discussão para outros focos, e ligar pontos que ficam desconexos. De um modo ou de outro, a mudança desse panorama passa por discussões sérias, onde cada lado vai ter que apresentar argumentos sólidos para convencer o outro. Porque, indo cada um para um lado, como está, não iremos a parte alguma. Eis o que penso:

    1 – Se você comprar esse lixo, ele é todo seu

    Vejamos. A pesquisa diz que estamos na base da cadeia alimentar. Somos devorados por todos. Estamos entre os primeiros a ser descartados quando a água bate nos digníssimos traseiros de nossos empregadores.

    Existe um lado não explorado na matéria, que tem a ver com outra matéria que eu li, semanas atrás. Essa aqui. Ela dá conta de que milhares de pessoas aportando no mercado de trabalho atual tem procurado as áreas da chamada “Economia Criativa”. Áreas que teoricamente são “excitantes”, “vibrantes”, que têm menos regras de conduta, com horários mais flexíveis, em que você pode ser mais você. Setores como games, software, audiovisual, moda, editoração e mídia, e é claro, DESIGN.

    Isso transformou o setor numa certa meca, um local de sonhos, onde as empresas mais parecem clubes, cheias de gente interessante, inteligente, com valores pessoais tão grandes… E dura, sem grana.

    É preciso que se saiba, que estamos entre as áreas mais demandadas da economia atual. O design exerce um papel cada vez maior da escolha de compra do consumidor. Em alguns casos, é o fator central. Milhões e milhões de dólares são feitos sobre o trabalho de valorosos designers.

    Mas o sonho, dizem, é trabalhar por prazer. Bom, eu tenho algo a dizer:

    2 – Trabalhe por grana

    Amigos meus de longa data, profissionais competentes, com portfólios bem estruturados me dizem que o mercado não está pra brincadeira. Que um diretor de arte num estúdio de médio porte ganha por volta de R$ 3.000,00, bruto (e de 2013 para cá, acreditem, isso não mudou, nem mesmo se atualizou). E para merecer esse salário, ele vai ter que dominar o pacote master Adobe, manjar de HTML, CSS, PHP, arranhar um ASP, se virar num 3D Max e saber fazer vinhetas animadas pra vídeo.

    Minha reação quanto a isso. Para mim, não. Eu não dirijo arte por R$ 3.000,00. Antes disso, faço um curso de torneiro mecânico, uma profissão que não exige muito da minha criatividade, mas que paga melhor do que isso, e nas horas vagas eu pinto quadros, faço histórias em quadrinhos, aprendo a tocar um instrumento e mato meu desejo por realização criativa.

    É preciso aprender a dizer não. E isso é mais difícil do que se espera.

    Afinal, como deixar passar aquele job de logo para uma Surf Shop que caiu no seu colo, mas que o dono agora não tem grana pra investir? Como recusar aquela ilustra engraçadinha que vai sair numa revista mais ou menos bem-lida? Como deixar de pegar o catálogo só porque o dono da empresa quer que você também tire fotos da linha de produtos inteira dele, mesmo você explicando que só tem a câmera do celular? E como correr o risco de perder uma concorrência só porque você vai perder duas noites num “rascunho” simples que todos os outros designers vão fazer, para o cliente escolher qual gosta mais?

    É fácil dizer. Mas na hora, o medo da dispensa leva muitos a colocar os rabos entre as perninhas, mandar um “ok”, e o pior de tudo, ainda achar algum prazer na experiência do estupro.

    Seu cliente precisa saber que você trabalha por dinheiro, assim como ele. Que você está comprometido com o sucesso daquele projeto para que ele ganhe dinheiro, e te procure novamente para que você faça sua mágica. É simples assim. Você precisa cobrar o suficiente para que, se um dia tiver seu dia completamente lotado de trabalhos, esteja bem de vida. O quão bem de vida? Isso é contigo. Eu tenho meus sonhos, e as duas únicas ferramentas que tenho para realizá-los são meu trabalho, e a chance de acertar sozinho na mega-sena.

    3 – Projete a imagem de si que você quer que os outros vejam

    Saiba que seu cliente tem uma visão de você. E que você o ajudou a construir essa visão.

    Na cabeça dele, um advogado, um engenheiro ou um médico muito bem-sucedidos andam de BMW, tem casas na praia e viajam para a Europa com a família nas férias. Um designer muito bem sucedido tem um iPhone, dirige um Kwid e usa roupas “muito loucas”.

    Culpa sua.

    São os valores que você mostrou para seu chefe, para seus amigos, sua rede. Você fala disso, veste isso, dirige isso, e parece não ter as preocupações que todos têm em relação ao futuro. “A vida até parece uma festa”, diriam os Titãs. Você tenta passar para o mundo que nasceu predestinado, com um dom, e que por isso não dá trabalho fazer o que faz. É tranquilo, com um pé nas costas. Bom, ninguém valoriza quem trabalha na moleza. Você sente muito prazer em sua profissão, guarde-o para si. Até ator pornô diz que o trabalho dele é bem duro e técnico.

    Todo profissional quer ser respeitado. O modo como cada um batalha para conseguir esse respeito e proteger seu meio de vida é que difere.

    Alguns designers que tenho visto (e alguns são muito bons), tentando quebrar essa visão, tem usado um approach absurdamente técnico no exercício do design. Explicam grids, pixels, minúcias tipográficas, tendências com uma desenvoltura que eu poucas vezes vi. É uma saída. O cliente e o mercado passam a ver design como uma profissão, não como estilo de vida. Mas não sou completamente a favor.

    Na minha opinião, deveriam estar se esmerando na arte de mostrar para o cliente o quanto o investimento dele RETORNA ao seu bolso. O quanto ele PRECISA investir em design, antes que o concorrente o faça, ou faça melhor, e o deixe chupando o dedo. O quanto o design vale a pena, e a quantidade de gente que não entende patavina disso tudo. O lado técnico estará lá, mas embutido dentro da entrega. Caso contrário, o risco é o cliente achar que tudo isso é muito complicado para ele e deixar para seu sobrinho, que não lhe dá essas dores de cabeça.

    Não sei quem foi que disse, que, o mundo seria diferente se todos soubessem o que se passa dentro de um centro cirúrgico ou numa fábrica de linguiça. No fundo, nem tudo o cliente tem que saber. E dissecar os tintins por tintins da área para todos é no máximo um bom exercício acadêmico, que surte um grande efeito na pagação de pau entre outros designers.

    4 – Regulamentação?

    Estamos convivendo com uma ameaça(?) de regulamentação desde que eu me formei, e olha que eu fiz paste-up.

    Eu já fui a favor, já fui contra e muito pelo o contrário.

    Hoje, eu acho que é um caminho natural, como profissão, de se ter alguma regulamentação. O difícil é achar que isso ajuda a mudar qualquer coisa desse panorama. Ok, vamos ter uma lei que diz que não se poderá pagar menos que um salário mínimo para um estagiário. E daí? Que precisará de diploma para exercer (será?) mas e daí?

    Porém, por mais sentido que possa fazer, a impressão que dá depois de tantos anos é que não vai sair. Não vai porque não é prioridade para ninguém. Não vai porque não conseguimos fazer dessa uma pauta relevante, e não vai porque nesse momento, o mundo tem mais com o que se preocupar.

    Se o mercado não valoriza uma profissão por si só, uma lei vai fazer isso?

    Alguém acha que a Regulamentação vai obrigar um patrão pagar R$ 10.000 para um diretor de arte?

    Que vai impedir que os bróder fiquem trampando até as 3 da matina para entregar layout a troco de pizza (mesmo que na lei seja proibido, mesmo sem regulamentação nenhuma)?

    Que um cliente pague a um designer o suficiente para que ele possa viver dignamente e dedique a quantidade de horas necessária para que ele lhe entregue um trabalho realmente de primeira?

    Sempre gostam de nos comparar com as leis de médicos, advogados e engenheiros (eu mesmo fiz isso parágrafos acima), profissões ultra-regulamentadas, que tem entidades de classe representativas. Mas precisamos entender certas verdades do mercado.

    Aceite: o mundo sempre vai precisar mais de médicos, engenheiros e advogados. Se fossemos atacados por alienígenas hoje, iríamos precisar especialmente dos dois primeiros. É do jogo.

    Mas isso não quer dizer que precisemos ganhar menos do que a secretária de um médico. Porque no frigir dos ovos, médicos, advogados e engenheiros vão ao supermercado, e resolvem comprar um produto em detrimento do outro porque a embalagem ou a marca lhe passou mais confiança. Compram carros porque são mais bonitos. Vestem roupas que combinam com estilos de vida que um designer ajudou a criar. Portanto, enquanto os aliens não chegam, você é sim, parte importante da sociedade em que vivemos, e merece ser pago pelo que faz.

    5 – O que ninguém falou

    Junto da lista da Forbes, há uma outra matéria (essa). Que diz que as profissões ligadas a arte e ciências estão entre as menos bem pagas nos EUA.

    Se você ler, vai ver que eles colocam a faixa dos salários. A frase que me chamou a atenção é essa: “Quando conseguem um emprego, o salário médio é de apenas US$ 28 mil por ano, em comparação com ganhos iniciais de um engenheiro mecânico, de US$ 58 mil anuais”.

    Faça as contas. US$ 28 mil por ano dá, em valores de hoje, algo em torno de R$ 14.000 mensais, para um iniciante. O que mostra que aqui, em terras tupiniquins vamos ter que melhorar MUITO para ficar ruim igual lá.

    Ou seja: se você não quer abraçar a carreira de torneiro mecânico, e melhor começar a fazer algo para mudar.

  • Como o mercado vê o Designer

    Como o mercado vê o Designer

    Não acredite em mim. Acredite no google.

    O Google, além do uso óbvio para se encontrar qualquer coisa na face da terra, pode servir como um excelente termômetro do mercado. Eu vinha há algum tempo encafifado, procurando um modo de exemplificar como a sociedade vê os designers, e como isso influencia nos nossos resultados.

    Faça um exercício comigo. Vá até o Google Imagens, e digite: administrador de empresas.

    Sei que os resultados podem mudar de um dia pro outro. Mas o que você vai obter é mais ou menos isso (clique, que elas aumentam):

    Jovens, adultos, profissionais, poder, ternos e tailleurs.

    Agora busque “médico” .

    Senhores, serviço, seriedade, austeridade, equipe, confiança.

    Para continuar, agora “engenheiros”.

    Capacetes, obras, papéis enrolados, sucesso, trabalho.

    E por fim. Busque: “designer”.

    Eu não sei o que vocês vêem. Apesar de haver uma ou duas imagens boas, o que eu vejo é: legal, bacaninha, engraçadinho, espertinho, descolado. E sem nenhuma foto de um profissional.

    É assim que o mundo te vê.

    Há problema nisso? Bom, eu vejo.

    Como um profissional que cuida rotineiramente de marcas, você deve saber o que um posicionamento errado faz com um produto. O quanto ele pode ajudar ou atrapalhar. A imagem errada pode afundar um bom produto, sabemos disso, passamos por isso dia-a-dia. Mas não nos enxergamos como produtos. Não sabemos nos vender.

    O que está intrínseco nessa maneira que as profissões são percebidas fica totalmente claro quando qualquer um desses profissionais é contratado, seja por um cliente, seja por uma empresa. Quando uma empresa abre um cargo de Diretor Admnistrativo, está implícito que ele deve pagar um salário compatível com a imagem que o mercado faz de um administrador de empresas. No carro, na casa, nas viagens e na continuidade da educação que um administrador projeta. Mesma coisa com um engenheiro, ou com um médico.

    Não estou aqui comparando as profissões, e sim a percepção do mercado em relação a elas. É claro que um médico é mais importante que um designer na sociedade, mas o fato é que todos consomem muito mais design do que medicina ao andar por uma rua, ao ligar a TV ou ir ao supermercado. O mundo está inundado de design, até nas caixas de remédio.

    E qual seria a imagem que o mundo tem de nós? Bom, eu fui atrás de amigos, fiz uma pequena pesquisa informal, sem dados para sustentar o que vou expor, por isso sinta-se livre para achar tudo que direi uma perda de tempo.

    De uma maneira geral, os designer são vistos como sujeitos jovens, meio avoados, que usam roupas “bacanas”, alargadores nas orelhas e trabalham de tênis. São engraçados, divertidos e felizes. Moram em apartamentos alugados, de um dormitório, com brinquedinhos legais nas estantes, e dirigem algo como um Peugeot 206 ou um Uno Novo.

    Ninguém lembra se designer tem ou não filhos, ou se faz pós-graduação, se viaja com a familia, se tem casa de campo. Coisas que são normais para outras profissões.

    E como isso nos afeta?

    1 – Na hora de cobrar pelo trabalho. 

    É o maior impacto. Seu cliente vai chorar, negociar muito mais do que o normal. E mesmo depois que ele conseguir um super desconto, vai cobrá-lo mais fortemente do que cobraria outro profissional. Vai se sentir no direito de usar palavras que não usaria com um médico. Vai achar um absurdo ter que assinar um contrato que seria natural com um advogado.

    Clientes de designers acham normal pedir um trabalho e depois sumir. Pagar uma prestação e esquecer as outras. Acham desculpável dizer “eu fiquei sem tempo de revisar” por três meses. São coisas que não acontecem com frequência em outras áreas. Isso porque, no fundo, acham que você “é o cara que faz uns desenhos”. Não um profissional.

    2 – Na hora de te contratar.

    Pegue uma tabela de salários. Um diretor administrativo ganha facilmente até R$ 40 mil. Um diretor de marketing R$ 30 mil. E um diretor de arte (salvo os que vivem no mundo à parte das grandes agências) muito bem sucedido, ganhará R$ 8 mil. Mas a grande e avassaladora maioria trabalhará por no máximo três mil reais. E olhe lá. Quando uma linha de produtos for bem sucedida, darão parabéns ao marketing, nunca ao departamento de arte. Aliás, o próprio nome “departamento de arte” já é revelador. Parece que, ao entrar na sala, o cliente encontrará dezenas de sósias do Salvador Dali sujos de tinta. Deveria ser “Departamento de Design, Comunicação e Criação”. Assim mesmo, com criação por último.

    O RH de uma empresa nem pensa em contratar grandes profissionais para seu setor. O padrão é um profissional razoável, tomando conta de hordas de recém-formados e estagiários que farão o serviço pesado com sorrisos nos rostos e um fone na orelha.

    Trabalho de fim de semana? Horas extras? Promoções? Essas coisas raramente passam pela cabeça do contratante. Na ideia que ele faz de um designer, isso é inerente à profissão, e desde que se pague uma pizza, está tudo beleza, porque nós nos estamos antes de tudo, nos divertindo.

    3 – Na hora de viver sua vida

    Acompanho jovens e promissores designers ávidos por colocar as mãos em grandes trabalhos aceitarem condições desumanas de trabalho apenas para terem a oportunidade de “fazer uma capa”, ou um “logo de surfwear”, coisas que são muito “bacanas” no inconsciente coletivo dos designers. Bem, caros, isso raramente leva comida a mesa, ou paga a escola do seu filho.

    Mais cedo ou mais tarde você poderá querer comprar aquela casa, ou aquele carro. E vai precisar levar comprovações de renda, carteiras assinadas, extratos de banco e todo o pacote que vem junto. E aí você vai sentir essa diferença.

    Não há problema em gostar do que se faz. Puxa, na verdade é uma benção.

    Mas quando o mercado traduz esse gosto como pura diversão, algo está errado. E vai se voltar contra você.

    Como mudar o panorâma?

    Essa é uma daquelas coisas que é mais fácil falar do que fazer. Mas é simples.

    A primeira coisa é aprender a dizer não. Parece óbvio, mas a verdade é que certos nãos nos libertam. Desenhe uma linha imaginária no chão, e diga “daqui não passo. É o máximo que aguento”.

    Não é necessário mandar apagar a laser as tatoos, ou costurar os buracos dos piercings. Mas é sim, necessário saber se portar numa reunião com diretores e presidentes. Saber falar um português (quase) perfeito, sem gírias ou terminologias que só designers entendem.

    Precisa sair do gueto. Aquele gueto de luxo, onde se anda só com designers, publicitários, redatores e criativos. Há um mundo de pessoas interessantes, negócios inovadores e soluções que você não vai encontrar dentro da caixa onde está.

    Veja a si mesmo como um produto. Você consegue desenhar uma caixa que faz as pessoas quererem comprar sabonete de farelo de aveia, mas não consegue descobrir porque as pessoas não querem comprá-lo? Pense.

    É um trabalho árduo. Nossa profissão é nova, e temos um caminho longo pela frente. O que me assusta é que ás vezes tenho a sensação de que estamos nos distanciando do ideal, não chegando lentamente a ele.

    Tenha a certeza de que, por menor que seja sua mudança de atitude, ela ajuda. Pouco a pouco, podemos fazer um novo horizonte para designers no país, sem precisar de sindicalistas ou políticos.